Foto: Alan Santos/PR
Foto: Alan Santos/PR

Entre jantares e homenagens, Bannon virou assessor informal de família Bolsonaro

Desde que Bolsonaro foi eleito, ex-estrategista de Trump deu andamento a uma aproximação com o governo

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2020 | 14h41

WASHINGTON - Preso nesta manhã acusado de fraude, Steve Bannon tornou-se uma espécie de assessor político informal da família Bolsonaro. O elo do ex-estrategista de Donald Trump com o governo brasileiro foi estabelecido através do deputado Eduardo Bolsonaro, que passou a frequentar os jantares oferecidos pelo americano em Washington e Nova York. 

Eduardo e Bannon se aproximaram durante a campanha eleitoral de Bolsonaro, por intermédio de Gerald Brant, um brasileiro-americano integrante do mercado financeiro de Nova York.  Desde então, os três se encontram sempre que Eduardo visita a capital dos Estados Unidos e o filho 03 de Bolsonaro foi anunciado por Bannon como representante do "Movimento" na América do Sul.

"Movimento" é como Bannon batizou seu trabalho para fomentar uma onda nacionalista de direita fora dos EUA, depois que foi mandado embora da Casa Branca, em 2017. Ele concentrou os trabalhos desde então na Europa, onde nem sempre foi bem sucedido. A onda estimulada por Bannon criou um terreno favorável para a candidatura de Bolsonaro no plano internacional, apesar de ele afirmar que não teve participação na campanha do brasileiro.

A aproximação, segundo ele, veio depois. Em uma entrevista ao Estadão, Bannon disse que identificou a chance de "espalhar o Movimento" pela América Latina ao conhecer Eduardo -- a quem ele costuma chamar de "rock star". O encontro aconteceu em agosto de 2018. 

Desde que Bolsonaro foi eleito, Bannon deu andamento a uma aproximação com o governo. Em janeiro de 2019, ele fez um bate e volta de três horas de carro de Washington até o sul da Virgínia para conhecer Olavo de Carvalho, ideólogo do bolsonarismo. No dia seguinte, recebeu Olavo e agregados para um jantar na casa onde vive, na First Street, atrás da Suprema Corte americana.

Enquanto garçons trocavam pratos e taças de vinho -- não de Bannon, que não toma bebidas alcoólicas -- ele fazia praticamente uma entrevista com Olavo de Carvalho. O americano queria saber sobre o avanço do nacionalismo no Brasil e eventuais empecilhos a essa agenda.

Fundador do site de ultradireita Breibart, Bannon costuma atacar a imprensa profissional, mas aceitou receber a reportagem do Estadão no jantar. Com frequência, ele manteve interlocuções e deu entrevistas à imprensa brasileira desde então. 

Os sinais enviados ao Brasil de interesse pelo governo Bolsonaro deram resultado. Em fevereiro de 2019, em agenda oficial em Washington, o chanceler Ernesto Araújo visitou Bannon na "Embaixada Breibart", como o americano chama a casa onde vive. No mês seguinte, Bannon foi convidado de honra do primeiro compromisso do presidente Jair Bolsonaro na capital americana: um jantar oferecido na residência da embaixada brasileira para representantes da direita conservadora.

Os lugares na mesa de jantar foram meticulosamente decididos pelo governo brasileiro e Bannon foi colocado ao lado do presidente. A recepção foi feita pelo então embaixador do Brasil nos EUA, Sérgio Amaral, mas a agenda com a direita conservadora havia sido articulada por Araújo e pelo diplomata Nestor Forster, atual responsável pela chancelaria brasileira nos EUA. Enviado por Michel Temer a Washington, Amaral já estava de saída do cargo.

Em uma retribuição prévia ao encontro com Bolsonaro, Bannon reservou uma sala do Trump Hotel, reduto de republicanos endinheirados, para uma homenagem a Olavo de Carvalho feita um dia antes da chegada do presidente brasileiro aos EUA. Cerca de 60 pessoas, entre elas alguns diplomatas brasileiros como Forster, foram à recepção em que Bannon exibiu o filme Jardim das Aflições, sobre a vida de Olavo. Eduardo estava presente, com um boné que tinha um slogan de campanha de Trump adaptado: "Make Brasil Great Again"

Bannon não trabalha por meio de assessoramento formal. Ele passa o dia em reuniões, palestras e jantares com integrantes ou interessados em um populismo de direita. Os primeiros compromissos na "embaixada Breibart"começam antes das 7h e os últimos convidados chegam por volta das 21 horas.

As telas dos seus celulares (no plural), escondidas embaixo de um guardanapo sempre em cima da mesa, não param de piscar. A relação de Bannon com os Bolsonaro também se deu sem vínculos formais.

Autor do livro mais recente sobre Bannon, o pesquisador e especialista em extrema direita Benjamin Teitelbaum afirma que o tradicionalismo, uma doutrina que segundo ele inspira Bannon e Olavo, atua nas sombras. "O tradicionalismo atua nos bastidores, não é conhecido pelas pessoas comuns. Não é como se houvesse um partido político tradicionalista tentando ganhar votos", afirma Teitelbaum. 

A intenção de Bannon é criar ondas fisiológicas e ideológicas, mais do que partidárias. Bannon foi considerado o cérebro por trás de bandeiras trumpistas, como a criação de um muro na fronteira com o México e a briga com a China, além de um estrategista importante nas redes sociais.

Para isso, lança mão de estratégias como a criação do site Breibart, de plataforma de extrema direita, anti-imigração e de supremacia branca. Ele também foi parte do conselho da Cambrigde Analytica, consultoria acusada de usar indevidamente dados de milhares de usuários do Facebook para interferir na eleição americana de 2016. 

No ano passado, o americano carregava consigo o livro Guerra Irrestrita. Escrita em 1999 por dois ex-militares do Exército de Libertação Popular chinês, a obra argumenta que mesmo países tecnologicamente mais preparados podem perder confrontos militares para nações que souberem manejar política internacional, guerra econômica e redes digitais. 

Trocas de jantares e homenagens permearam a relação de Bannon e Eduardo nos últimos dois anos, mas o americano conseguiu elevar a relação e garantir entrada com integrantes oficiais do governo. Em setembro do ano passado, o ex-estrategista de Trump foi novamente convidado para um jantar na embaixada brasileira. Desta vez, o encontro foi articulado nos bastidores, sem anúncio oficial, e para poucos participantes. O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, estava em Washington para compromissos de governo e quis encontrar-se com Bannon. O jantar não constou na agenda do ministro. 

Segundo fontes relataram ao Estadão, um dos temas do encontro foi o discurso que Bolsonaro faria poucos dias depois na Assembleia Geral da ONU. Na estreia no palco da ONU, Bolsonaro fez um discurso no qual reiterou temas caros ao bolsonarismo. Bannon gostou.

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