REUTERS/Alexandre Meneghini
REUTERS/Alexandre Meneghini

Entenda: o que vai acontecer com Cuba após as eleições nos EUA?

Cubanos e analistas comentam as políticas de Obama e de Trump e avaliam os cenários de reeleição do republicano ou vitória de Biden

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2020 | 03h00

HAVANA - Há cinco anos, a embixada dos Estados Unidos em Havana reabria em frente ao mar, como parte de uma histórica aproximação, interrompida após a chegada de Donald Trump ao poder. O que pode acontecer com Cuba a partir de novembro? A menos de três meses para as eleições americanas, tendo Trump e o democrata Joe Biden na disputa, analistas e cidadãos cubanos levantam algumas questões importantes. 

O que acontecerá se Trump for reeleito?

Trump reverteu os avanços do antecessor Barack Obama com relação a Cuba e endureceu o embargo que os EUA impõem à ilha desde 1962, mesmo em meio à pandemia do novo coronavírus. Washington acusa o governo cubano de oprimir os cidadãos e tenta acabar com o socialismo na ilha por meio de sanções. Cuba rejeita as acusações e considera as medidas um ato de "genocídio".

"Um segundo mandato de Trump deve ter mais do mesmo", diz o politólogo Jorge Gómez Barata. Jorge Duany, diretor do Instituto de Investigações Cubanas da Universidade Internacional da Flórida, também acha que "não haverá melhora significativa". Por outro lado, Arturo López-Levy, professor da Universidade Holy Names, na Califórnia, aposta em uma virada. "Trump é um presidente peculiar com um grande ego. Sua política externa se definirá, em grande parte, por seus instintos e sua visão de legado. Eu não descartaria que ele tente negociar com Cuba".

Biden retomaria a política de Obama?

"Com o governo Obama houve muita esperança de que haveria mais paz entre os dois povos", afirma Yaimi Blanco, de 39 anos, vizinha da embaixada, onde em 2015 as ruas estiveram cheias de gente para pedir e retirar vistos e poder visitar as famílias. 

No entanto, em 2017, os EUA suspenderam os serviços consulares alegando "ataques acústicos" contra seus diplomatas, o que Havana nega. "Os democratas sempre buscaram mais proximidade com Cuba do que os republicanos e esperamos que, vencendo um democrata, mesmo que não mude tudo, pelo menos melhore a situação", afirma José María Delgado, um aposentado de 62 anos. Perto da casa dele fica a Praça dos Suspiros, onde os solicitantes de visto esperavam sua vez para realizar os trâmites da embaixada, que agora está vazia. 

"Biden deve retomar a política de Obama, mas é sintomático que como candidato não tenha enfatizado nenhum tema e tente ganhar os votos cubanos na Flórida apelando a outros temas da agenda progressista", diz López-Levy.

Duany lembra que Biden prometeu que, se eleito presidente, retomaria "em grande parte" a "política da era Obama sobre Cuba", mas, ao mesmo tempo, insistiu que os cubanos devem "cumprir com os compromissos que fizeram durante a administração Obama. Nesse ponto, não fica claro quais medidas específicas ele tomaria."

"O ridículo dessa promessa (de Biden) é que tais compromissos (com Obama) nunca existiram", diz o acadêmico Jesús Arboleya. Para Barata, "Cuba não será uma prioridade para Biden".

Haverá desbloqueio de investimentos e de importação de petróleo?

O governo Trump ativou uma lei conhecida como Helms-Burton, que permite processos judiciais nos EUA contra empresas que façam negócios com bens nacionalizados pela revolução de Fidel Castro. Se eleito, Trump manteria essa medida. "Se trata sobre tudo de uma gestão simbólica de sua campanha contra o socialismo, tanto em Cuba quanto nos EUA", explica Duany. 

Sobre as sanções aos envios de petróleo a Cuba, justificadas por sua aliança com a Venezuela de Nicolás Maduro, se Biden vencer elas seriam levantadas, considera López-Levy. 

"Biden declarou que manteria as sanções financeiras contra Cuba pelo apoio a Maduro", um ponto de convergência entre os dois candidatos, diz Duany.

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A administração Trump suspendeu as viagens de navio e limitou os voos a Cuba. Na quarta-feira 12 anunciou ainda a suspensão de voos privados à ilha, exceto aqueles com finalidade médica. "Duvido que uma administração Biden autorize as viagens de navio de maneira imediata", afirma Duany.

Para López-Levy, "com a covid-19 crescendo nos EUA e, particularmente, na Flórida, esse tema não é prioridade nem para o bem e nem para o mal". 

"Com Trump não há opção, qualquer outra opção que não o Trump será melhor", opina ionel Suárez, de 51 anos, dono de um bar em Havana Velha, que se beneficiou com o fluxo de turistas americanos durante a era Obama. / AFP 

 

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