Korea Pool / AFP
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Entre lágrimas e abraços, famílias separadas pela Guerra da Coreia se reencontram após 65 anos

Cerca de 330 sul-coreanos, muitos em cadeiras de rodas, abraçaram 185 parentes que vivem no vizinho do Norte; este é o primeiro reencontro em quase três anos

O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2018 | 10h39
Atualizado 20 Agosto 2018 | 14h59

SEUL - Lee Keum-seom, de 92 anos, chorava e acariciava o rosto de seu filho, Ri Sang-chol, de 71 anos, nesta segunda-feira, 20. Foi o primeiro reencontro dos dois desde que se separaram, durante a turbulência da Guerra da Coreia. O conflito começou em 1950 e um cessar-fogo foi assinado três anos depois. Oficialmente, a guerra nunca acabou, já que ela terminou em uma trégua, não um tratado de paz.

"Quantos filhos você tem? Você tem um filho?", perguntava Lee a Ri, durante o encontro tão esperado no resort Diamond Mountain, na Coreia do Norte. Ri viu a mãe pela última vez quando ainda era criança. Ele mostrou a ela uma foto de seu pai, com quem havia ficado para trás, na Coreia do Norte.

Dezenas de idosos sul-coreanos cruzaram a fronteira entre as duas Coreias nesta segunda para participar de reencontros familiares organizados pelos governos dos dois países. As famílias sul-coreanas terão três dias de reuniões com os norte-coreanos antes de voltar para casa, na quarta-feira. 

Segundo o Ministério da Unificação de Seul, uma rodada separada de reuniões será realizada de sexta-feira a domingo, envolvendo mais de 300 outros sul-coreanos. É a primeira vez em quase três anos que esse tipo de evento é realizado. Desta vez, os reencontros são resultado de medidas para impulsionar a reconciliação entre Norte e Sul, em meio aos esforços diplomáticos para resolver o impasse sobre o programa nuclear norte-coreano. O presidente da Coreia do Norte, Kim Jong-un, e o líder sul-coreano, Moon Jae-in, confirmaram o evento durante uma cúpula em abril.

Cerca de 330 sul-coreanos de 89 famílias, muitos em cadeiras de rodas, abraçaram 185 parentes que vivem no vizinho do Norte. Alguns tiveram dificuldades para reconhecer as famílias que não viam há mais de 60 anos.

“Como você pode estar tão velha?”, perguntou Kim Dal-in, de 92 anos, à sua irmã, Yu Dok, após contemplá-la brevemente em silêncio. “Vivi todo este tempo para encontrá-lo”, respondeu a parente de 85 anos, enxugando as lágrimas e segurando uma foto do irmão ainda jovem.

Alguns sul-coreanos escolhidos aleatoriamente para a reunião deste ao ano desistiram ao saber que seu pai, mãe, irmão ou irmã do outro lado da fronteira havia morrido e conheceriam somente parentes distantes.

Lee Kwan-joo, de 93 anos, é uma exceção. Quer conhecer sobrinhos para ter ideia da vida que seus pais e seus seis irmãos levaram no Norte antes de morrerem. Em 1945, ela foi enviada para uma escola no Sul, e a guerra selou a separação para sempre.

"Fico feliz de saber que poderei conhecer meu sobrinho e minha sobrinha, embora eu sequer tenha visto seus rostos", afirmou. "Quero apenas perguntar como morreram meus irmãos, irmãs e pais.”

Diversos parentes seguravam as mãos uns dos outros e mostravam fotos da família, enquanto choravam e perguntavam sobre a vida de cada um dos entes queridos que não puderam participar da ocasião.

Grande parte dos coreanos sequer sabe se seus parentes no país vizinho ainda estão vivos, já que não podem visitá-los na fronteira ou trocar cartas, telefonemas e e-mails. 

