EFE/ Miguel Gutierrez
EFE/ Miguel Gutierrez

Entre eleições e ameaças de prisão, Guaidó busca mais sanções contra Maduro

Presidente autodeclarado da Venezuela denuncia as eleições parlamentares de domingo como fraude e tenta viabilizar plebiscito para prorrogar período da Assembleia Legislativa

Javier Tovar e Esteban Rojas / AFP, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2020 | 11h15

CARACAS - O apartamento de Juan Guaidó perdeu o clima de casa e foi transformado em escritório com papéis, livros e computadores em cada mesa e uma pilha de caixas em um canto. Meses atrás, seu escritório em Caracas foi invadido por agentes do serviço de inteligência e desmontado.

Chefe do parlamento de oposição e reconhecido como presidente da Venezuela por mais de 60 países, Guaidó não é candidato às eleições legislativas do próximo domingo, que denuncia como "fraude", e aposta tudo num plebiscito com o qual quer endossar a prorrogação do período da atual Assembleia Nacional e promover novas sanções contra o governo do presidente socialista Nicolás Maduro..

“Dificilmente poderíamos chamar esse processo de eleição”, disse o líder de 37 anos em entrevista à AFP do que era o quarto de sua filha Miranda. Em vez de um berço e brinquedos, há uma mesa com uma bandeira venezuelana na lateral e uma fotografia de uma das massivas manifestações que ele liderou em 2019, cada vez mais distante.

“O objetivo de Maduro não é nem mesmo ganhar legitimidade”, mas “aniquilar a alternativa democrática na Venezuela” com alguns votos nos quais espera acabar com a maioria da oposição no Legislativo, afirma.

No próximo ano, um novo Parlamento toma posse e será dominado pelo chavismo, dada a recusa dos principais partidos políticos da oposição em indicar candidatos. Os Estados Unidos já anunciaram que irão ignorá-lo e a União Europeia pediu, sem sucesso, o adiamento das eleições legislativas.

O desafio de Guaidó é salvar sua validade com a consulta que promove, marcada para os dias 7 e 12 de dezembro, sem o apoio das autoridades eleitorais, a quem acusa de servir a Maduro. Confiando que seus aliados internacionais ratificarão o apoio que lhe deram, ele afirma que o próximo passo é "padronizar as sanções".

Sanções

Guaidó espera que o presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, ratifique as sanções do governo de Donald Trump e que essas medidas tenham eco na Europa e na América Latina, relutantes a restrições econômicas como as impostas por Washington. “Não é só que sejam aumentadas, (mas) que sejam homologadas para evitar que a ditadura possa contorná-las”.

A Venezuela, em profunda crise, foi bombardeada por sanções do governo Trump, uma estratégia de "pressão máxima" que não conseguiu deslocar Maduro. Guaidó insiste em "sustentar a pressão internacional" e recuperar a "pressão popular" depois de meses esfriando em meio à pandemia. 

Guaidó deixou de ser um político praticamente desconhecido em 2019 para se tornar o grande aglutinador da oposição a Maduro, com o reconhecimento de governos como o de Trump, que o recebeu na Casa Branca.

Mas a erosão de sua liderança e as fraturas da oposição são obstáculos. O parlamentar também propôs que sejam oferecidos "incentivos" para que os militares venezuelanos - com o apoio de Maduro - participem de uma eventual transição.

Guaidó diz que procurou Biden por meio de parlamentares para preservar o "apoio bipartidário" de democratas e republicanos. Mas ainda não falou diretamente com o presidente eleito ou sua equipe.

Os assessores de Biden, por sua vez, disseram que vão explorar contatos diretos com Maduro. “Seria uma tragédia. Não tenhamos dúvidas de que por vezes a comunidade internacional (cairia) na tentação de compreender o ditador (...). Qual é o incentivo do ditador de plantão (de deixar o poder) se ele sabe que vai ser reconhecido? Nenhum ”. Biden, no entanto, chamou Maduro de "ditador".

Nas últimas semanas, líderes chavistas importantes ameaçaram prender legisladores que defendiam sanções contra Maduro. Guaidó nega que vá optar pelo exílio como acaba de fazer seu mentor Leopoldo López: “Corro o risco de ficar na Venezuela”. Sua presença, ele considera, é "central" para manter a luta por "eleições presidenciais e parlamentares livres". “As ameaças não são novas e nem vão nos impedir de cumprir nosso dever”, afirma.

 

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