ENTREVISTA-Dalai Lama: China não é realista sobre Tibete

O líder spiritual tibetano, Dalai Lama, disse nesta quarta-feira que retomar as negociações com a China sobre o futuro de sua pátria era inútil, a menos que o governo chinês adote uma postura "realista", acrescentando que não adiantava tentar convencer Pequim que ele não busca a independência total.

MOHAMMED ABBAS, REUTERS

20 de junho de 2012 | 16h47

Em declarações que devem enfurecer a liderança chinesa, já bastante aborrecida com a viagem dele para a Grã-Bretanha, o Dalai Lama também disse que uma mudança rumo à democracia e a melhores direitos humanos na China eram inevitáveis, e que o povo chinês "realmente quer mudança".

O monge de 76 anos falou na Grã-Bretanha, país que ele está visitando para espalhar uma mensagem de não violência e compaixão, tocando questões que incluem os infortúnios econômicos europeus que ele disse terem sido em parte provocados pela "ambição e ignorância".

"A questão é o direito básico (do povo). No futuro, a menos que eles iniciem uma postura realista para o problema tibetano dentro do Tibete, não há muito para discutir", disse o Dalai à Reuters em uma entrevista no Parlamento britânico.

Pequim tratou com desdém as autoridades britânicas, advertindo "graves consequências" e, segundo um relato não confirmado na mídia britânica, teria ameaçado realocar sua equipe olímpica da cidade de Leeds, no norte do país, em protesto contra as reuniões do Dalai Lama com autoridades britânicas.

"VERDADE DOS FATOS"

O Dalai Lama insiste que não busca a independência total do Tibete, mas diz que pouco pode fazer para convencer Pequim, que, segundo ele, está de fato interessada apenas em impor sua vontade.

"Ambos temos mantras para recitar. Meu mantra é 'não estamos buscando independência'. O mantra chinês é 'o Tibete será sempre parte da China'. Acho que o efeito real em ambos os mantras é limitado", disse o Nobel da Paz.

"Essa não é uma questão de convencimento. Eu acho que eles acham mais fácil apenas reprimir."

O Dalai Lama espera, no entanto, que a China assuma uma postura diferente sob um novo presidente, quase certamente Xi Jinping, ou será obrigada a fazê-lo por um clamor crescente por mudança de seus 1,35 bilhão de habitantes.

"Eu espero que o sr. Xi Jinping, um novo líder, sangue novo, olhe para um caminho mais aberto e realista", disse o Dalai, acrescentando que Xi deve liderar uma reforma política do mesmo modo em que o ex-líder Deng Xiaoping, nos anos 1970 e 1980, trouxe reformas de mercado que fizeram da China uma potência econômica.

"Deng Xiaoping disse: 'busque a verdade dos fatos'. Então ele seguiu a estrada capitalista por razões econômicas. Agora o sistema político - eu acho que chegou a hora de buscar a verdade dos fatos", disse o Dalai Lama.

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