Carlos Antonio de Souza Vieira/SECOMRR
Carlos Antonio de Souza Vieira/SECOMRR

Entrada ilegal de venezuelanos põe Brasil em alerta

Pacaraima, no norte de Roraima, é a principal porta de entrada de imigrantes que fogem da crise política e econômica do país vizinho

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2016 | 05h00

O Exército brasileiro vai realizar até o fim do ano, e ao longo de 2017, uma série de operações estratégicas nas fronteiras para intensificar a presença do Estado nacional nas áreas mais vulneráveis – as linhas de divisa com a Bolívia e o Paraguai, além claro, da faixa de 1.492 km de limite com a Venezuela. 

 O ponto de tensão na Amazônia fica em Pacaraima, no nordeste de Roraima. É a rota de entrada de cerca de 40 imigrantes venezuelanos que chegam todos os dias à cidade com a intenção de permanecer ali ao menos por algum tempo. 

Muitos seguem viagem na direção da capital, Boa Vista, distante 215 km. Grupos isolados, formados pelos que trazem alguns recursos, começam a chegar a Brasília e a São Paulo. 

Entre esses há os “classe A”, como são definidos pela assistente social Mira Rios, voluntária da Organização Não Governamental Human Rights Whatch, os homens e mulheres de classe média, profissionais liberais ou pequenos negociantes, banidos de seu país pela crise – a maior do continente.

O socorro humanitário é o foco da atenção no município. O comandante estadual do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil. Coronel Edvaldo Amaral, alerta para o fato de haver “claros indícios” da presença de coiotes, agenciadores das viagens dos clandestinos em alguns casos, com a promessa de emprego. “Muita gente desconhece as normas de livre trânsito estabelecidas pelo Mercosul e acaba pagando caro pelo serviço”, diz.

Há relatos da cobrança de US$ 1,5 mil pelo trajeto de 4.700 km até São Paulo, em ônibus fretado. “Os refugiados trabalham duro quando podem”, destaca o prefeito de Pacaraima, Altemir Campos. Recebem pagamento diário para descarregar caminhões, capinar terrenos e lavar carros. 

Outros, mais bem qualificados, são contratados como pedreiros e estivadores. Mulheres indígenas vendem artesanato nas ruas. O pessoal da agricultura enfrenta dificuldade para ser absorvido. 

Militares preocupados. A preocupação das Forças Armadas com a situação não é pequena. O Exército mantém no corredor divisório com a Venezuela, duas Brigadas de Selva – em Boa Vista e em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Ambas controlam uma rede de Pelotões e Batalhões de Fronteira. 

O Comando Militar da Amazônia, de Manaus, vigia cinco regiões de limites, com a Guiana, a Colômbia, o Peru, a Bolívia e a Venezuela. “Em todo o sistema o alerta está no nível amarelo em razão do risco representado pelos expatriados”, disse ao Estado um oficial do CMA. 

O Exército, em nota, informou que “no contexto em que a América do Sul é o ambiente no qual o Brasil se insere (...) a atual situação política, econômica e social da Venezuela vem sendo observada por se tratar de um país de nosso entorno estratégico”.

Fogo em risco. Na semana passada o movimento de entrada e saída no posto de controle da Policia Federal em Pacaraima – envolvendo 500 pessoas por dia – esteve perto de provocar um incidente fronteiriço entre Brasília e Caracas. 

A primeira versão para o episódio, ainda nebuloso, é a de que os grandes caças Su-30, do Grupo de Caza-13 Simón Bolívar, o mais avançado da aviação militar do regime bolivariano, teriam invadido espaço brasileiro durante uma missão de reconhecimento. Em resposta, a FAB teria deslocado para a área seus caças F-5M, do Esquadrão Pacau, da Base Aérea de Manaus. 

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, estaria em contato com o presidente Michel Temer. 

No sábado, em nota, o Comando da Aeronáutica desmentiu a ocorrência. O Centro Integrado de Controle do Tráfego Aéreo e de Defesa, Cindacta, da Amazônia também não tem registro da ação clandestina dos Su-30 – de resto, pouco adequados à missão de reconhecimento de campo.

Todavia, no período, a Força brasileira realizava em Roraima um exercício com caças-bombardeiros A-1/Amx, deslocados para Boa Vista com o apoio de cargueiros Hércules C-130 com capacidade para o reabastecimento no ar dos A-1. A aeronave é especializada em ataques de precisão contra alvos no solo depois de um voo furtivo.

 

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