Gustavo Chacra/AE
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Entre cólera e eleições, haitianos aguardam futuro

Vivendo na calçada diante do palácio presidencial, mães ignoram tanto medidas contra doença quanto campanha presidencial

Gustavo Chacra ENVIADO ESPECIAL PORTO PRÍNCIPE, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2010 | 00h00

Moradoras de um acampamento patrocinado pela China diante do Palácio Nacional, no empobrecido e arruinado centro de Porto Príncipe, Ikila Lefeuve e suas amigas já decoraram as medidas para não serem infectadas pela cólera - a mais nova tragédia do Haiti. Também conhecem os nomes de alguns dos principais candidatos para a disputa presidencial do domingo, que decidirá o sucessor de René Préval.

O problema é que, apesar das informações, elas não se preocupam com a prevenção da doença, que já deixou mais de 1.500 haitianos mortos e 60 mil infectados, e também não se interessam sobre as pessoas que devem governá-las do palácio semidestruído do outro lado da rua.

Elas cozinham ao lado da sarjeta. Bebem água sem filtrar ou ferver. Para se lavar e limpar os filhos, usam sabonete. Mas a água utilizada sai de um balde com limões e outras cascas difíceis de identificar. As crianças andam descalças. O banheiro químico, bancado por entidades estrangeiras, fica a cerca de 400 metros de distância. São sujos e é preciso muita coragem para entrar.   Veja também:

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Ikila e suas amigas optam pela praticidade. Fazem suas necessidades em uma clareira entre seus barracos. Depois, cobrem com terra ou recolhem os dejetos e jogam na rua, ali na frente, diante do palácio. Segundo elas, nos dias mais quentes, dormem na clareira do "banheiro" por ser mais ventilado.

A única coisa que fazem questão de manter é a vaidade. Pediram para se arrumar e para organizar seus barracos antes de tirar a foto.

No Haiti, por maior que seja a miséria, os homens não andam sem camisa. Os estudantes sempre vestem uniformes elegantes para a ir às escolas. Meninas vestem minissaias; meninos, calça cinza e camisa xadrez. Parecem alunos de colégios britânicos ou liceus franceses. Em alguns momentos, a preocupação com a imagem parece ser maior do que o medo da cólera.

Cozinha na calçada. "Escutei sobre a cólera, já vieram explicar. Mas nunca vi. Até agora ninguém pegou", disse Ikila ao Estado. Realmente, a campanha está por todas as partes. No acampamento, montado dias após o terremoto de janeiro, há uma enorme faixa com os dizeres "lave men ak savon, protejalavi" (lave suas mãos com sabão e proteja sua vida, em creole).

Alicai, uma de suas amigas, deu um sanduíche para a filha comer, praticamente sentada na sarjeta. Nesse caso, nem sequer as recomendações funcionaram. "Não tem problema, ela lavou as mãos", disse. Ao ser questionada sobre onde, respondeu que na torneira. O problema é que não havia nenhuma. Dando risada, admitiu que era no balde com limões. Como ela, várias outras pessoas no centro de Porto Príncipe, ainda em ruínas, cozinhavam, tranquilas, na calçada.

Quando o tema muda para a eleição, as haitianas demonstram bom humor. Nenhuma sabia em quem votar no começo da conversa.

Com as fotos e os nomes dos candidatos apresentados a elas, apontaram a foto de um candidato que achavam bonito, Emile Losita. No fim, elas decidiram que talvez seja melhor votar em Mirlande Manigat por ser mulher "e muito inteligente". Menos Ikila. "Voto em quem me pagar pelo voto", mas disse que ninguém ainda a pagou.

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