Kevin Lamarque/Reuters - 2019
Kevin Lamarque/Reuters - 2019

Entenda a escalada de tensões entre EUA e China

Fechamento de consulado, guerra comercial, disputa tecnológica e questões humanitárias fazem parte da disputa por protagonismo no cenário internacional entre as maiores potências econômicas do mundo

Renato Vasconcelos e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2020 | 10h46
Atualizado 24 de julho de 2020 | 17h40

A tensão entre Estados Unidos e China aumenta a cada semana em uma disputa que envolve aspectos econômicos, financeiros, políticos, tecnológicos e militares. As duas maiores potências econômicas do mundo têm disputado o protagonismo em quase todas as questões em pauta no cenário internacional. Nesta semana, a determinação do fechamento do consulado da China no Texas e a represália ordenando o fechamento do consulado americano na metrópole de Chengdu levou o conflito a outro patamar.

O cenário que leva às disputas tem diversas causas. Desde a guerra comercial travada por Donald Trump e Xi Jinping até a denúncia de espionagem chinesa em solo americano, feita na quinta-feira, 23, pelo secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo. Questões humanitárias envolvendo a repressão a liberdades individuais em Hong Kong e a perseguição de minorias muçulmanas na China também pesam. E, como pano de fundo, a disputa por quem terá o domínio das principais tecnologias do futuro. 

De acordo com o ex-embaixador do Brasil nos EUA Sérgio Amaral, a questão entre EUA e China deve plasmar toda a organização do período pós-coronavírus em áreas que vão do desenvolvimento tecnológico às parcerias comerciais. "Na medida em que os dois principais pólos do eixo de poder possam assumir formas de confronto, de hostilidade, isso vai levar a uma disputa pela conquista de áreas de influência e de aliados ou adversários", disse em entrevista recente ao Estadão

"Nem EUA nem China estão interessados em encerrar disputa", afirma Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da FGV. Para ele, a opinião pública chinesa e americana esperam respostas à altura para a disputa entre as duas nações. "É uma espiral e nenhum dos dois estão interessados em encerrar esse processo agora. A situação vai piorar ainda mais". Confira abaixo alguns pontos do conflito.  

Fechamento de consulados

A China ordenou na sexta-feira, 24, o fechamento do consulado americano em Chengdu, cidade localizada no sudoeste do país, em retaliação aos EUA pelo fechamento da representação diplomática chinesa em Houston dois dias antes. A medida chinesa foi tomada horas depois de o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, acusar o consulado chinês no Texas de ser um "centro de espionagem".

Por meio de um comunicado, o Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que a medida é "uma resposta legítima e necessária às medidas irracionais dos Estados Unidos". Pelo lado americano, a justificativa apontada para o fechamento do centro diplomático chinês foi a "proteção da propriedade intelectual americana e as informações privadas dos americanos", nas palavras de Morgan Ortagus, porta-voz da Secretaria de Estado. O governo americano declarou que "a China se envolve há anos em operações ilegais de espionagem nos Estados Unidos contra funcionários do governo dos EUA e cidadãos americanos".

Denúncia de espionagem

Antes do fechamento do consulado chinês em território americano, contudo, os EUA denunciaram dois cidadãos chineses por espionagem. Li Xiaoyu, de 34 anos, e Dong Jiazhi, de 33, teriam feito ciberataques a empresas americanas roubando segredos industriais avaliados em milhares de dólares ao longo de dez anos. Mais recentemente, os dois cidadãos - que são apontados como "hackers que trabalham para o Ministério chinês de Segurança" - teriam tentado roubar informações sobre uma vacina em desenvolvimento contra a covid-19. As autoridades chinesas classificaram como "calúnias" as acusações.

A denúncia provocou uma subida de tom nas declarações da cúpula do governo de Trump. Pompeo reafirmou a denúncia de espionagem chinesa durante um pronunciamento na Califórnia na quinta, 23. E ainda atacou o regime chinês, o qual taxou de 'autoritário', 'agressivo' e 'hostil'. "Se o mundo livre não muda a China comunista, a China comunista nos mudará", disse o secretário. 

Eleições americanas

Para analistas e observadores internacionais, o presidente Donald Trump também busca projeção eleitoral na disputa com a China. "O Trump vai tornar essa questão da China a principal arma dele contra Joe Biden. Isso vai continuar e se agravar daqui a novembro", afirmou Rubens Ricupero, o ex-embaixador nos EUA, em entrevista ao Estadão.

Segundo o diplomata, a maior parte da opinião pública americana tem antipatia com a China por distintas razões, de modo que abordar esse assunto de forma dura pode trazer ganhos eleitorais. As pesquisas mais recentes mostram Trump atrás de Biden em até 14 pontos, conforme uma investigação recente do New York Times/Sienna College. Pesam contra o atual presidente uma gestão confusa da pandemia do novo coronavírus e a crise econômica que afeta os EUA, o país com mais casos e mortes decorrentes da covid-19.

Guerra comercial

Uma das principais frentes da disputa entreocorre na esfera econômica. A chamada "guerra comercial" começou em janeiro de 2018, quando Trump começou a impor tarifas extras para a entrada de produtos chineses nos EUA. Após a taxação de diversos produtos, o governo de Xi Jinping respondeu na mesma medida, impondo tarifas a produtos americanos em abril do mesmo ano.

