AFP PHOTO / KCNA via KNS AND AFP PHOTO / - AND Saul LOEB
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‘A Guerra da Coreia está perto do fim’

Um dos principais mediadores da aproximação entre os dois governos diz que encontro pode acabar com conflito de 70 anos

Entrevista com

William Ury

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

11 Março 2018 | 06h00

O encontro entre os líderes de EUA e Coreia do Norte é um passo importante para evitar uma guerra nuclear. A afirmação é de William Ury, referência mundial em mediação de conflitos e um dos responsáveis pelo sigiloso trabalho de bastidor para a aproximação de Washington e Pyongyang. Ele já participou de negociações na Indonésia, na Chechênia, na Venezuela, na Colômbia, no Oriente Médio e, atualmente, é consultor para o Brexit. Em conversa com o Estado, Ury defendeu que as sanções ao regime norte-coreano sejam mantidas até que “passos concretos sejam dados”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

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Por que a aproximação ocorreu agora?

Ela sempre foi uma possibilidade. Donald Trump a mencionou várias vezes. Mas, agora, o que ocorreu foi que os Jogos Olímpicos criaram uma trégua e um momento positivo que interrompeu a escalada de tensões do ano passado. O presidente sul-coreano (Moon Jae-in) fez gestos importantes e houve abertura também na Coreia do Norte, por parte de Kim Jong-un. O espírito olímpico acabou funcionando. 

Mas por que Trump e Kim aceitariam conversar? 

A Coreia do Norte sempre quis negociar com os EUA. Kim quer ser aceito como potência. Isso seria um grande passo. Trump, por sua vez, gosta de fechar negócios e isso seria um grande acordo. Ambos confiam em suas habilidades. Isso é incomum. Normalmente, diplomatas fazem grande parte do trabalho e chefes de Estado chegam no fim do processo. Neste caso, eles têm uma concentração de poder pouco comum em questões de paz e guerra. Por isso, preferem um encontro o mais cedo possível.

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O que esperar do encontro?

Ele não significa que eles negociarão muito. Talvez haja uma declaração de EUA, Coreia do Norte e Coreia do Sul colocando fim à Guerra da Coreia, que está perto do fim. É a guerra mais longa da história americana, com quase 70 anos. Formalmente, ela nunca acabou. Também podem ser estabelecidas as bases da desnuclearização da Península Coreana. Isso salvaria o mundo de uma guerra terrível. 

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Qual seria o resultado disso?

O acordo reduziria as chances de uma guerra, que sempre pode começar por um erro, como na 1.ª Guerra. As chances de uma guerra agora são altas. Até agora, especialistas colocavam entre 25% e 50%. O conflito seria o pior desde a 2.ª Guerra. A reunião reduz essa possibilidade, o que é positivo. No longo prazo, a situação é volátil. Se a reunião não funcionar, podemos voltar ao trilho da guerra. Portanto, nesta fase, é preciso cuidado.

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As sanções à Coreia do Norte funcionaram?

Sim, foram significativas, mas não o único fator. O objetivo da Coreia do Norte é desenvolver sua capacidade nuclear. Depois, vinha o bem-estar econômico. Agora que desenvolveram a parte nuclear, tinham de focar na questão econômica. As sanções são um obstáculo para o governo. Portanto, pesaram nos cálculos. Será importante para a comunidade internacional, diante de tanta incerteza, preservar diferentes medidas, até mesmo as sanções, pelo menos até que passos muito concretos para a desnuclearização sejam dados. 

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