Entenda a violência na Mesquita Vermelha do Paquistão

Ao ser reocupado por radicais islâmicos, templo prova ser o retrato acabado de um país dividido

27 Julho 2007 | 14h38

A menos de 2 quilômetros da sede do poder do Paquistão, a Mesquita Vermelha de Islamabad voltou a se tornar centro das atenções em todo mundo nesta sexta-feira, 27, depois que radicais islâmicos reocuparam o complexo religioso. Treze pessoas morreram num aparente atentado terrorista próximo ao local. Cenário de intensos combates que deixaram mais de 100 mortos há duas semanas, o templo era controlado por clérigos radicais inspirados no Taleban, que tem como objetivo impor a lei islâmica, ou Sharia, no país.  Mais do que casos isolados de tensão religiosa, os episódios relacionados a mesquita são o retrato acabado de um país divido entre as forças que apóiam o presidente pró-EUA Pervez Musharraf e os radicais islâmicos que controlam as regiões isoladas nas fronteiras do país.  É sempre bom lembrar que foi no Paquistão que o surgiu o Taleban, movimento radical islâmico que controlou o falido Afeganistão até a invasão do país pelos EUA. E é nessas regiões fronteiriças, entre elas o Waziristão, o local que os membros remanescentes do movimento usam de base para lançar ataques contra forças da Otan em operação no Afeganistão. As movimentações das últimas semanas na Mesquita Vermelha foram o clímax de meses de atuação truculenta dos seguidores dos clérigos do templo, que inicialmente chamaram a atenção da autoridades paquistanesas com seqüestros, ameaças de atentados suicidas e pedidos de imposição da lei islâmica.  Para dar cabo ao primeiro cerco, entre 4 e 12 de julho, o Exército invadiu o local, matando dezenas de pessoas, entre elas um dos clérigos. Como muitos analistas previam e foi anunciado pelos radicais, a ação militar desencadeou uma onda de violência nas regiões tribais do Paquistão, com ataques suicidas às forças do governo. Apesar das mortes entre soldados e policiais, o principal alvo dos ataques é o presidente Musharraf, odiado tanto pelos radicais - que vêem nele um aliado dos Estados Unidos em "guerra contra o Islã" - quanto pelas forças democráticas do Paquistão. Apesar de apoiado por países ocidentais, o presidente é pouco adepto de práticas republicanas, e não hesita em passar por cima de quem for preciso para colocar sua vontade em prática.  Agora, após a reabertura da Mesquita Vermelha - pintada de branco, numa tentativa de apagar o escabroso passado recente do templo -, o local volta a levar as divisões do país para centro do poder paquistanês. Resta saber qual será o desfecho desse novo episódio, e como Musharraf reagirá a ele.

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