Entre o regime e a religião

Papel da Igreja Católica e outras denominações em Cuba vêm crescendo gradualmente

NICK, MIROFF, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2015 | 02h02

Raúl Castro foi aluno de jesuítas antes de se envolver com o comunismo. Após um demorado encontro com o papa Francisco, no mês passado, ele disse a repórteres no Vaticano que ficou tão impressionado que estava considerando a possibilidade de retornar à Igreja. Eles riram. "Estou falando sério", disse Raúl, de 83 anos.

Se for verdade, ele não seria o primeiro cubano a voltar a Jesus nos últimos anos. A ilha passou por uma espécie de renascimento religioso nos últimos 25 anos, à medida que o fim do totalitarismo soviético abriu espaço para um marxismo tropical que é menos que totalitário, mas ainda altamente controlador.

Cuba nunca foi um país profundamente religioso como alguns outros latino-americanos. Mas a Igreja Católica e outras denominações percorreram um longo caminho desde os anos 60 e 70, quando a revolução de Fidel Castro enviou fiéis para campos de trabalhos forçados e inscreveu o ateísmo na Constituição.

Hoje, o Natal e a Sexta-Feira Santa são novamente feriados nacionais. Os fiéis já não enfrentam discriminação oficial. Pela primeira vez em cinco décadas, o governo deu permissão para a Igreja construir uma catedral. E autoridades católicas enfrentam uma crescente competição de denominações evangélicas em rápido crescimento, muitas com laços estreitos com igrejas americanas.

Hoje, existe liberdade de culto, disse o reverendo Roberto Betancourt, padre de Nossa Senhora da Regra, uma das igrejas históricas de Cuba. "Mas isso não é o mesmo que liberdade religiosa." De fato, nenhum outro país das Américas é tão restritivo. O governo cubano não permite que a Igreja dirija as próprias escolas primárias e secundárias, ou faça transmissões por rádio ou televisão. Os atos públicos de culto e o proselitismo são proibidos.

Essas limitações explicam por que Cuba atrai tanta atenção do Vaticano, apesar de uma reputação de minúsculo comparecimento a missas. Cerca de 27% dos cubanos se identificaram como católicos numa pesquisa com 1.200 adultos contratada pela rede Univision no início do ano. Entre os entrevistados, 44% se declararam "não religiosos".

Mas a pesquisa revelou que 70% dos cubanos pesquisados têm uma opinião favorável à Igreja Católica e 80% classificaram positivamente o atual papa. Quando Francisco chegar ao país em setembro, em uma escala antes de visitar os EUA, será a terceira visita papal desde 1998, quando João Paulo II conclamou Cuba a "se abrir para o mundo e o mundo a se abrir para Cuba". Bento XVI viajou à ilha em 2012.

Francisco, um argentino e o primeiro papa da América Latina, parece cada vez mais disposto a vestir o manto de João Paulo II. Ele jogou um papel central nas negociações secretas entre os EUA e autoridades cubanas na restauração de relações diplomáticas. O Vaticano foi sede de encontros de negociadores americanos e cubanos

Com a visita a Cuba e aos EUA, Francisco fará da incipiente reconciliação dos países um tema central de sua viagem. A programação de Francisco mostra que ele passará quatro dias na ilha, celebrando missas em Havana e nas cidades de Santiago e Holguín. Raúl disse que pretende assistir às três.

Uma questão fundamental é se Francisco criticará abertamente o sistema de partido único de Cuba e conclamará Raúl a fazer mais para abrir o país ao mundo. Adversários do governo comunista aqui e no exterior ficarão profundamente desapontados se o papa não usar seu púlpito para pedir mudanças.

Ele pode estar mais propenso a se esquivar. Francisco, como Obama, está basicamente seguindo uma rota traçada por João Paulo II que busca transformar Cuba dialogando gradualmente com o regime dos Castros em vez de enfrentá-lo, como a Igreja tentou fazer nos anos 60 e 70.

