Entenda o caso da libanesa presa em São Paulo

Presa em um flat da zona norte de São Paulo após tentar subornar dois investigadores da Polícia Civil paulista, na noite do dia 12 de março, a economista libanesa Rana Abdel Rahim Koleilat pode ser uma peça chave nas investigações que tentam identificar os responsáveis pelo ousado atentado que matou o ex-primeiro-ministro do Líbano, Rafic Hariri, há pouco mais de um ano. Isso porque, apesar de enquadrada no código penal brasileiro numa flagrante tentativa de suborno, Rana, que foi executiva do banco libanês Al-Madina, é acusada de ter concedido créditos no valor de US$ 800 milhões a grupos sírios supostamente envolvidos no ataque a bomba contra o comboio de Hariri. A suspeita foi levantada pela Comissão Internacional Independente das Nações Unidas designada pelo Conselho de Segurança da ONU para investigar o caso, e chegou à Polícia Civil paulista depois de uma denúncia anônima. Um homem de sotaque estrangeiro entrou em contato com a 7ª Delegacia Seccional de São Paulo informando a localização da suspeita. Dias mais tarde, soube-se que o anônimo era na verdade um vendedor de carros com quem Rana tinha uma dívida milionária. O homem veio ao Brasil para receber o dinheiro, mas como Rana não o pagou, ele optou por denunciá-la. Para confirmar a veracidade da informação, a polícia civil entrou em contato com o escritório brasileiro da Interpol - mantido pela Polícia Federal - e teve acesso ao pedido de localização expedido pelo escritório da entidade em Beirute. Isso tudo, no entanto, não levaria à prisão de Rana caso ela não tivesse tentado subornar os policiais. No Brasil, o pedido de localização da Interpol não pode resultar em prisão automática. Após receber a notícia de que Rana estava detida, o governo libanês pediu a extradição da economista. O caso está agora nas mãos da justiça brasileira, que além de analisar o pedido de extradição, terá que decidir o que fará com a acusação de suborno contra Rana. O atentado O ex-primeiro-ministro libanês Rafic Hariri foi morto no dia 14 de fevereiro de 2005 vítima de um violento atentado a bomba provocado pela explosão de 300 quilos de explosivos. Outras 20 pessoas morreram e mais de cem ficaram feridas. O ataque remexeu nas velhas feridas do conflito entre o Líbano e a Síria, já que todas as suspeitas da autoria do atentado logo recaíram sobre Damasco. Hariri encabeçava uma campanha pelo fim da ingerência da Síria no país. Ele havia renunciado ao cargo de primeiro-ministro por não concordar com a extensão do mandato do presidente pró-Síria, Emile Lahoud. Com a morte de Hariri, as pressões internacionais sobre Damasco aumentaram, levando à retirada das tropas sírias que permaneciam em território libanês após 19 anos de ocupação. A suspeita As suspeitas de que Rana Abdel Rahim Koleilat estaria envolvida no assassinato do ex-primeiro-ministro libanês surgiram após a falência do Banco Al Madina, responsável pela lavagem de grandes quantias de dinheiro movimentadas por políticos, parentes de autoridades locais e oficiais do Exército da Síria. Segundo a imprensa libanesa, Rana, que era uma das principais executivas da instituição, teria participado do desvio de cerca de US$ 1,1 bilhão. Parte dos recursos (cerca de US$ 800 milhões) teria sido destinada a grupos ligados ao governo sírio e supostamente envolvidos no atentado. Rana foi presa, mas ganhou liberdade provisória em março de 2005. Desapareceu do país logo em seguida. Antes de ser presa no domingo, foi vista no Egito e na Síria. De acordo o passaporte falsificado que apresentou à polícia, ela teria passado também pelo Iraque, China, Turquia e República Checa. As investigações O choque causado pelo assassinato de Hariri e a sensação generalizada de que o governo sírio teria participação no ataque levaram à abertura de uma investigação encabeçada pelo Conselho de Segurança da ONU. E, em um relatório publicado em outubro de 2005, comissão designada para solucionar o caso confirmou as suspeitas. Segundo o relator alemão Detlev Mehlis, membros do círculo de assessores da segurança e inteligência do presidente da Síria e oficiais militares do Líbano estariam envolvidos no atentado. As suspeitas também recaíram sobre o presidente libanês Emile Lahoud, que teria recebido minutos antes do atentado um telefonema de um dos implicados. Segundo as investigações da ONU às quais o Estado teve acesso, Rana seria uma peça-chave para descobrir como o atentado foi financiado.

Agencia Estado,

15 Março 2006 | 21h54

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.