Entenda a relação do Paquistão com Índia e Afeganistão

Ataque a Mumbai acirrou inimizade entre os vizinhos; Islamabad é peça-chave do Ocidente no combate ao terror

Da Redação, com agências internacionais,

08 de dezembro de 2008 | 17h13

A crescente violência no Paquistão aumentou as preocupações com a estabilidade do país, que possui armas nucleares. Com oito meses de seu novo governo civil, Islamabad ainda enfrenta as conseqüências da crise econômica e ameaça dar calote em sua dívida externa. O apoio do Paquistão é considerado fundamental para os esforços do Ocidente em derrotar a Al-Qaeda globalmente e o Taleban no Afeganistão. Porém, além de combater a deterioração da segurança na região noroeste do país, na fronteira afegã, o governo tenta diminuir a tensão com o governo indiano.   Veja também: Paquistão prende suspeito de ordenar ataques em Mumbai Índia jamais cauterizou as feridas de 1947 Assista ao vídeo com cenas dos ataques  Imagens de Mumbai     Índia e Paquistão são inimigos históricos desde a independência dos dois países do Reino Unido, em 1947. Ambos disputam a província da Caxemira. Os ataques a Mumbai, que deixaram pelo menos 171 mortos no coração financeiro indiano, representam um grande obstáculo para o processo de paz entre os dois países, iniciado em 2004. O governo indiano sugere que Islamabad teria vínculos com os atentados, o que o Paquistão nega veementemente.   A rivalidade permanente entre indianos e paquistaneses já gerou três guerras, a última delas em 1971, e dividem uma fronteira tensa e militarizada na região da Caxemira. O próprio serviço secreto paquistanês é suspeito de ter arquitetado um ataque contra o Parlamento indiano em 2001, além de apoiar grupos separatistas na Caxemira. O Paquistão, por sua vez, acusa a Índia de fazer o mesmo na província do Baluchistão, na fronteira sul entre os dois países. Além disso, ambos Estados disputam uma corrida nuclear, nem sempre velada, que poderia, num grave cenário de crise, ter conseqüências imprevisíveis.   Se for confirmada a hipótese de que o Paquistão esteve envolvido nos ataques em Mumbai, as conseqüências negativas serão sentidas não somente nas relações com a Índia, mas, principalmente, na confiança que os Estados Unidos ainda depositam no governo paquistanês como um de seus parceiros na luta contra o terrorismo.   Zonas tribais   Militantes usam as áreas tribais como base para operações no Paquistão e do outro lado da fronteira, no Afeganistão. Acredita-se que o Taleban e a al-Qaeda estariam operando na região após terem sido forçados para fora do Afeganistão. A presença dos grupos radicais nas regiões fronteiriças resultou em ataques americanos dentro do Paquistão. Os ataques irritaram o governo paquistanês e, como resultado, houve incidentes na fronteira em que tropas paquistanesas atiraram contra helicópteros americanos por uma suposta violação de espaço aéreo. Acredita-se que Osama bin Laden possa estar escondido ali, sob a proteção de centenas de extremistas.   A maior parte dos suprimentos para as forças americanas no Afeganistão são enviadas por caminhões passando pelo Paquistão. Em Peshawar, cidade da zona tribal paquistanesa em que se encontra uma rota usada para levar material para a missão internacional em território afegão, diversos caminhões da Otan com suprimentos para as tropas têm sido atacados por militantes.   O presidente americano George W. Bush autorizou forças especiais americanas a cruzar fronteiras afegãs e paquistanesas até o noroeste do Paquistão, onde zonas tribais têm servido como santuário para militantes da Al-Qaeda e Taleban. O Paquistão qualifica as operações militares dos EUA no país como uma violação à soberania nacional. Para o governo paquistanês, elas apenas promovem a simpatia da população local pelos militantes islâmicos.   Os terroristas   Suspeitos pelos ataques em Mumbai, os militantes paquistaneses do grupo Lashkar-e-Taiba ("Exército dos Misericordiosos") lutam contra a Índia na região da Caxemira. Eles ficaram conhecidos depois do ataque ao Parlamento indiano, em 2001, que matou dez pessoas e quase levou os dois países a uma guerra. Apesar de estar proibido no Paquistão desde 2002, o Lashkar nunca se desfez e suspeita-se que o grupo tenha se ligado a radicais paquistaneses do Taleban e da Al-Qaeda. O grupo, porém, nega ter relação com os atentados de Mumbai.   O Lashkar foi criado em nos anos 90 pelo combatente Hafiz Mohammad Saeed, especificamente para lutar contra o que chamam de "ocupação indiana" de parte da Caxemira, de maioria muçulmana. Por muito tempo, o Lashkar foi apoiado pelo serviço de inteligência paquistanês, que também se opõe à presença indiana na região.   Apesar de o Paquistão já ter se posicionado oficialmente contra a atuação do Lashkar, a Índia acusa o vizinho de não combater o grupo de fato. Oficialmente, a organização islâmica foi banida do Paquistão. Pressionado pelo governo indiano, Islamabad lançou nesta semana, em sua parte da Caxemira, uma operação policial contra o grupo, embora fontes ocidentais duvidem de seu verdadeiro alcance.   Atualmente, o Lashkar opera abertamente em Lahore. O grupo, antes concentrado na Caxemira, já expandiu sua área de atuação para regiões tribais do Paquistão e está determinado a participar de uma jihad global, segundo a fontes de inteligência ocidental.   Cronologia da tensão Índia x Paquistão   1947 - Colônia britânica é dividida entre Índia (de maioria hindu) e Paquistão (de maioria muçulmana).  Por causa da Caxemira, Índia e Paquistão travam sua primeira guerra;   1965 - Segunda guerra entre os dois países pela Caxemira;   1971 - Pela terceira vez, Índia e Paquistão entram em guerra. Independência do Paquistão Oriental, que vira Bangladesh;   1974 - Índia explode sua primeira bomba nuclear;   1998 - Paquistão faz seu primeiro teste nuclear;   2001 - Militantes atacam o Parlamento indiano e matam 14. Índia atribui a autoria a grupo paquistanês. Acusação quase leva a nova guerra;   2004 - Índia e Paquistão instauram um processo de paz que melhora as relações bilaterais, mas a disputa pela Caxemira continua sem solução.

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