AP Photo/Ariana Cubillos
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Entenda como a economia da Venezuela entrou em colapso nos últimos anos

Governo de Nicolás Maduro enfrenta uma das piores crises econômicas já vistas no país; chavista buscará se reeleger no domingo

O Estado de S.Paulo

17 Maio 2018 | 11h45

CARACAS - A Venezuela passou da bonança dos petrodólares para uma de suas piores crises econômicas durante o governo de Nicolás Maduro, que buscará sua reeleição no pleito deste domingo. Veja abaixo como começou a crise e o que o futuro reserva ao país.

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Bonança

Entre 2004 e 2015, o país com as maiores reservas de petróleo recebeu cerca de US$ 750 bilhões, em sua mais longa bonança em um século de exploração petroleira. Enquanto a dependência da commodity - fonte de 96% de suas receitas - crescia, o governo de Hugo Chávez (1999-2013) aproveitava o boom para se financiar a baixo custo. 

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Ele emitiu cerca de US$ 62 bilhões em títulos soberanos e da petroleira PDVSA, segundo a consultoria Ecoanalítica, e recebeu empréstimos da China e da Rússia. A dívida externa aumentou cinco vezes, a US$ 150 bilhões. As reservas internacionais atingiram 42,3 bilhões em 2008. Hoje são um quarto disso.

Os gastos públicos também dispararam e, em 2012, houve um déficit de 15,6% do PIB, apesar do fato de o barril de petróleo ter atingido uma média recorde de US$ 103,42 dólares. Esse déficit "igualou ao da Grécia em seu pior momento", disse Orlando Ochoa, economista da Universidade de Oxford.

Onipresente

Na época, o governo socialista nacionalizou setores como cimento e aço, e expropriou centenas de empresas. Desde 2003, monopoliza as divisas e impõe um controle de preços, que, com as expropriações e importações subsidiadas, minou a indústria.

"O setor privado foi induzido a substituir a produção por importações baratas", disse Ochoa. O setor empresarial hoje fornece 20% do consumo, comparado a 70% em 2008, segundo a Fedeagro.

O controle cambial resultou em corrupção, com importações fantasmas, superfaturamento e desvio de dólares para o mercado negro, onde as cotações multiplicaram por 12 a oficial. As estatizações fizeram várias empresas diminuírem e levaram a litígios, como é o caso da petroleira americana ConocoPhillips, que tomou ativos da Venezuela no Caribe para cobrar US$ 2 bilhões.

Ruínas

O caminho para o colapso já estava traçado quando o preço do petróleo despencou de US$ 98,98 o barril, em julho de 2014, a US$ 47,05 no fim do ano. Em 2016, o preço médio foi de US$ 35,16. As receitas caíram de US$ 121 bilhões em 2014 para US$ 48 bilhões em 2016. 

A produção da PDVSA foi de 3,2 milhões de barris diários em 2008 a 1,5 milhão em abril, segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Assim, o impacto da recuperação dos preços é limitado.

Como ajuste, o governo reduziu as importações e a entrega de divisas, ampliando a escassez de alimentos e medicamentos. As importações, de US$ 66 bilhões em 2012, serão de US$ 9,2 bilhões em 2018, estima a Ecoanalítica. 

O financiamento do déficit e a disparada do "dólar negro" em razão da falta de divisas originaram uma hiperinflação estimada pelo FMI em 13.864,6% neste ano. O PIB retraiu 45% desde 2013, também segundo o Fundo, passando de US$ 400 bilhões a US$ 120 bilhões. "Indicadores de um país em guerra", apontou Asdrúbal Oliveros, da Ecoanalítica.

Futuro

Venezuela e PDVSA foram declaradas em moratória parcial em 2017 em razão de atrasos no pagamento da dívida. Para os próximos quatro anos, os compromissos chegam a US$ 10 bilhões anuais. 

Maduro, que se diz vítima de "uma guerra econômica", anunciou uma renegociação, mas desde agosto Washington proíbe os americanos de negociarem novas dívidas venezuelanas. Um embargo seria iminente, alerta Alejandro Grisanti, da Ecoanalítica, que prevê que a produção de petróleo cairia a 1,2 milhão de barris diários no fim de 2018.

Os EUA apontam para um embargo petroleiro, um cenário catastrófico já que um terço da produção se destina ao país e representa 75% do fluxo de caixa. A crise venezuelana é uma "das maiores" do mundo em 50 anos, alerta o FMI. E ainda não chegou ao fim. / AFP

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