Han Shin-ja, sul-coreana de 99 anos, ficou sem palavras depois de reencontrar suas duas filhas norte-coreanas, ambas na casa dos 70 anos. Sem saber se a separação seria permanente, ela deixou as duas para trás durante a guerra, enquanto fugia para o Sul com a terceira filha, a mais nova. Shin-ja só conseguia dizer "Ah" e "Quando eu fugi...", antes de começar a chorar.

O veterano de guerra Park Hong-seo, de 88 anos, da cidade de Daegu, na Coreia do Sul, afirmou que sempre se perguntou se teria enfrentado seu irmão mais velho em uma batalha. Este, depois de se formar em uma universidade de Seul, se estabeleceu na cidade de Wonsan, na Coreia do Norte, como dentista. 

Quando a guerra estourou, Park foi informado por um colega de trabalho que seu irmão havia se recusado a fugir para Sul porque tinha uma família no Norte e atuava como cirurgião do Exército norte-coreano. Ele lutou na guerra como soldado estudantil e estava entre as tropas que tomaram Wonsan, cidade onde seu irmão morava, em outubro de 1950.

As forças lideradas pelos EUA avançaram nas semanas seguintes antes de serem expulsas por uma massa de forças chinesas, depois que Pequim interveio no conflito. Park soube que o irmão morreu em 1984. Nos encontros desta semana, ele conhecerá seus sobrinhos: um homem de 74 anos e uma mulher de 69 anos. "Quero perguntar a eles qual foi seu desejo antes de morrer e o que ele disse sobre mim", contou, antes do reencontro. "Eu me pergunto se há uma chance de que ele tenha me visto quando eu estava em Wonsan."

Antes das reuniões desta semana, quase 20 mil pessoas haviam participado de 20 rodadas de encontros presenciais, que começaram em 2000. Outras 3,7 mil trocaram mensagens de vídeo com seus parentes. Nenhum deles teve uma segunda chance de ver ou conversar com a família.

Tentativas e traumas

Mais de 57 mil sobreviventes sul-coreanos se registraram para os reencontros familiares, que geralmente terminam em despedidas dolorosas. Seul passou anos pedindo reuniões frequentes entre famílias separadas, inclusive por meio de videoconferências, mas a iniciativa muitas vezes foi prejudicada pela fragilidade dos laços.

Os reencontros deveriam aumentar consideravelmente, passar a ser realizados com frequência e incluir visitas e cartas mútuas, disse Moon Jae-in. O próprio líder pertence a uma família separada de Hungnam, cidade portuária do leste da Coreia do Norte.

Os reuniões, que começaram em 1985, às vezes são uma experiência muito traumática, dizem sobreviventes que sabem que dificilmente voltarão a ver seus parentes, já que muitos têm 80 anos ou mais, e os que estão sendo contemplados pela primeira vez normalmente têm prioridade para visitas.

A Coreia do Sul vê a separação das famílias como a maior questão humanitária criada pela guerra, que matou e feriu milhões e consolidou a divisão da Península Coreana em Norte e Sul. O Ministério da Unificação estima que, atualmente, existem cerca de 600 a 700 mil sul-coreanos com parentes imediatos ou indiretos na Coreia do Norte. No entanto, Seul não conseguiu convencer Pyongyang a aceitar sua solicitação, de longa data, para realizar reuniões mais frequentes e com mais participantes.

Mais de 75 mil dos 132 mil sul-coreanos que se candidataram para participar de tais reuniões já morreram, segundo o governo sul-coreano. Analistas dizem que a Coreia do Norte vê as reuniões entre parentes como uma importante moeda de barganha e não quer que sejam expandidas, porque dão ao seu povo uma consciência melhor do mundo exterior.

Enquanto a Coreia do Sul utiliza uma loteria computadorizada para escolher quem serão os participantes das reuniões, acredita-se que, na Coreia do Norte, as escolhas sejam realizadas a partir de critérios como a lealdade dos cidadãos postulantes à liderança do país e ao regime. / AP, AFP e REUTERS

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