Entre Tijuana e San Diego, um muro de concreto e um abismo

Na travessia entre a cidade mexicana campeã de violência e a região modelo da Califórnia, imigrantes têm de superar paredões de aço, traficantes, atravessadores e patrulheiros

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2011 | 00h00

Em um trecho de 96,5 quilômetros do extremo oeste da fronteira dos Estados Unidos com o México, uma disputa incessante e cordial se dá entre patrulheiros americanos e os autodenominados "anjos". Os alvos são os mexicanos e outros latino-americanos que tentam saltar um muro de 2,7 metros de altura, formado por placas de aço trazidas do front americano na Guerra do Vietnã.

Força de segurança subordinada ao governo federal, a Patrulha da Fronteira emprega 2.600 homens na caça aos imigrantes ilegais nesse trecho da divisa. Dependente do trabalho de dois mil voluntários e de doações, os Anjos da Fronteira tratam de facilitar a passagem e evitar mortes, espalhando água e comida pelo deserto.

Esse trecho divide fisicamente uma mesma metrópole, cujas origens estão na colonização espanhola do final do século 18. De um lado, San Diego, cidade com os melhores indicadores de qualidade de vida dos Estados Unidos. De outro, Tijuana, uma das campeãs em violência do México.

Tijuana provê drogas e mão de obra barata a San Diego, que a compensa com capital, armas contrabandeadas e menor pressão social. Nesse trecho, patrulheiros e anjos se cumprimentam, trocam informações respeitosamente. Mas cada um ciente de sua tarefa.

Lados opostos. "Essas pessoas são reais. Elas vêm aos EUA em busca de oportunidade de trabalho, para unir-se à família que já imigrou ou para fugir da violência. Não podem ser tratadas como criminosas", afirma Enrique Morones, presidente dos Anjos da Fronteira, ONG fundada em 1986 para ajudar a travessia e a assimilação dos imigrados.

"Não sou o vilão dessa história. Estou aqui para proteger a nossa comunidade", diz Jerry Conlin, agente da Patrulha da Fronteira descendente de irlandeses e alemães.

Entre 1.º outubro e o dia 25, a patrulha prendeu 11.056 mexicanos logo depois de terem cruzado a faixa de fronteira que separa o México dos Estados Unidos. Outros 254 "não mexicanos" - latino-americanos, asiáticos, árabes, etc - foram pegos. Três morreram na travessia por terra.

Os números são bem modestos, comparado às duas mil pessoas presas por dia, em média, em 1994, e aos 32 mortos de frio ou calor, fome, sede, fadiga.

A crise econômica americana desestimulou a imigração nos últimos dois anos, e o aparato de segurança para impedir o acesso ilegal de estrangeiros aos EUA expandiu-se. Ainda assim, a questão da imigração está no centro de ferozes debates políticos em Washington e tornou-se séria omissão na agenda do presidente americano, Barack Obama.

Em boa parte dessa linha de 96,5 quilômetros, em paralelo ao muro de aço há um segundo obstáculo para os imigrantes: uma cerca de tela de aço de 2,5 metros de altura, câmeras instaladas em torres a cada 200 metros, postes de luz e portões automáticos.

Entre as duas barreiras, uma estrada de terra é constantemente retocada para a circulação da patrulha. Viaturas são estacionadas em pontos altos do terreno montanhoso.

Patrulheiros em carros utilitários, bicicletas, quadriciclos ou a cavalo caçam os imigrantes e atuam no combate ao contrabando e narcotráfico. De outubro ao dia 25, 57 quilos de cocaína e 22,4 toneladas de maconha foram apreendidos nessa faixa.

Reincidentes. Além do aparato oficial, os imigrantes estão sujeitos aos "coiotes", que cobram de US$ 1.500 a US$ 3 mil por pessoa para conduzir a travessia até pontos seguros, como o cassino Las Viejas. Há ainda as gangues de assaltantes, que muitas vezes chegam a levar até as roupas do corpo de suas vítimas, e a rede do narcotráfico. Em setembro, 72 pessoas foram massacradas pelo cartel Los Zetas em Tamaulipas, no norte do México, por terem se negado a ingressar em suas fileiras. Entre os mortos, quatro brasileiros.

Ser pego pela Patrulha da Fronteira é o menor dos males. Custará alguns dias de reclusão, uma entrevista - para colher informações sobre o funcionamento do contrabando de pessoas - e a deportação, se a ficha criminal estiver limpa nos EUA. Todos esses obstáculos reduzem, mas não eliminam o fluxo de imigração ilegal. Conlin, o agente da Patrulha da Fronteira, prendeu mexicanos com histórico que já haviam sido pegos mais de 15 vezes tentado atravessar.

Ao detalhar o aparato de segurança, Conlin mostra também o protesto silencioso dos mexicanos de Colonia Libertad, bairro de Tijuana tradicionalmente dedicado a toda sorte de contrabando. O lixo é jogado do lado americano. O patrulheiro ainda aponta os inúmeros remendos feitos na cerca. "É fácil cortar. É preciso apenas alguns segundos", afirmou. "Ter a cerca só não basta. É preciso combiná-la aos recursos pessoais e à tecnologia."

Na medida em que as cercas foram instaladas - a primeira, em 1986, e a mais alta a partir de 2006 - os imigrantes buscaram as alternativas mais difíceis: montanhas íngremes, oceano e deserto.

No ano passado, 860 pessoas foram pegas tentando passar para o lado americano nadando e surfando, em botes e jet ski. Para David Shirk, cientista político da Universidade de San Diego e diretor do Instituto Trans-Fronteira, o aparato de segurança é inútil e reflete um cálculo cínico da política de imigração americana. "O sinal de sucesso é medido pelo número de pessoas pegas na travessia."

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