Os benefícios da abordagem do engajamento são evidentes hoje na reabilitação da Igreja Católica como a única instituição independente significativa da ilha. O cardeal Jaime Ortega, o prelado de mais alto nível hierárquico em Cuba, negociou diretamente com o governo a libertação de presos políticos.

Rebanho. Líderes religiosos e autoridades comunistas parecem compartilhar um sentimento de urgência sobre o que ambos os grupos percebem como uma "crise de valores" na juventude cubana, apesar de divergir sobre as causas fundamentais. A despeito das diferenças ideológicas, ambos veem uma geração de jovens ansiosa para obter bens materiais, com hábitos sociais frouxos e compromissos cada vez mais tênues com os objetivos sociais da revolução de Fidel Castro. Enquanto líderes católicos tentam resgatá-los com um ressurgimento institucional, cristãos evangélicos vão às ruas fazê-lo.

"Estamos vivendo numa sociedade que perdeu seus valores", disse Yoel Guevara, um pastor evangélico de 32 anos. "Cristo os devolve." Autoridades cubanas e a Igreja Católica veem com receio a rápida disseminação de denominações evangélicas por toda a ilha, quando centenas, se não milhares, de pequenas igrejas pipocaram em salas de visita de cubanos. Com frequência, não há a menor estrutura hierárquica com a qual o governo cubano possa se relacionar, e muitos grupos cristão menores resistiriam à tentativa do governo de organizá-los.

O grupo de Guevara é filiado à Victory Outreach International, uma ordem pentecostal de Los Angeles que é conhecida por evangelizar até viciados em drogas, presidiários e sem-teto. Em Cuba, os membros do grupo não têm nenhuma igreja, mas as autoridades cubanas lhes permitem se congregar nas manhãs de domingo para adorar ao longo da avenida e quebra-mar conhecido como Malecón. Eles trazem seu próprio gerador de eletricidade para o microfone e os alto-falantes, atraindo centenas de pessoas.

Como os líderes católicos, os evangélicos cubanos são contrários ao aborto, que é legal em Cuba, assim como aos esforços amplamente divulgados de Mariela Castro, filha de Raúl Castro, a favor do casamento de pessoas do mesmo sexo e outras proteções a cubanos homossexuais. O grupo pentecostal diz que sai durante as noites de fim de semana para caminhar entre os farristas ao longo do Malecón de Havana, tentando converter gays e enfrentando ocasionais intimidações policiais.

A questão é um lembrete de que, apesar de o governo cubano segurar as rédeas, suas políticas sociais são, às vezes, calibradas para alcançar um equilíbrio entre grupos diferentes. A cristandade evangélica faz incursões especialmente na Cuba oriental mais pobre - e entre os migrantes da Cuba rural que chegam a Havana e encontram comunhão nas portas abertas das igrejas e no estilo animado do culto.

O reverendo Ricardo Pereira, bispo da Igreja Metodista de Mariana em Havana, disse que sua igreja passou de pouco mais de 400 membros no fim dos anos 90 a mais de 3,2 mil hoje. Há três atos religiosos aos domingos para acomodá-los. Seus serviços atraem desde dissidentes até dirigentes militares e famílias de diplomatas americanos.

Os sermões de Pereira são animados com cantorias, guitarras e bateria. "A grande maioria dos cubanos tem sangue africano", disse ele. "Nós mostramos nossa devoção com tambores e muita gritaria." De certa forma, ele e outros ganharam seguidores tornando a devoção cristã mais parecida com a Santería, uma forma de devoção espiritual que mistura divindades africanas com santos católicos. Essa talvez seja mais onipresente em Cuba do que nunca - e, apesar de os líderes cristãos de quase todas as denominações a rotularem de "idolatria", eles incorporaram mais música e dança às suas cerimônias.

"Outras denominações querem que os cubanos deixem de ser cubanos quando entram na igreja e se sentem lá como europeus ou americanos", disse Pereira. "Nós queremos que eles dancem e sejam cubanos." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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