ENTREVISTA-Ativista Chen quer que China puna quem o perseguiu

O ativista chinês Chen Guangcheng pediu na quinta-feira às autoridades de Pequim que punam funcionários provinciais "fora da lei" que perseguiram e intimidaram o militante, seus familiares e apoiadores.

MAXIM DUNCAN, REUTERS

24 Maio 2012 | 19h56

Numa das suas primeiras entrevistas desde que chegou aos EUA, no sábado, Chen disse à Reuters que o tratamento rude dispensado a parentes e amigos que o ajudaram a fugir da prisão domiciliar é "inteiramente contra a lei chinesa", e que processar os responsáveis por isso ajudaria a China a fortalecer suas instituições.

"Se as autoridades puderem prontamente investigar e processar esses funcionários fora da lei que violaram as leis chinesas, então possivelmente a China pode avançar rapidamente no caminho do Estado de direito", disse Chen, advogado autodidata e um dos mais importantes dissidentes chineses.

"Mas, se as autoridades locais continuarem a agir selvagemente conforme desejarem, talvez no futuro próximo a situação da minha família não seja boa, e acho que a construção do Estado de direito que o governo central realizou nas últimas décadas ficará totalmente arruinada."

Depois de fugir da prisão domiciliar numa aldeia do sul do país, Chen se refugiou na embaixada dos EUA em Pequim, o que criou um incidente diplomático entre os dois países. Ele fraturou o pé durante a fuga, e acabou sendo autorizado a emigrar para os EUA, depois de deixar a embaixada e passar alguns dias hospitalizado.

Chen, que é cego, chegou de muletas no sábado aos Estados Unidos, onde tem um convite da Universidade de Nova York para estudar direito. Ele viajou acompanhado da mulher e dos dois filhos.

Durante a entrevista à Reuters, em idioma mandarim, ele às vezes parecia receoso e tinha os lábios trêmulos, mas em outros momentos demonstrou senso de humor.

"Agora estou aprendendo inglês", disse. "Talvez meu curso e minha pesquisa não demorem a começar. Vou decidir sobre o tempo que vou passar aqui conforme for, agora ainda não há um período claro. Estou aqui há muito pouco tempo, você já quer que eu vá embora?", disse ele, rindo.

"Não estou no exílio. Essa é uma premissa muito fundamental", disse Chen, que tem reiteradamente dito que pretende no futuro voltar à China. "Não importa o que acontecer, eu me sinto muito bem acerca do futuro. Não há como comparar isso à vida de antes", acrescentou. "Antes eu tinha fé de que tudo iria melhorar, e o presente mostrou que isso estava certo."

Chen, no entanto, manifestou preocupação com familiares que ficaram na China, especialmente seu irmão mais velho, Chen Guangfu, e seu sobrinho Chen Kegui.

Kegui é acusado de "homicídio doloso" e de usar uma faca contra agentes que foram à sua casa após saberem da fuga de Chen Guangcheng. Já Guangfu, pai de Kegui, fugiu na terça-feira da prisão domiciliar na aldeia.

"Meu irmão mais velho escapa da prisão domiciliar e vem a Pequim à procura de um advogado para o meu sobrinho", disse Chen. "Isso é uma coisa extremamente normal, e o direito mais básico de um cidadão chinês. Se nem esse direito puder ser assegurado, acho que o desenvolvimento na construção do sistema judicial da China nas últimas décadas já foi desfeito por funcionários violadores da lei dentro do sistema político."

Chen passou mais de quatro anos preso, a partir de 2006, depois de acusar autoridades da província de Shandong de obrigarem mulheres a abortarem, como parte da chamada "política do filho único". Ele deixou a cadeia em 2010, e desde então estava em prisão domiciliar.

(Reportagem adicional de Paul Eckert em Washington)

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