EFE/EPA/MURTAJA LATEEF
EFE/EPA/MURTAJA LATEEF

Cinco perguntas sobre a crise entre os EUA e o Irã

Já complicadas, relações entre os dois países agora estão bem mais tensas; entenda o que está em jogo

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2020 | 21h43
Atualizado 03 de janeiro de 2020 | 15h52

BAGDÁ - Há meses, protestos furiosos vêm tomando conta do Iraque, motivados pela frustração com uma economia disfuncional, a corrupção e a influência generalizada do Irã. E então um ataque com foguetes matou um empreiteiro americano a serviço dos Estados Unidos. Ataques aéreos lançados pelos americanos atingiram uma milícia iraquiana apoiada pelos iranianos e a ira destes voltou-se contra os Estados Unidos e com uma invasão da área onde fica o prédio da embaixada americana em Bagdá, na terça-feira. O levante culminou, nesta quinta-feira, 2, com  a morte do general iraniano Qassim Suleimani, responsável pelos assuntos iraquianos na Guarda Revolucionária do Irã, em um ataque da Força Aérea americana ao aeroporto de Bagdá, conforme anunciou a televisão pública iraquiana.

Os ataques aéreos e a invasão da embaixada constituem a pior crise enfrentada pelos Estados Unidos no Iraque depois de anos e que acabou enredando o país nos voláteis problemas internos envolvendo o Iraque e seu vizinho, o Irã.

Já complicadas, as relações entre Iraque, Irã e Estados Unidos agora estão bem mais tensas. 

1- O que ocorreu nestes últimos dias? 

A escalada da tensão entre EUA, Iraque e Irã, que terminou com a morte do general Suleimani nesta quinta-feira, 2, começou na sexta-feira da semana passada, 27, quando mais de 30 foguetes foram lançados contra uma base militar iraquiana perto de Kirkuk, ao norte do Iraque, matando um empreiteiro a serviço dos Estados Unidos e ferindo quatro americanos e dois soldados iraquianos.

Os Estados Unidos acusaram a milícia Kataib Hezbollah, financiada pelo Irã, de perpetrar o ataque. Um porta-voz da milícia negou envolvimento do grupo. O presidente Donald Trump responsabilizou o Irã pelo ataque, e no Twitter disse que “o Irã matou um empreiteiro americano e feriu muitos”.

O Exército americano lançou ataques aéreos contra a milícia durante o fim de semana passado, matando 25 membros do grupo, no que o secretário de Estado Mike Pompeo qualificou como “uma resposta decisiva”. Ele disse que os Estados Unidos não iriam "tolerar que a República Islâmica do Irã perpetre ações que colocam homens e mulheres americanos em risco”.

Estados Unidos e Irã estão em rota de colisão há anos – por causa da influência iraniana no Iraque, o programa nuclear do país e outros assuntos – e as tensões se intensificaram durante o governo de Donald Trump, que se retirou do acordo nuclear firmado em 2015 e impôs sanções devastadoras contra Teerã.

Mas os ataques aéreos ocorreram num momento particularmente explosivo no Iraque, onde a ira contra a intromissão estrangeira já era intensa. O principal clérigo xiita do país, o Grande Aiatolá al-Husseini al-Sistani, advertiu que o Iraque não deve se tornar “um campo para acertos de contas internacionais”, e o primeiro ministro Adel Abdul-Mahdi qualificou os ataques aéreos de violação da soberania iraquiana.

Na terça-feira, 31, manifestantes invadiram área da embaixada dos Estados Unidos em Bagdá. Não entraram no edifício, mas a eles acabaram se juntando milhares de outros manifestantes – muitos deles membros de grupos de combate tecnicamente vigiados pelo Exército iraquiano, entoando o slogan “Morte à América”.

Trump acusou o Irã de “orquestrar” a invasão, acrescentando que “eles serão totalmente responsabilizados”.

Muitos dos manifestantes que invadiram a área da embaixada são membros do Kataib Hezbollah e outras milícias apoiadas pelo Irã. Embora o Irã tenha uma forte influência no Iraque, ele também tem sido alvo da ira popular e por vezes da violência por parte dos manifestantes iraquianos.

2 - Por que o Iraque está tão volátil recentemente?

Os enormes e às vezes violentos protestos irromperam no Iraque a partir de outubro, quando a população, enfurecida com o desemprego no país, a corrupção e os serviços públicos caóticos foi para as ruas. Durante 12 semanas, o governo buscou uma solução prometendo reformas, mas ao mesmo tempo reprimindo com força as manifestações. 

