John Thys/AFP
John Thys/AFP

Entrevista: ‘A União Europeia precisa fazer mais pela Bielo-Rússia’

Ex-professora que se tornou líder da oposição ao regime de Lukashenko pede mais pressão externa contra regime

Entrevista com

Svetlana Tikhanovskaya, líder opositora da Bielo-Rússia

Paulo Beraldo e Levy Teles, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2021 | 04h30

Svetlana Tikhanovskaya, uma ex-professora de inglês e dona de casa, entrou para a política depois da prisão de seu marido, Serguei Tikhanovski, um crítico da ditadura de Alexander Lukashenko, que planejava ser candidato a presidente nas eleições de agosto. Um grupo de mulheres lançou o seu nome na disputa depois que outros opositores também foram impedidos de se candidatar. Foi assim, quase por acaso, que ela se tornou a voz da revolta contra o regime que controla a Bielo-Rússia há 26 anos. 

Dias após a eleição, considerada fraudada – Lukashenko alega ter recebido 80% dos votos –, Tikhanovskaya foi para o exílio na Lituânia e se tornou líder do maior movimento de protestos da história da ex-república soviética. Na agenda do movimento, três objetivos: “Lukashenko tem de sair, os presos políticos precisam ser libertados e uma nova eleição tem de ser convocada”, disse. 

Para Tikhanovskaya, a pressão externa ainda é insuficiente. “A União Europeia e outros países precisam ser mais corajosos em suas decisões, não podem fechar os olhos para o que está acontecendo na Bielo-Rússia.” A seguir, trechos da entrevista concedida por ela ao Estadão

Como tem sido a vida no exílio?

Tive de fugir da Bielo-Rússia por causa de ameaças. Eu me sinto fisicamente segura na Lituânia, mas sinto falta do meu marido. Ele está preso há sete meses. Sinto falta do meu apartamento, meus filhos sentem falta dos amigos. Na Lituânia, estou rodeada de bielo-russos. Todos querem voltar e ninguém quer que isso se prolongue. Minha mente está sempre com o povo bielo-russo. Não consigo parar de pensar neles. Não consigo ter paz, muita gente está na cadeia, há muitos presos políticos.

 

Qual a estratégia da oposição? 

Nossa estratégia é ser um movimento de protestos pacíficos, sem nenhum tipo de violência. Pressionar esse regime por dentro e também por fora. Isso deve ser a base das negociações entre autoridades. Ao menos precisamos do começo da negociação, da soltura de prisioneiros políticos e de eleições justas e transparentes.

E por que Lukashenko resiste? 

Ele está no poder porque ele tem o direito de usar a violência contra sua própria gente. Ele não tem nenhum apoio da sociedade civil, mas tem as Forças Armadas. Mas temos de nos perguntar o que é ter o poder. Ter o poder para um líder é quando as pessoas acreditam em você. Não é o caso da Bielo-Rússia. Ele só exerce o poder pela polícia. Isso é violência, não poder. Nossa visão é uma nova Bielo-Rússia. Não queremos mais viver nesse regime. O fato de muitos estarem presos não diminui a força do movimento.

O que vem depois?

Estamos no primeiro passo: colocar pressão no regime. E não temos muitas ferramentas contra o regime, porque estamos agindo de forma pacífica. 

Quem são os líderes que apoiam o movimento de vocês?

Muitos não reconhecem Lukashenko. EUA, Canadá e Europa concordaram que as eleições foram fraudadas. Eles não querem diálogo com Lukashenko e entendem que todo pronunciamento dele não é legítimo. Quem apoia os bielo-russos são os países democráticos. E, por isso, estamos construindo relações com todos eles, algo que faltou com Lukashenko. Ele não se comunicava com ninguém além da Rússia. 

Como são as atrocidades cometidas pelo regime? 

A polícia tem mostrado um nível de violência muito cruel. Uma das mulheres que protestaram foi a Miss Bielo-Rússia de 2018, Olga Khizhynkova. Ela ficou 42 dias na cadeia e saiu em condições terríveis. A administração da cadeia a colocou na pior cela. Ela ficou com mulheres em situação de rua, bêbadas, que cheiram mal. A cela tinha insetos e não tinha água. Ela dormia sem roupa de cama, no chão. Não tinham sabão. Pessoas com covid foram colocadas em celas para infectar prisioneiros. É horrível o que está acontecendo nas prisões. E as pessoas não se sentem seguras em suas casas. Toda hora a polícia pode aparecer em qualquer apartamento para investigar. Quando eles veem a bandeira vermelha e branca, vão para o apartamento e podem prender alguém. 

O que mais é possível fazer como líder no exílio?

Temos de construir todas essas conexões – e temos tido sucesso em fazer isso, mostrando solidariedade, tentando ajudar a sociedade civil bielo-russa, aceitando pessoas que fugiram do país, com assistência técnica e colocando pressão por novas sanções. Precisamos atingir o regime por esse lado. Não há lei na Bielo-Rússia, por isso pedimos a outros países para investigar os casos de violência e tortura no país com base em suas leis.

A oposição poderia ter feito algo diferente?

Essa é uma pergunta difícil de responder. Talvez tenhamos cometido erros, não sei. Mas a situação em si é péssima. Quando manifestantes querem apenas novas eleições e a única coisa que o líder faz é bater nas pessoas, torturar, partir para a violência, é horrível. Tudo o que sei é que devemos continuar a pressionar. Quando há pressão, comícios, sanções externas, rejeição a esse governo, tudo isso faz com que o regime responda à nossa causa com diálogo. Se agirmos juntos, conseguiremos fazer com que Lukashenko renuncie.

Como?

Essa é a pergunta. Estamos fazendo de tudo. Temos de ser mais criativos. A União Europeia e outros países precisam ser mais corajosos em suas decisões, não podem fechar os olhos para o que está acontecendo na Bielo-Rússia. A situação está piorando, a crise política está se aprofundando. Eles têm de reagir a isso. A reação precisa ser enérgica. A Bielo-Rússia é um país europeu. Pedimos à UE para nos ajudar nessa tarefa. Tentamos o diálogo, mas precisamos de outras saídas. No fim, temos três objetivos: Lukashenko tem de sair, todos os presos políticos precisam ser libertados e novas eleições devem ser convocadas.

 

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