Arash Khamooshi/The New York Times
Arash Khamooshi/The New York Times

Entenda a influência do general Suleimani no Irã e no Oriente Médio

Militar morto em ataque a mando dos Estados Unidos era uma das principais lideranças do país asiático

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2020 | 05h01

A morte do general Qassim Suleimani, alvo de um ataque no dia 2 de janeiro no Iraque a mando do governo dos Estados Unidos, levou milhares de iranianos às ruas da capital do país, Teerã, nesta segunda-feira, 6. Suleimani era uma figura carismática, visto como um herói nacional no Irã e símbolo da resistência contra a hegemonia americana no Oriente Médio. 

Para apoiadores e críticos, Suleimani era o líder da influência iraniana na região, onde reforçou o peso diplomático de Teerã, sobretudo no Iraque e na Síria, países em que os Estados Unidos estão envolvidos militarmente.   

De onde vem a popularidade do general Qassim Suleimani?

O general Qassim Suleimani foi um líder militar e político carismático dentro do Irã. Aos 62 anos, era um dos nomes mais fortes do regime. Ele comandava as Forças Quds da Guarda Revolucionária, responsável pelas operações da República Islâmica no exterior. Ele já liderava as Forças Quds quando os EUA invadiram o Afeganistão em 2001.   

"Ele representava a ideia de um Irã forte, que projeta sua força para além do território interno, que tem uma capacidade de ser um líder regional", explica Lucas Leite, professor de relações internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). "Era um líder militar e político e uma das pessoas mais consultadas nos processos de decisão". 

Para apoiadores e críticos, Suleimani, que desempenhou um papel importante na luta contra as forças jihadistas, foi o homem chave da influência iraniana no Oriente Médio, onde reforçou o peso diplomático de Teerã, sobretudo no Iraque e na Síria, dois países em que os Estados Unidos estão envolvidos militarmente.   

Para Gunther Rudzit, coordenador do núcleo de estudos e negócios em Oriente Médio da ESPM, a força de Suleimani vem da percepção de que ele conseguia defender os interesses iranianos na região do Oriente Médio.

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O Suleimani representava a capacidade de o Irã enfrentar e liderar a resistência à hegemonia dos EUA
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Depois de permanecer afastado dos holofotes por décadas, Suleimani começou a aparecer com destaque na imprensa a partir do início da guerra na Síria, em 2011, onde o Irã ajuda o regime do presidente Bashar Al Assad. Suleimani também disse que estava no Líbano, com o Hezbollah xiita, durante a maior parte do conflito israelense-libanês de 2006. A afirmação ocorreu em uma entrevista exclusiva exibida pela TV pública iraniana em outubro. 

Uma pesquisa publicada em 2018 pelo instituto IranPoll e a Universidade de Maryland mostrou que 83% dos iranianos tinham uma opinião favorável de Suleimani, resultado melhor que o registrado pelo presidente Hassan Rohani e o ministro das Relações Exteriores, Mohamad Javad Zarif.   

Qual a influência de Suleimani no Iraque?

Carismático, Suleimani exerceu grande influência nas negociações políticas a partir de 2018 para a formação de um governo no Iraque. Toda vez que havia uma situação política ou militar relevante no Iraque, ele viajava para atuar nos bastidores. 

O avanço do grupo Estado Islâmico (EI), o referendo de independência no Curdistão ou a formação de um governo: em todas as ocasiões ele se reuniu com as diferentes partes e definiu a linha a seguir, afirmam fontes que acompanharam os encontros, que sempre aconteceram sob sigilo.   

O que é a Guarda Revolucionária do Irã?

Criada em 1979 após a Revolução Islâmica que tirou o xá Reza Pahlevi do poder, a guarda foi uma forma de o aiatolá Khomeini, o novo líder do país, organizar um grupo de militares para sua defesa. 

"Ele não confiava nas Forças Armadas iranianas e temia um golpe que o derrubasse. Então, criou a guarda diretamente subordinada a ele, e não ao presidente", explica Gunther Rudzit. As forças atuam na defesa do governo, na manutenção da estabilidade e no apoio aos grupos que estão no poder. 

O que são as Forças Quds?

As Forças Quds são forças especiais da Guarda Revolucionária do Irã que atuam fora do território e de forma não-convencional. Esse grupo construiu alianças com grupos e governos da região que se opõem a Arábia Saudita e Israel, aliados dos Estados Unidos na região. São grupos como Hezbollah no Líbano, o Hamas, na Faixa de Gaza, e os houthis, no Iêmen. As Forças Quds também apoiaram o governo de Bashar Al Assad na Síria contra grupos rebeldes. 

"É através das Forças Quds que o Irã conseguiu criar esse Eixo da Resistência aos Estados Unidos, fortalecendo grupos focais em locais estratégicos para combater outros grupos, e para fortalecer sua influência política na região", afirma Lucas Leite, da FAAP. 

"A força que Suleimani liderava tem como missão coordenar o campo de resistência para libertar a Palestina. Esse é o objetivo final", resume Salem Nasser, professor de direito internacional da FGV-SP. 

Para Entender

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Agora, as Forças Quds serão lideradas por Esmail Qaani. "Após o martírio do glorioso general Qassem Suleimani, nomeio o brigadeiro-general Esmail Qaani comandante da força Al-Quds da Guarda Revolucionária", declarou o aiatolá Ali Khamenei. 

Até agora, Qaani era vice-comandante da força. "As ordens da força Al-Quds permanecem exatamente as mesmas que sob a direção do mártir Suleimani", explicou o guia supremo. / Com informações da AFP 

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