Mais de 500 pessoas foram mortas e 19 mil ficaram feridas nas revoltas, segundo o enviado especial das Nações Unidas. A violenta resposta do governo só intensificou a determinação dos manifestantes e os protestos aos poucos se expandiram para incluir queixas sobre a influência generalizada no Irã dentro do governo iraquiano.

Muitos manifestantes ligam a influência iraniana à corrupção dentro do governo e entre as milícias xiitas. Em novembro, os manifestantes atearam fogo no consulado iraniano em Najaf, cidade que fica ao sul do país, e durante semanas acamparam na frente da fortemente protegida Zona Verde de Bagdá, que abriga o Parlamento e o gabinete do primeiro ministro. No fim do mês, Abdul-Mahdi anunciou que renunciaria ao cargo. Desde então o governo iraquiano está no limbo, incapaz de escolher o seu sucessor.

3 - Como o Irã está envolvido nas milícias do Iraque?

Depois de anos competindo com os Estados Unidos pela influência sobre o Iraque, o Irã se tornou uma força agressiva e poderosa na vida iraquiana. O Irã tem uma influência poderosa no governo, nos negócios e na religião iraquianos. Partidos ligados aos iranianos se tornaram uma força importante no Parlamento, especialmente a partir da saída do Exército americano do país em 2009. E quando o Estado Islâmico invadiu o Iraque em 2014, o Irã ajudou as milícias xiitas a combaterem o grupo, o que deu a Teerã poder de intervir na segurança do Iraque.

Quando as milícias e os Estados Unidos – na verdade combatendo do mesmo lado – expulsaram o Estado Islâmico do território que o grupo controlava dentro do Iraque, as milícias ficaram mais influentes. E controlam facções poderosas no Parlamento e no Exército, embora algumas tenham se tornado grupos mafiosos que usam a extorsão dos iraquianos para se beneficiarem financeiramente.

Algumas milícias atacaram também bases americanas onde americanos estão estacionados. O clérigo populista Muqtaba al-Sadr, que tem defendido a saída de Estados Unidos e Irã do Iraque, insistiu para essas milícias pararem com “ações irresponsáveis”.

O Kataib Hezzbollah, grupo acusado pelo ataque com foguetes na sexta-feira, tem vínculos estreitos com o Irã, mas para muitos iraquianos ele é a principal força iraquiana. É um movimento separado do Hezbollah do Líbano, apesar de os dois grupos serem financiados pelo Irã e se oporem aos Estados Unidos. O Departamento de Estado qualifica os dois grupos como organizações terroristas.

O Kataib Hezbollah prometeu uma “retaliação” pelos ataques aéreos, mas sem dar mais detalhes. O ministério do Exterior do Iraque declarou que os Estados Unidos “devem assumir total responsabilidade pelas consequências desta ação ilegal”.

4 - E quanto à presença dos Estados Unidos no Iraque?

Os Estados Unidos têm 5.200 soldados no Iraque e um número variável de empreiteiros a serviço do governo americano. Grande parte dos soldados está estacionada na base a noroeste de Bagdá e em outra base ao norte, região controlada pelos curdos.

A área da embaixada em Bagdá, que foi aberta em 2009, com 42 hectares de terreno, é quase tão grande quanto a Cidade do Vaticano. A embaixada e o consulado americano em Irbil, ao norte do Iraque, têm no total 486 funcionários, a maioria baseada em Bagdá.

Após a invasão na terça-feira, o Pentágono enviou mais 120 marines para Bagdá. No fim do mesmo dia, o secretário da Defesa Mark Esper anunciou que 750 soldados seriam mobilizados para a região.

A presença americana no Iraque diminuiu drasticamente a partir do seu auge, durante e imediatamente após a Guerra do Iraque. Havia 16 mil pessoas trabalhando no complexo da embaixada em 2012 e 170 mil soldados no Iraque em 2007. Em meio à crescente tensão com o Irã este ano, o Departamento de Estado ordenou a alguns diplomatas para deixarem a embaixada.

5 - O que vem ocorrendo no Irã?

Além da agitação regional, o Irã também vem enfrentando os piores tumultos em décadas. Os protestos no país começaram em novembro após um repentino aumento dos preços da gasolina e se transformaram depois em manifestações contra os líderes do governo iraniano e a maneira como vêm fazendo frente às sanções americanas, uma economia cambaleante e a ira dos vizinhos no Iraque e no Líbano.

Milhares de pessoas participaram das manifestações de protesto, muitas de cidades com grande população de baixa renda e operária, mas as forças de segurança iranianas esmagaram os protestos matando até 450 pessoas, segundo grupos de direitos humanos. O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, justificou a dura repressão afirmando que se tratava de um complô coordenado por inimigos do Irã, dentro e fora do país. / Tradução de Terezinha Martino

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