Jose Manuel de la Maza/Chilean Presidency via REUTERS
Jose Manuel de la Maza/Chilean Presidency via REUTERS

Entre emoção e traumas, resgate dos '33 mineiros do Atacama' completa dez anos

Trabalhadores ficaram presos durante 69 dias a mais de 600 metros de profundidade na antiga mina San José, em pleno Deserto do Atacama

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2020 | 20h34

COPIAPÓ, CHILE - O resgate, há uma década, dos 33 mineiros do Atacama, no norte do Chile, ocorreu "em meio a uma grande tensão e com adrenalina total", lembra Manuel González, o primeiro socorrista a entrar e o último a sair da mina.

Nunca antes se realizou tal feito: retirar 33 mineiros presos durante 69 dias a mais de 600 metros de profundidade na antiga mina San José, em pleno Deserto do Atacama.

González, um experiente socorrista voluntário e que trabalha na mina de cobre El Teniente, foi escolhido para ser o primeiro a descer ao local no dia do resgate: em 13 de outubro de 2010, quando os olhos do mundo se voltaram para o pequeno buraco de 66 cm de largura, de onde os 33 sairiam um a um.

Aos 46 anos, Manuel realizou uma operação de resgate que, segundo ele, mudou sua vida.

"Vivi o nascimento dos meus dois filhos e essa foi uma das sensações especiais que senti quando cheguei lá embaixo, uma sensação de alegria e de ansiedade. Sou muito sentimental e tive de me manter firme para não desmoronar", contou González à agência France Press em sua casa na cidade de Rancagua, a cerca de 80 km ao sul de Santiago. 

Nessa primeira descida na chamada cápsula Fénix, de quatro metros de altura e cerca de 450 kg de peso, ele demorou 17 minutos para percorrer os 622 metros que separavam os mineiros da superfície.

"A maioria chorou e se emocionou muito, houve gritos de agradecimento, muitos religiosos se ajoelharam; então, foi muito emocionante para mim", lembra González.

Mas um novo deslizamento logo após o início do resgate dramatizou uma operação acompanhada ao vivo por mais de 1 bilhão de espectadores no mundo, cujo impacto midiático foi comparado à chegada do homem à Lua. 

Uma rocha de uma tonelada se desprendeu perto da área onde os mineiros subiam à cápsula e "tivemos de fechar aquele setor e passar por outro lado quando precisaram sair", explica González.

Junto a ele, outros cinco socorristas desceram à mina para examinar o estado físico e mental dos mineiros e explicar como a operação seria realizada.

Um dos sobreviventes relembrou, em uma entrevista concedida à agência Reuters nesta terça-feira, 13, o drama dos últimos momentos antes de seu resgate, quando foi içado por uma fenda estreita na rocha em uma cápsula criada para este fim.

Mario Sepúlveda, líder do grupo e o segundo homem a ser resgatado, lembrou do medo que sentiu enquanto a cápsula o erguia para fora da escuridão por não saber se o plano funcionaria.

“Na saída, foi terrível, terrível”, disse Sepúlveda. “Gritei. Só queria sair, ver a luz”.

Emoção em Esperança

Do lado de fora, mais de 3.500 pessoas, entre elas 2 mil jornalistas do mundo inteiro, aguardavam o desfecho dessa história única de sobrevivência no Acampamento Esperança, montado inicialmente pelas famílias dos mineiros à espera de notícias, mas que com o decorrer dos dias tornou-se uma pequena cidadela, com colégio e restaurante.

María Segovia, irmã do mineiro Darío Segovia, foi uma das primeiras a chegar ao local para exigir às autoridades que os resgatassem com vida. Por conta disso, foi apelidada de "prefeita" do Acampamento Esperança.

Horas antes do início do resgate, uma enorme bandeira foi colocada como uma cortina para cobrir o local de saída dos mineiros e, desse modo, preservar sua privacidade. Mas foi o próprio presidente na época, Sebastián Piñera (e novamente presidente do Chile), quem ordenou sua remoção para que fossem vistos pelo mundo.

Manuel González e seus cinco colegas socorristas aguardaram mais algumas horas no interior da mina, antes de deixá-la tal como encontraram, completando uma operação de resgate bem-sucedida e impecável.

Destinos

Após o deslizamento, os mineradores, que mal se conheciam, tiveram de se organizar para sobreviver, aprenderam disciplina e racionaram os poucos alimentos que havia no abrigo de segurança da mina.

Mas a união não perdurou. "As famílias provocaram desunião entre nós. Houve um antes, um durante e um depois. E, depois que saímos, já se transformou em cada um por si", disse à France Press Omar Reygadas, um dos mais experientes do grupo, hoje motorista.

Além disso, a venda dos direitos de sua história para a produção de um filme hollywoodiano aprofundou a divisão. Poucas semanas depois de serem resgatados, os mineiros assinaram um acordo para transferir os direitos para um filme e um livro, com base em uma complexa estrutura legal. Agora, muitos se sentem enganados e entraram com uma ação na Justiça.

"A estratégia dos advogados era nos separar e conseguiram. Nos fizeram brigar", disse Sánchez.

Oito anos depois do acidente, a Justiça condenou o Estado chileno a pagar uma indenização de US$ 110 mil a cada um e isentou a mineradora San Esteban.

Agora, os 33 sentem-se heróis caídos no esquecimento e no abandono.

Ainda afetados por traumas, pesadelos e doenças, quatro trabalhadores relataram este ano à France Press diferentes destinos. 

Depois do impacto inicial, quando foram convidados para programas de televisão, viajaram pelo mundo e receberam US$ 10 mil cada de um excêntrico empresário do setor de mineração, suas vidas mudaram drasticamente.

"As pessoas achavam que nós pagávamos pelas viagens. Acham que ficamos com muito dinheiro, e esse não é o caso", conta José Ojeda, 51 anos, que vive modestamente em Copiapó com a pensão que recebe do governo, de aproximadamente US$ 320.

José Ojeda foi quem escreveu a famosa mensagem: "Estamos bem no refúgio, os 33", alertando o mundo de que estavam vivos quando muitos já haviam perdido a esperança.

Sepúlveda, hoje com 49 anos, afirmou à France Press que o grupo não foi bem tratado. Com o dinheiro que ganhou na televisão, cerca de US$ 150 mil, ele constrói hoje um centro de ajuda para crianças autistas e em risco de exclusão social, com base na experiência que vive com um de seus seis filhos, que tem autismo severo./AFP e REUTERS

 

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