Entre os dois países, espionagem mútua e interesses distintos

Ao indiciar membros da mais famosa operação de guerra cibernética do Exército de Libertação Popular (ELP), a chamada Unidade 61.398, conhecida entre hackers pelo apelido Comment Crew, o governo de Barack Obama está usando o sistema jurídico americano para criar um caso que antes se resumia a relatórios sigilosos: líderes militares chineses estão por trás de uma enorme campanha para roubar propriedade intelectual e projetos americanos.

David Sanger, The New York Times/O Estado de S.Paulo

20 Maio 2014 | 02h01

Nos dois últimos anos, Obama e seus assessores têm declarado que, quando os EUA espionam a China, seus objetivos são distintos dos objetivos dos chineses. Em pronunciamentos públicos e conversas privadas com Xi Jinping, presidente chinês, Obama argumentou que é muito mais pernicioso usar os instrumentos de inteligência do Estado para vantagens competitivas comerciais. Os EUA podem fazer tudo que puderem para conhecer o arsenal nuclear da China ou as intenções de Pequim em suas disputas territoriais com o Japão, mas não rouba da China Telecom para favorecer à AT&T.

O secretário de Justiça dos EUA, Eric Holder, repetiu esse argumento quando deslacrou um indiciamento que incluía alegações de que a Unidade 61.398 havia roubado segredos comerciais de usinas nucleares que poupariam meses ou anos de trabalho.

Os chineses, porém, já rejeitaram tanto os fatos como o argumento e usaram as revelações feitas no ano passado pelo ex-colaborador da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês), Edward Snowden, para dar sua resposta de que a distinção entre espionar por razões comerciais e por segurança nacional é minúscula.

"A resposta chinesa foi que construir a economia da China e fortalecer sua base tecnológica eram questões de segurança nacional", escreveu James Lewis, especialista em segurança do Center for Strategic and International Studies, em Washington.

Os EUA espionam regularmente para obter vantagens econômicas quando o objetivo é respaldar negociações comerciais. Quando estavam tentando chegar a um acordo com o Japão, nos anos 90, eles grampearam o carro do negociador japonês. Acredita-se também que usaram inteligência para respaldar importantes negociações comerciais com parceiros europeus e asiáticos. Para os americanos - democratas ou republicanos - isso é considerado jogo limpo.

Documentos divulgados por Snowden revelaram que o governo americano bisbilhotou fundo os servidores da Huawei, da China. Os documentos deixaram claro que a NSA estava tentando descobrir se a empresa era fachada do ELP e se estava interessada em espionar empresas americanas. Havia ainda um segundo propósito: entrar nos sistemas da Huawei e usá-los como canal para espionar países que compram seus equipamentos.

Diretores da Huawei disseram que não entendiam como isso pode ser diferente do que os EUA acusaram os chineses de fazer. O raciocínio, porém, é rejeitado pelos americanos. "Eu saudei esse indiciamento porque coloca nosso governo rejeitando a falsa equivalência entre nós e os chineses", disse Michael Hayden, ex-diretor da NSA e da CIA. "É um curso de ação arriscado." É arriscado porque os chineses já reagiram declarando que encerraram, por enquanto, as conversações entre os dois países sobre as normas de comportamento sobre a internet.

*David Sanger é jornalista.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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