Andy Rain/Efe
Andy Rain/Efe

Entenda o escândalo de grampos do tabloide 'News of the World'

Acusado de escutas ilegais, um dos jornais de maior circulação do país será fechado após 168 anos

BBC Brasil, BBC

08 de julho de 2011 | 06h36

LONDRES - O grupo que controla o News of the World, o jornal dominical mais vendido da Grã-Bretanha, anunciou na quinta-feira que o tabloide deixará de circular a partir da próxima semana devido a seu envolvimento em um escândalo de escutas telefônicas ilegais. Publicado há 168 anos, e atualmente com uma tiragem de 2,8 milhões de exemplares a cada domingo, o jornal gerou um debate nacional sobre ética jornalística.

A BBC preparou uma série de perguntas e respostas sobre o caso e os acontecimentos que levaram ao fechamento do tabloide.

Como o escândalo começou?

As acusações de que funcionários do News of the World estariam envolvidos em interceptação ilegal de telefones começaram a pipocar em 2006. Em 2007, a Justiça condenou à prisão o correspondente do jornal para assuntos da Realeza Clive Goodman e o investigador Glenn Mulcaire por causa do grampo ilegal de telefones de membros da família real.

A Polícia Metropolitana de Londres iniciou uma nova investigação em janeiro de 2011, após alegações de que milhares de pessoas, entre elas atores, políticos, jogadores de futebol, apresentadores de TV e outras celebridades, tiveram seus telefones hackeados.

Em abril deste ano, o tabloide admitiu pela primeira vez publicamente ter interceptado mensagens deixadas na caixa postal de celulares de pessoas envolvidas em casos cobertos pelo jornal.

O caso ganhou contornos de escândalo nessa semana, com a denúncia de que um detetive que trabalhava para o jornal teria grampeado o telefone celular de Milly Dowler, uma menina de 13 anos que desapareceu em 2002.

A manipulação das mensagens, ainda em 2002, fez a polícia e a família da adolescente de 13 anos acreditarem que ela ainda estaria viva, já que sua caixa postal continuava em atividade. O corpo foi encontrado depois.

Quem teria sido grampeado?

Logo após a revelação do caso Milly Dowler, os jornais britânicos revelaram que, em busca de histórias exclusivas, o News of the World fez escuta nos celulares de familiares de soldados britânicos mortos no Afeganistão e no Iraque e de vítimas de casos policiais explorados pelo tabloide.

Parentes de vítimas dos atentados de julho de 2005 em Londres também teriam sido alvo dos grampos. Segundo o Guardian, 3 mil pessoas foram vítimas de escutas ilegais. Entre os que teriam tido suas linhas violadas pelo News of the World estão celebridades, como o ator Hugh Grant e as atrizes Sienna Miller e Gwyneth Paltrow, esportistas e políticos.

Como o News of the World realizava os grampos?

Telefones celulares vendidos na Grã-Bretanha vinham com um código de quatro dígitos (que geralmente era um número padrão, como 1234, 0000 ou 3333). Ao comprar os aparelhos, os consumidores deveriam trocar esta senha, mas poucos se davam ao trabalho de fazê-lo.

Os repórteres de tabloides e detetives particulares podiam simplesmente ligar para o número da pessoa investigada. Se ninguém respondesse, a ligação caía na caixa de mensagens. Bastava então entrar com a senha padrão para acessar as mensagens.

Outra tática comum entre os repórteres era trocar a senha do telefone para impedir que outros jornalistas acessassem a caixa de mensagens.

O que diz o jornal?

O News of the World inicialmente negou qualquer infração e admitiu as escutas apenas após forte pressão da imprensa e das vítimas, em abril passado, pedindo então desculpas pelo ocorrido. O tabloide, no entanto, não admitiu o grampo no celular da garota Milly Dowler nem de familiares de militares mortos no Afeganistão e no Iraque.

O que dizem as vítimas?

Famílias de militares mortos no Afeganistão e no Iraque se disseram indignadas com as alegações. Muitas já entraram na Justiça. Para Adrian Weale, representante do associação de militares Federação das Forças Armadas Britânicas, "esta é uma situação lamentável, se de fato ocorreu".

Celebridades também já haviam processado o jornal. A atriz Sienna Miller, por exemplo, recebeu indenização de 100 mil libras (R$ 248 mil). O jornal também foi condenado pelo coronel Richard Kemp, ex-comandante das forças britânicas no Afeganistão, que disse que as acusações o deixaram "absolutamente sem palavras e com raiva".

O caso já está sendo investigado?

A Scotland Yard (Polícia Metropolitana de Londres) reabriu as investigações sobre as escutas do News of The World em janeiro passado, após o vazamento de alguns casos. Quatro e-mails que supostamente davam indícios do esquema foram encontrados pelos investigadores. Imediatamente, o News of the World afastou um de seus editores-assistentes, Ian Edmondson.

As mesmas suspeitas já haviam sido investigadas entre 2006 e 2009, sem que a polícia chegasse a grandes conclusões, o que foi objeto de críticas de jornais como o Guardian. Na época, apenas o editor para assuntos de realeza Clive Goodman e o investigador Glenn Mulcaire foram presos.

A editora-chefe do jornal em 2002 - à época das escutas de Milly Dowler - Rebekah Brooks, está no centro da polêmica. Atual diretora-executiva do grupo que controla o News of the World, ela tem o apoio do magnata Rupert Murdoch, dono do conglomerado de comunicações News Corp., do qual o tabloide faz parte. Ele já disse que não irá afastá-la do cargo, apesar da pressão da imprensa.

Qual foi a reação do governo?

No dia 7 de julho, o primeiro-ministro David Cameron fez severas críticas ao caso. Cameron prometeu uma investigação independente, assim que a Scotland Yard concluir seu inquérito.

O fato de Andy Coulson, um dos editores do News of the World durante a prisão do especialista em realeza, ter sido indicado porta-voz de Cameron também é motivo de polêmica. Coulson renunciou ao cargo no início deste ano.

O caso pode ter consequências para Rupert Murdoch?

Até o momento, Murdoch tem tentado se distanciar do caso. Mas a polêmica poderá ter implicações sobre seus negócios. Já antes do estouro do escândalo, parte da opinião pública pedia que o governo barrasse as negociações de Murdoch para a compra da operadora de TV a cabo BSkyB. O caso deve afetar as pretensões do empresário.

O escândalo por si só também afugentou anunciantes do grupo e derrubou as ações do conglomerado em Bolsas americanas e da Austrália. Quem também pode sair perdendo é Rebekah Brooks. Logo após o anúncio do fechamento do News of the World, o líder da oposição britânica, o trabalhista Ed Miliband, foi enfático ao pedir seu afastamento. "Ela deve sair", disse.

 

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