AP Photo/Marco Ugarte
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Entrevista: 'Chavismo usou empresas de fachada no exterior', diz dissidente

Ex-procuradora-geral da Venezuela, afastada pelo governo, sugere que BNDES está envolvido em investigações sobre corrupção no governo de Nicolás Maduro

Entrevista com

Luisa Ortega Díaz

Jamil Chade, Correspondente / Genebra , O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2017 | 05h00

A procuradora afastada da Venezuela, Luisa Ortega Díaz, afirmou em entrevista ao Estado que o chavismo usou empresas e contratos fictícios para desvios de dinheiro. Ela também disse que, desde 2015, não se sabe qual é a real situação das contas do Estado venezuelano. 

Na semana passada, ela passou a divulgar vídeos em suas redes sociais com delações de ex-executivos da Odebrecht, em que se declara como a empresa teria financiado campanhas dos candidatos chavistas por uma década e, por ano, destinou ao menos US$ 3 milhões para bancar esses políticos. 

Ortega sugere que o BNDES está envolvido na investigação venezuelana. O banco diz “desconhecer o teor de eventuais investigações que tenham ocorrido na Venezuela e se coloca à disposição para recebê-las e dar o tratamento adequado”. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida em Genebra.

Como operavam o governo e a Odebrecht?

Algumas coisas não posso ainda revelar. O que posso dizer é que a corrupção era permanente. E isso vem de muitos anos. Com a Odebrecht, isso foi desde o momento em que a empresa se instalou. Em 2013, na eleição de Nicolás Maduro, pagamentos foram feitos também. Não foi um fato isolado. Era uma prática sustentável e que envolvia muitos funcionários. 

Na semana passada, a sra. disse que o dinheiro da propina não ficou na Venezuela e foi para cinco países diferentes. É isso? 

Exatamente. Os pagamentos eram em dólares, por meio de contas. Houve um acordo para que empresas fossem abertas, todas elas fora da Venezuela. Essas empresas tinham o único objetivo de fazer as transferências. Foram assinados contratos fictícios. Isso eu nunca revelei. Mas posso dizer que temos os nomes de quais foram essas empresas, em quais países elas foram criadas e quais foram os contratos. Esse era, portanto, o canal. 

E quais evidências a sra. tem?

Temos as contas e a rota desses pagamentos. 

Esse dinheiro era para caixa 2 de campanhas eleitorais ou a sra. tem evidências de enriquecimento pessoal a partir dessas propinas? 

Claro que sim. Mas, veja bem, as campanhas políticas estão reguladas por lei. Não se pode receber o dinheiro que o partido quiser. Esse dinheiro está regulado. 

O dinheiro voltou à Venezuela?

Não que saibamos. Até onde nós conseguimos montar a rota do dinheiro, ele não voltou. No entanto, a realidade é que o que nós temos é a ponta de um iceberg do que foi de fato a realidade da corrupção na Venezuela. Não sabemos o que realmente ocorreu. 

Existiram investigações sobre o caso ou a sra. tem evidências sobre a participação do BNDES? 

Isso faz parte do que temos. Oportunamente, informarei. 

A sra. avalia que a Odebrecht assinou contratos no valor de US$ 30 bilhões na Venezuela. Qual era a real dimensão da corrupção?

Obviamente que nem todo o dinheiro era corrupção, claramente. Mas muito desse dinheiro se perdeu. Você já viu como estão as obras? Muitas estão abandonadas e a deterioração desses locais pode ser ainda pior. Portanto, não temos quantificado qual foi o tamanho da corrupção na Venezuela. Estamos tentando fazer isso. 

Há obstáculo para o cálculo? 

Um dos obstáculos é que, a partir de 2015, não há um controle sobre os gastos públicos. Isso é que o governo de Maduro fez. Eles não queriam um Parlamento que olhasse as contas públicas.

 

Resposta:

***************Em nota enviada ao Estado, a empresa Odebrecht afirmou que o ritmo de execução das obras "acompanha o cronograma definido por seus clientes". Ela explica que a empresa está presenta na Venezuela desde 1992. "Nesses 25 anos, gerou mais de 100 mil empregos diretos e indiretos e estabeleceu profundas raízes no país. Foi contratada para realizar 21 obras, das quais 10 já foram totalmente concluídas e 11 estão em implantação."

 

A construtora afirma ainda que obras de grande porte, em locais de difícil acesso, "se tornaram oportunidades de desenvolvimento e emprego para comunidades locais". "Mais 8 mil trabalhadores foram treinados. Outros 10 mil jovens profissionais egressos de universidades venezuelanas iniciaram sua trajetória profissional na Odebrecht.  Programas de responsabilidade social beneficiaram 50 mil habitantes em mais de 70 comunidades."

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