Entre as notícias de um mundo frenético e o cansaço

Seção internacional do ''Times'' vive período dos mais agitados

Arthur S. Brisbane, The New York Times, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2011 | 00h00

Um dia na vida da editoria internacional do New York Times começa com Laurent Gbagbo abrigado no subterrâneo de seu bunker, em Abidjã, a principal cidade da Costa do Marfim. Ao longo do dia, a editoria receberá matérias dos cinco continentes, trabalhando a uma velocidade impressionante desde janeiro, quando começou uma extraordinária série de acontecimentos mundiais.

São 7:30 da manhã de terça-feira, e o primeiro a chegar na editoria, J. David Goodman, olha para o computador na redação de Nova York em busca de matérias. Tem diante de si o grande volume de notícias do exterior - a Primavera Árabe, as catástrofes no Japão, a guerra no Afeganistão, o conflito israelense-palestino, a luta pelo poder na Costa do Marfim.

De onde estou, olhando sobre o ombro de Goodman, observo o trabalho de coleta de notícias esticado até o limite - não só pelo volume e pela urgência, mas também pelas rápidas e contínuas modificações graças à tecnologia digital. Resolvi ficar aqui durante a melhor parte de um ciclo de notícias para compreender melhor como funciona.

Chega Ed Marks, um dos vários editores que foi emprestado de outras editorias para ajudar com o volume de trabalho, e os dois discutem as fontes da notícia. Goodman não conseguiu falar com Adam Nossiter, o principal repórter do trabalhando da vizinha Gana, para saber o que ele diz.

Marks começa a editar uma matéria enquanto Goodman volta sua atenção para Laura Kasinof, uma freelancer que acaba de chamar do Iêmen, onde é a única pessoa do jornal. Laura tem algumas coisas interessantes para ele sobre acontecimentos isolados no país, mas enquanto ela desliga, ele me diz: "As coisas são sempre confusas no Iêmen".

A editoria internacional trabalha com um complexo sistema de redes, reais e eletrônicas. Na rede física, agora sobrecarregada pela fadiga e os custos crescentes, o Times espalha fotógrafos, correspondentes e freelancers por todo o globo, alguns em redações e outros nos lugares mais quentes. O jornal também trabalha com The International Herald Tribune, chamada a "edição global" do Times, e suas redações em Paris e Hong Kong.

Mensagens do Twitter entram continuamente. Os sistemas internos do Times para o jornal impresso e online mostram e administram as histórias que estão ocorrendo no momento.

Quem dirige tudo isto é Susan Chira, editora de internacional desde o início de 2004. Na realidade ela não tem tempo de "dirigir". Ela edita artigos, toma decisões, dá apoio moral à tropa e tenta ter em vista o quadro geral.

"Ei, Adam", diz para Nossiter, que chamou para falar sobre uma viagem de Gana para a Costa do Marfim. "Você foi incrivelmente decidido. Mas a viagem de avião vai ter a proteção dos franceses?" Coisas ruins sempre acontecem na editoria internacional - Susan e seus colegas gastam muito tempo tentando impedir que aconteçam. Em primeiro lugar na lista está o perigo para os jornalistas nas zonas de guerra. No dia 15, quatro jornalistas do jornal foram presos na Líbia e ficaram na cadeia por seis dias.

Hoje, não há aviões indo para Abidjã e está decidido que é muito arriscado para Nossiter viajar de carro através de um território em litígio. Do mesmo modo, em conversação mais tarde com C. J. Chivers, correspondente no leste da Líbia, Susan decide não enviar jornalistas para um lugar perigoso em outra parte daquele país.

Evitar que outras coisas ruins atrapalhem a tomada de decisões na editoria internacional e evitar erros jornalísticos sob pressão é outra prioridade. Muitos editores da internacional manifestam sua preocupação com o fluxo constante de acontecimentos e a pressão de atualizar as notícias.

Greg Winter, o editor responsável pela África Subsaariana, mostra para mim o que pode acontecer. A Reuters emitiu um dizendo que Gbagbo se rendeu, de acordo com um "documento interno". Winter duvida. Nenhuma outra agência deu o fato. Ele decide não comprar a ideia. Faz bem: minutos mais tarde, a Reuters revê a informação e a retira.

Apesar de toda a pressão para responder ao rápido pipocar de notícias em primeira mão, a editoria internacional ainda se debruça sobre a primeira página.

A história de Gbagbo é atualizada, mas os principais editores do Times resolvem que ela não vai para a capa. Eles então trabalham com Nossiter e Scott Sayare em Paris para uma história que tem a marca do Times: isso significa um novo artigo não com as últimas notícias completas, mas com uma análise. "Por que as pessoas se importam?", diz Winter. "Não são apenas as notícias do dia. O foco da história era o fracasso da diplomacia internacional. Somente a força poderá resolver esta questão." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É OMBUDSMAN DO "NYT"

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