Mohammed Abu Obaid/EFE/EPA
Mohammed Abu Obaid/EFE/EPA

Entenda a crise provocada pelo golpe militar no Sudão

Golpe aconteceu poucos dias depois que a capital, Cartum, teve os maiores protestos pró-democracia desde o levante, em meio a semanas de agitação entre os grupos militares e civis

The Washington Post, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2021 | 20h00

Há mais de dois anos, um levante popular depôs o ditador de longa data do Sudão, Omar al-Bashir, e deu início a uma nova era de mudanças e possibilidades para a nação africana de cerca de 45 milhões de habitantes. Mas as ruas do Sudão ficaram cheias de medo e incerteza no dia 25, depois que os militares detiveram o primeiro-ministro, dissolveram o governo e se declararam no comando no país durante o estado de emergência.

O golpe aconteceu poucos dias depois que a capital, Cartum, teve os maiores protestos pró-democracia desde o levante, em meio a semanas de agitação entre os grupos militares e civis. Também ocorreu logo após as autoridades americanas se reunirem com os líderes militares do Sudão para reiterar que a ajuda dos EUA permanecia condicionada à transição total para um governo liderado por civis neste ano.

No mês passado, autoridades sudanesas disseram que frustraram uma tentativa de golpe por forças leais ao ex-presidente. Saiba mais sobre os oficiais militares agora no comando e os líderes civis que eles expulsaram.

Quem está no comando do Sudão agora?

Depois de quase três décadas de governo autocrático brutal de Bashir - que dependia fortemente das repressões  militares e políticas - o Sudão tem trilhado um caminho com obstáculos para a transição democrática.

Na euforia pós-levante, grupos civis e militares concordaram em formar um governo de transição de compartilhamento de poder chamado Conselho Soberano. Eles estabeleceram um roteiro para avançar em direção a um governo exclusivamente civil este ano e realizar eleições até 2023.

O principal comandante militar do Sudão, o tenente-general Abdel Fattah al-Burhan, acabou sendo nomeado chefe de Estado. E foi Burhan que apareceu na televisão sudanesa no dia 25 para divulgar a notícia da tomada de poder pelos militares.

Burhan nunca foi aceito pelas forças revolucionárias do Sudão. O general evoluiu na hierarquia militar sob Bashir. Em fevereiro de 2019, dois meses antes da remoção de Bashir, Burhan se tornou o inspetor-geral do Exército. Nessa função, ele supervisionou e coordenou com as Forças de Apoio Rápido (RSF, por sua sigla em inglês) paramilitares do Sudão (também chamadas de Janjaweed) - que foram acusadas de abusos dos direitos humanos em Darfur e, mais recentemente, contra manifestantes pró-democracia. Em um incidente notório em junho de 2020, mais de 100 pessoas foram mortas quando a RSF invadiu um local de protesto. Burhan também estava encarregado das forças do Sudão, que incluíam a RSF, na guerra do Iêmen liderada pelos sauditas.

Um dos principais pontos de discórdia entre os líderes militares e civis do Sudão é se devem cumprir uma ordem do Tribunal Penal Internacional contra Bashir que, junto com os militares, foi acusado de cometer crimes de guerra em Darfur no início de 2003. O Conselho Soberano ainda não aprovou a transferência de suspeitos. Os ativistas também pressionaram Burhan e seus aliados a endossar a divulgação de uma investigação sobre os ataques de junho de 2020 contra os manifestantes, uma investigação que deverá envolver os militares.

Bashir continua na prisão, cumprindo pena mínima de 2 anos depois de ser condenado por lavagem de dinheiro e corrupção em 2019.

Onde estão o primeiro-ministro do Sudão e os líderes civis?

Desde a derrubada de Bashir, o Sudão tem sido governado por um conselho de transição civil-militar híbrido, e as tensões sobre a divisão do poder aumentaram intermitentemente. No mês passado, soldados pró-Bashir tentaram um golpe, mas falharam.

O lado civil do governo tem sido liderado pelo primeiro-ministro Abdalla Hamdok, um ex-economista e analista de política sênior que trabalhou para várias organizações multinacionais, incluindo o Banco Africano de Desenvolvimento e o Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral. Ele também atuou como secretário-executivo adjunto da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África. Ao assumir o poder, Hamdok nomeou a paz e a resolução de crises econômicas como prioridades durante a transição de três anos para o regime civil.

De acordo com o Ministério da Informação, as forças militares pressionaram o primeiro-ministro a fazer uma declaração golpista e o prenderam na manhã do dia 25.

Várias outras figuras importantes do governo e líderes políticos foram detidos nesse dia. Duas autoridades disseram à agência de notícias Associated Press que os detidos incluem um assessor de mídia de Hamdok e um governador do Estado que inclui a capital, bem como os ministros da Informação e da Indústria.

Em um comunicado postado no Facebook, o escritório de Hamdok disse que a mulher do primeiro-ministro também foi tirada de sua residência. Um dia depois, seu gabinete informou que ele e a mulher retornaram para sua casa e ficariam sob 'estrita vigilância', segundo a agência France Presse.

O que aconteceu representa "um rompimento do documento constitucional" e um "golpe completo" contra as conquistas da revolução que "nosso povo sacrificou com sangue em busca de liberdade, paz e justiça", dizia o comunicado do gabinete de Hamdok.

Quando Burhan anunciou as novas medidas na televisão estatal, ele não abordou especificamente as prisões do primeiro-ministro e de outros membros do governo.

O que isso significa para a transição política do Sudão?

Muito permanece sem esclarecimento. Os chefes de vários países árabes vizinhos - muitos dos quais foram benfeitores do Sudão - até agora emitiram apelos modestos pedindo calma. As Nações Unidas e outros países ocidentais condenaram o golpe. Os EUA disseram aos cidadãos americanos no Sudão que se abrigassem. A União Africana suspendeu a adesão do Sudão. Israel, que no ano passado assinou um acordo de normalização das relações com o Sudão, não fez uma declaração oficial.

O governo Biden disse no dia 25 que suspenderá US$ 700 milhões em assistência econômica bilateral ao Sudão, embora

se espere que a ajuda humanitária continue. “Estamos observando de perto para ver como os militares respondem, para fazer tudo o que pudermos para garantir que os militares respeitem o direito de reunião pacífica e, em última análise, para garantir que eles respeitem as aspirações do povo sudanês de restaurar o caminho do país para a democracia ”, disse o porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price.

Enquanto o país atravessa a turbulência política, também enfrenta uma grave crise financeira que continuará a ser uma pressão para quem está no poder.

Burhan, vestido com uniformes militares, disse no dia 25 que continua comprometido com a realização de eleições e a transição para um governo civil. Enquanto isso, as forças de segurança ainda reprimem manifestantes pró- democracia nas ruas do Sudão. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.