REUTERS/Brian Snyder
REUTERS/Brian Snyder

Entenda: o que muda na campanha dos EUA com a covid de Trump

Contaminação de presidente dos Estados Unidos pode alterar a reta final da corrida eleitoral americana 

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 16h25

O anúncio feito pelo presidente Donald Trump  por volta da 1h da manhã desta sexta-feira, 2, de que está com covid-19, aumenta a turbulência em uma já tumultuada capanha eleitoral.

A contaminação do presidente pelo coronavírus a 32 dias da eleição vai mudar de imediato o ritmo da campanha, com consequências políticas ainda imprevisíveis.

Na história recente dos Estados Unidos, nenhum presidente candidato à reeleição teve um problema de saúde tão grave durante a reta final de uma campanha presidencial.

A maioria das pesquisas indica que Trump está atrás de Joe Biden. O site FiveThirtyEight calcula que é uma diferença de 8,2 pontos percentuais. O New York Times fez uma pesquisa que mostra Biden liderando com folga quatro Estados decisivos onde Trump foi vitorioso em 2016.

Biden e sua mulher, Jill, testaram negativo para a covid-19 nesta sexta-feira. Em sua conta no Twitter, Biden desejou melhoras a Trump e Melania. Abaixo, entenda quais são as principais mudanças na campanha.

Impactos na campanha de Trump

Pode ser positivo? 

Para alguns analistas, o impacto do teste positivo para a covid-19 de Trump será neutro ou até mesmo levemente positivo. “Trump que está sob pressão ficará, nessa fase,  menos exposto a possíveis ataques advindos de seu adversário democrata. Os apoiadores do presidente tendem a mobilizar a base religiosa num processo de vigília por seu estado de saúde”, disse Hussein Kalout, pesquisador da universidade Harvard e ex-secretário de assuntos estratégicos do governo de Michel Temer.

 Ao Estadão/Broadcast, o presidente de Relações Públicas do Instituto Ipsos nos Estados Unidos, Clifford Young, disse que é “cedo para precisar os desdobramentos eleitorais da notícia”, mas lembrou que o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e o presidente Jair Bolsonaro registraram melhora em índices de popularidade após contraírem o novo coronavírus.

Para Entender

Eleições nos EUA: entenda o processo eleitoral americano

Saiba como funcionam bipartidarismo, prévias, escolha dos vices, colégio eleitoral, votos, apuração e pesquisas na disputa presidencial dos Estados Unidos

Pode ter efeito negativo?

A consultoria Eurasia aumentou a chance de uma vitória de Biden de 65% para 70%, mas com a possibilidade de rever isso ao longo do dia.

Eleitores podem ser lembrados do descaso de Trump com o vírus. “É difícil imaginar que isso (o diagnóstico) não acabe com suas esperanças de reeleição”, disse um consultor do Partido Republicano, Rob Stutzman, ao The New York Times

Trump poderia ficar incapacitado do ponto de vista médico, dando novo tom à crise de saúde que já matou mais de 207 mil americanos.

De acordo com a 25ª Emenda da Constituição, o presidente americano tem a opção de transferir temporariamente o poder para o vice Mike Pence, que teve teste negativo para a doença, e pode reclamar sua autoridade sempre que se considerar apto para o cargo. Desde que a emenda foi ratificada em 1967, isso ocorreu apenas três vezes.

Em 1985, Ronald Reagan passou por uma colonoscopia e por um breve período transferiu o poder para o vice-presidente George Bush, embora não tenha mencionado explicitamente a emenda ao fazê-lo. 

George W. Bush, por sua vez, invocou a emenda duas vezes ao passar temporariamente o poder ao vice  Dick Cheney ao realizar duas colonoscopias, em 2002 e 2007.

Comícios

Mesmo com as regras que impedem aglomerações, Trump estava participando de atos políticos e comícios. Com o diagnóstico de covid-19, ele não poderá sair da Casa Branca por 14 dias. 

A campanha do presidente já afirmou que os eventos serão adiados ou realizados virtualmente. Nesta sexta-feira, 2, Trump iria à Flórida, mas a viagem foi cancelada. Havia um comício programado para o sábado, em Wisconsin, e outro para a segunda-feira, no Arizona. 

Encontros com eleitores

Trump também terá de suspender encontros com eleitores. Campanhas americanas costumam organizar encontros com partidários para angariar fundos para a campanha.

Trump se apoia em eventos políticos presenciais para arrecadar fundos e despertar entusiasmo entre seguidores.

As viagens de campanha e arrecadação de fundos planejadas para os próximos dias — com visitas a Estados-chave, como Wisconsin, Pensilvânia e Nevada — devem ser canceladas, já que o presidente permanece em quarentena na Casa Branca.

Sem seus comícios e sem poder abordar questões que mais entusiasmam seus eleitores, fica mais difícil diminuir a distância em relação a Biden, que mantém vantagem constante na média das pesquisas nacionais há algum tempo.

Quais são os impactos na campanha de Joe Biden 

Pode ser positivo?

Joe Biden terá ao menos 14 dias, o período de quarentena de Trump, para percorrer Estados-pêndulo, aqueles que ainda não têm um inclinação clara de qual candidato será eleito, e tentar angariar mais votos.

Apesar de Trump, dependendo do estado de saúde em que estiver, poder fazer comícios de maneira virtual e usar suas redes sociais para amplificar suas opiniões, Biden poderá ter mais espaço na mídia e aparecer mais, além de poder intensificar sua campanha. 

Ou pode ter efeito negativo?

O CEO e fundador da Ideia Big Data, Maurício Moura, acredita que a evolução da doença do presidente terá um peso relevante no tamanho do impacto eleitoral. Moura, que atualmente participa do OPM (Owners/President Management Program) da escola de negócios de Harvard, compara a situação de Trump com a de Boris Johnson, primeiro líder mundial entre as principais economias do mundo a ter a covid-19.

"Vai depender muito da evolução da doença. Se ele tiver um quadro assintomático, o impacto é mínimo. Se houver um agravamento do quadro e for necessária a hospitalização, como foi com Boris Johnson - que ganhou popularidade quando esteve hospitalizado - teremos um impacto a ser analisado com muito mais detalhamento", afirmou Moura, alertando que ainda não existem dados disponíveis para mensurar o impacto eleitoral.

Saúde de Biden

Um dos ataques preferido de Trump contra Biden está relacionado à saude do democrata. Trump, de 74 anos, acusa Biden, de 77 anos, de ter uma saúde frágil para liderar o país. 

Com Trump doente, provavelmente a sua própria condição física pode ser questionada. “É ruim um presidente que adoece na campanha. E como não se trata de um atentado, que pode dar um gás na corrida, a contração de uma doença que ele minimizou, que ele não fez nada pra se proteger, é difícil ter impacto positivo”, diz Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV em São Paulo.

Agora, as próximas semanas com certeza serão dominadas por discussões constantes sobre a saúde de Trump, com foco na pandemia cuja gestão, na opinião da maioria dos americanos, foi mal conduzida pelo presidente dos EUA.

Campanha mais intensa 

Os democratas têm sido cautelosos ao evitar eventos e aglomerações que podem implicar mais infecções. No entanto, Biden vinha sendo pressionado para intensificar as ações.

Ao receber o resultado negativo para seu teste de covid-19, Biden confirmou que continuará com sua campanha, e vai para Michigan nesta sexta-feira, 2. Michigan é um dos Estados do cinturão da ferrugem, que eram democratas e votaram em Trump em 2016. /Eduardo Gayer, Rodrigo Turrer e Renato Vasconcelos, com AFP e REUTERS

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.