Desde então, os países alternam momentos de avanço e retrocesso nas negociações. Os EUA acusam constantemente o regime chinês de manipular o câmbio, desvalorizando o yuan frente ao dólar, para tornar seus produtos mais competitivos no mercado internacional.

Huawei, tecnologia 5G e cibersegurança

O protagonismo no mercado das telecomunicações também é motivo de embate entre Washington e Pequim. O governo americano vem pressionando países aliados a impedirem a participação da empresa chinesa Huawei na implementação da tecnologia 5G em seus territórios. A retórica americana usa diversos aspectos do conflito entre os dois países como justificativa, desde a cibersegurança até violações de direitos humanos cometidos pelo regime chinês.

Países importantescomo Reino Unido e França já sucumbiram à pressão americana e proibiram ou limitaram a presença da chinesa nessa tecnologia. Em 14 de julho, o governo de Boris Johnson  decidiu banir a Huawei da rede de 5G no país, enquanto autoridades francesas avisaram na quinta, 23, que operadoras de telecomunicações que planejam comprar equipamentos 5G da empresa não poderão renovar licenças quando expirarem, eliminando a empresa chinesa das suas redes móveis.

A desconfiança americana sobre o uso de empresas de tecnologia para espionagem pelo governo chinês não se limita a Huawei. No começo de julho, Mike Pompeo afirmou em entrevista à Fox News americana que o país cogita banir aplicativos de redes sociais chineses, como o TikTok. Segundo Pompeo, parlamentares americanos demonstram preocupação com a segurança nacional em razão do uso de dados de usuários do aplicativo. O Tik Tok é alvo de investigação do Federal Trade Commission (FTC) e do Departamento de Justiça dos EUA por supostamente violar a privacidade de crianças nos EUA.

Hong Kong

Ao determinar o fim do tratamento econômico e comercial especial concedido a Hong Kong em represália à lei de segurança nacional da China, os EUA subiram mais um grau no tom da disputa comercial. Antes de ser devolvido à China pelo Reino Unido, em 1997, Hong Kong teve como promessa de Pequim a garantia de sua autonomia. Haveria "um país e dois sistemas", o que permitiria ao território conservar liberdades que não se aplicam na China continental - economia livre, justiça independente, liberdade de expressão e um parlamento elegido parcialmente por sufrágio universal. Tudo isso está em risco com a nova lei. 

"A China vê Hong Kong sob o aspecto de uma parte que já foi sua e talvez um dia volte a ser. É uma questão de segurança nacional e há o receio de que uma liberalização de Hong Kong possa ter influência na sociedade chinesa. Mas Hong Kong vê a situação pela ótica de que o documento que permitiu a transferência de volta para a China, em 1997, assegura os ideais de democracia e de liberdade que os chineses não têm", resumiu em entrevista ao Estadão o diplomata Sérgio Amaral, que foi embaixador do Brasil nos EUA e é presidente emérito do Conselho Empresarial Brasil-China. 

Minorias muçulmanas 

Outro alvo constante de ataques americanos é a repressão do regime chinês contra os uigures, minoria muçulmana que habita a região de Xinjiang, no oeste da China. Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), um milhão de muçulmanos foram detidos em "campos de reeducação" na região.

Relatos da imprensa internacional mostram que há uma ampla campanha de Pequim para que os uigures passem a seguir o Partido Comunista, enfraquecendo seu compromisso com o Islã e transferindo-os de suas fazendas para fábricas. Cidades e vilarejos são cercados por postos de controle da polícia que usam tecnologia de reconhecimento facial para registrar as idas e vindas das pessoas. Pequim nega esse número e fala em "centros de treinamento profissional", que funcionariam para apoiar o emprego e combater o extremismo religioso

Em junho, Trump sancionou uma lei para impor sanções aos responsáveis pela repressão aos uigures. O projeto de lei foi aprovado no Congresso dos EUA quase por unanimidade, mesmo com ameaça de retaliação por parte dos chineses.

O Brasil na disputa geopolítica

Na avaliação do pesquisador Lucas Leite, professor de relações internacionais da FAAP, o Brasil historicamente não tomaria partido em uma disputa entre duas potências. "Nossa política externa sempre foi marcada por uma mediação e pela busca de um diálogo", relembra, ressaltando que a postura mudou desde a posse de Jair Bolsonaro em janeiro de 2019. Segundo Leite, a posição do governo brasileiro hoje é pró-Trump, mais do que pró-americana, o que afeta a forma como outros países percebem o País no sistema internacional. 

Caso o país adote uma posição favorável a um lado ou outro, o pesquisador acredita que o Brasil teria mais a perder do que a ganhar. "O Brasil poderia ser afetado na medida em que o governo Trump colocasse ultimatos em relação a formas de fazer comércio com os EUA ou coloque para seus parceiros limitações no uso de tecnologias como o 5G da Huawei (como ocorreu no Reino Unido). Isso afetaria nossa relação com a China, nosso principal parceiro comercial, sem necessariamente nos colocar em uma posição melhor com os EUA".  / Com informações do NYT, Reuters e AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.