Luis Robayo/AFP
Luis Robayo/AFP

Entenda quem são os jovens que protestam na Colômbia

Manifestantes demonstram descontentamento com instituições e pedem empregos e acesso ao ensino superior

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2021 | 20h00

BOGOTÁ - Manifestações na Colômbia reúnem, há 19 dias, jovens descrentes das instituições e empobrecidos pela pandemia da covid-19.

Os protestos, que fizeram o governo desistir da proposta de aumentar os impostos, o estopim da crise, revelaram novos descontentamentos no país e foram agravados pela reação das forças policiais.

Em meio a várias denúncias de abusos, pelo menos 42 pessoas morreram desde 28 de abril, segundo a Defensoria de Direitos Humanos. São mais de 1.600 feridos entre manifestantes e agentes das forças da ordem.

A pandemia mergulhou 42,5% da população do país na pobreza e quase um terço dos colombianos (27,7%) entre 14 e 28 anos não estuda nem trabalha, de acordo com o órgão estatal de estatísticas. Os jovens pedem para não serem assassinados, assim como um Estado mais solidário.

Uma pesquisa realizada pela Cifras y Conceptos entre os jovens revela desconfiança em instituições como a presidência, a polícia e os militares. Suas preocupações são o desemprego, a pobreza, a corrupção, a insegurança, a desigualdade e o acesso à universidade e à saúde. Com margem de erro de 3,7%, a sondagem analisou 2.556 entrevistascom pessoas de 18 a 32 anos de 13 cidades.

Clamor da comunidade negra

O governo de Iván Duque sofreu suas primeiras manifestações ainda em 2019. Quase dois anos depois, o estudante de Educação Física Juan Esteban Murillo está de volta às ruas de Medellín, no noroeste do país.

Ele denuncia o estigma e a violência contra os negros e a baixa qualidade da universidade pública. Diz que muitos como ele têm de escolher entre a passagem, ou o pão, porque não têm transporte gratuito.

Juan Esteban, de 21 anos, também denuncia a força pública por seus ataques a marchas pacíficas e por revistas arbitrárias por causa da cor de sua pele. 

"Eu achava que eles tinham que nos proteger. Agora eu simplesmente sinto que os (manifestantes com) capuzes que saem para marchar nos protegem mais do que a própria polícia", afirma.

Mulheres "sem medo"

Alexa Rochi, de 30 anos, mostra sua câmera em Bogotá. Ela passou mais de uma década nas fileiras da então guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), onde conheceu a fotografia.

Ela pede por um país "onde pensar diferente não custe a vida", as mulheres vivam "sem medo", e onde não matem mais ex-combatentes. "Apenas cinco anos após a assinatura do acordo, há 272 signatários da paz assassinados", diz.

Rochi também repudia uma polícia que "atropela" e "estupra". A Defensoria Geral recebeu 16 denúncias de violência sexual cometida por soldados nas manifestações.

Decepção indígena

Abner Mauricio Bisus pede resistência em Cali, no sudoeste do país.

Ele tem 27 anos, é uma autoridade em sua cidade e faz parte da guarda indígena que protege as comunidades de origem.

"Estou protestando contra a violência que aumentou, principalmente nas terras indígenas", conta o jovem. 

No lugar das extintas Farc, "chegaram outros atores armados que se dizem revolucionários, que se dizem de esquerda, mas que acabam respondendo apenas aos interesses do narcotráfico", conta Bisus.

Os indígenas representam 4,4% dos colombianos. "O governo falhou comigo, ficou mais atento à elite", afirma. /AFP

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