Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Stuenkel: ‘Brasil negar pandemia provoca perplexidade internacional’

Para coordenador da pós-graduação em relações internacionais da FGV-SP, País rompe com histórico de batalhas importantes em termos de saúde pública internacional

Entrevista com

Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da FGV-SP

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 04h00

Ao adotar posição semelhante à de nações como Turcomenistão, Nicarágua e Bielo-Rússia - três ditaduras -, o Brasil causa espanto e perplexidade na comunidade internacional, já que rompe a posição esperada para o País que já liderou batalhas importantes em termos de saúde pública internacional, como a quebra de patentes em caso de abuso por parte da indústria farmacêutica. 

"Estar com esses três simboliza que, cada vez mais, o Brasil é visto como um país com uma liderança vivendo em uma realidade paralela, fazendo coisas estranhíssimas, como negar a pandemia", avalia o pesquisador Oliver Stuenkel, coordenador da pós-graduação em relações internacionais da FGV-SP. 

Como o sr. cunhou o termo Aliança dos Avestruzes?

Existe o mito de que o avestruz coloca a cabeça na areia quando encara uma ameaça. Quis dizer com essa metáfora que Brasil, Turcomenistão, Nicarágua e Bielorússia ativamente negam a ameaça do coronavírus. Isso gera um problema porque, mesmo se eles mudarem de postura no futuro, aumentou o número de pessoas que vão acreditar que o vírus é uma brincadeira e que não é uma ameaça séria. E realmente chama muita atenção: são três ditaduras e o Brasil. É um grupo muito inusitado. 

Quais as consequências disso para a imagem do Brasil no exterior?

Estamos falando da maior ameaça que a humanidade enfrenta neste momento e você tem quatro líderes que insistem em minimizar o problema. Isso chama a atenção do mundo. A imagem do Brasil é bastante associada à postura da negação. Os outros países já tinham essa imagem, eles já têm uma longuíssima história de decisões bizarras. 

O sr. pode detalhar um pouco mais cada um deles? 

O Turcomenistão é um país muito bizarro, sempre surgem notícias absurdas de lá. Que decidiu mudar os nomes dos dias da semana, que o último presidente escolhe seu dentista pessoal como seu sucessor. Sempre coisas muito estranhas. É um dos países mais fechados do mundo. A Bielorrússia é a única ditadura da Europa, tem censura, não tem liberdade. É também um país muito fechado, onde o presidente é uma espécie de líder da União Soviética (Aleksandr Lukashenko está no poder desde 1994). Um país que pouquíssimas pessoas conhecem.

Na Nicarágua, o Daniel Ortega é uma pessoa que lutou contra a ditadura e fez sua própria ditadura, reprimiu duramente manifestações contra ele. Internacionalmente, é a imagem de uma república de bananas. Então, para esses três, negar a pandemia até faz sentido para a comunidade internacional. Se alinha com as informações prévias que as pessoas têm em relação a essas nações. Esses líderes perderam completamente a conexão com sua população. 

O que mais chama a atenção da comunidade internacional? 

No passado, o Brasil liderou a batalha contra o HIV no mundo em desenvolvimento. Trabalhou com África do Sul, com Índia, para quebrar as patentes, foi fundamental e ganhou a fama de ser um país líder na área de saúde pública. Tem o Sistema Único de Saúde (SUS), que é muito reconhecido em países em desenvolvimento. A medicina e a saúde pública do Brasil tem reconhecimento e admiração internacionais. Então esse agrupamento chama atenção. Para o Brasil, é uma quebra de paradigma muito grande. 

O Brasil está cada vez mais associado a posturas estranhas. Um ataque à primeira-dama francesa, xingamentos contra o governo argentino, um vídeo pornográfico no carnaval. Estar com esses três simboliza que, cada vez mais, o Brasil é visto como um país com uma liderança vivendo em uma realidade paralela, fazendo coisas estranhíssimas, como negar a pandemia. Um líder de um grande país democrático fazer isso é o que gera incompreensão e perplexidade da comunidade internacional. 

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