AP Photo/Kirsty Wigglesworth - 10/03/2021
AP Photo/Kirsty Wigglesworth - 10/03/2021

Entrevista de Meghan expõe tabloides e divide imprensa britânica

Revelações da duquesa de Sussex sobre racismo provocaram reações diversas entre profissionais e veículos de imprensa, expondo fragilidades da mídia britânica

Stephen Castle e Isabella Kwai, The New York Times

11 de março de 2021 | 13h07

LONDRES - Além de dividir os britânicos e ter abalado a família real, a repercussão da entrevista do príncipe Harry e de Meghan criou cismas na mídia britânica e levantou questões mais amplas sobre o racismo na sociedade do Reino Unido.

 "Normalmente você veria a imprensa se defendendo, mas eles não conseguiram construir uma causa comum", disse James Rodgers, professor de jornalismo na City University of London. "Muitas das divisões na sociedade britânica sobre a conduta de Harry e Meghan são refletidas na mídia".

Na quarta-feira, a Sociedade de Editores, um influente grupo de mídia, foi forçada a voltar atrás após críticas de mais de 160 jornalistas negros e dos editores de jornais como The Guardian e The Financial Times.

Após ter dito que "a mídia do Reino Unido não era intolerante" e acusado Meghan e Harry de um ataque infundado à profissão, o grupo emitiu um esclarecimento, reconhecendo que sua declaração inicial "não refletia o que todos sabemos: há muito trabalho a ser feito na mídia para melhorar a diversidade e a inclusão." 

Horas depois, o diretor executivo do grupo, Ian Murray, renunciou. Assumindo a responsabilidade pela declaração original, disse que estava saindo "para que a organização pudesse começar a reconstruir sua reputação".

A repercussão mais impactante atingiu um dos críticos mais fortes ​​de Meghan, Piers Morgan, co-apresentador do programa de notícias "Good Morning Britain", da ITV, que renunciou na terça após atacar a duquesa de Sussex, dizendo não acreditar que ela realmente tenha tido pensamentos suicidas.

Sua fala gerou mais de 40 mil reclamações a agência reguladora de TV e uma reclamação direta à emissora da própria Meghan. Os jornais sensacionalistas, que Harry e Meghan culparam por expulsá-los do país com seus ataques, foram contidos sobre a entrevista, disseram os críticos da mídia, evitando qualquer coisa que pudesse ser interpretada como racista.

Em vez disso, se concentraram na defesa da Rainha Elizabeth II e da monarquia. A reaçaõ pode ser efeito da derrota jurídica do Mail on Sunday e do MailOnline em um processo recente envolvendo o casal. "Em termos de como o racismo se enquadra no debate nacional, o Reino Unido é muito diferente dos Estados Unidos", disse David Yelland, ex-editor do tabloide de maior vendagem do país, The Sun

Embora ele não concorde que a raça motivou críticas dos tabloides a Meghan, Yelland admite que há um enorme preconceito inconsciente nas redações britânicas. "Estamos muito atrás dos EUA no que diz respeito (ao racismo) ser um assunto que está na boca das pessoas o tempo todo", disse. "Há uma grande ignorância sobre o que é racismo." 

Para Yelland, a entrevista lançou luz sobre a relação entre a mídia e uma monarquia com uma longa tradição de não comentar notícias. O acordo tácito era "que a monarquia nunca reclama e em troca a imprensa é basicamente favorável, mas inventa um monte de coisas - algumas delas muito dolorosas para o palácio". "Meghan colocou uma bomba sob tudo isso e todo mundo está em pânico".

'Tensões da sociedade'

Outros especialistas dizem que os preconceitos da mídia refletem tensões profundas da sociedade. O furor sobre a alegação de Meghan e Harry de que um membro da família real se preocupava com o tom de pele de seu filho Archie foi motivado por "uma negação muito profunda no Reino Unido sobre a existência de racismo", disse Gavan Titley, da Maynooth University e autor do livro "Racism and Media".

Embora a mídia e outras instituições reconheçam que o racismo aberto é inaceitável, muitos têm uma compreensão limitada de suas nuances, com pessoas negras tendo que fornecer "um ônus da prova" contra quaisquer acusações de racismo. "Isso torna muito difícil para as pessoas falarem sobre a experiência de racismo na sociedade britânica."

Para Charlie Brinkhurst-Cuff, editora-chefe da revista gal-dem, a declaração inicial da Sociedade de Editores foi "extremamente decepcionante". "Dentro dos tabloides há uma total falta de cuidado e ética quando se trata das histórias de pessoas marginalizadas, e isso se alinha com as crenças políticas mais amplas dos jornais."

Um relatório de 2019 da Universidade de Leeds descobriu que, embora as minorias étnicas recebessem muito pouca cobertura de notícias gerais, elas figuravam com destaque em histórias sobre "agendas de notícias específicas, notadamente imigração, terrorismo e crime".

Indústria é predominantemente branca e masculina

Outra pesquisa, realizada pelo grupo Mulheres no Jornalismo, apresenta um quadro da indústria de mídia britânica: branca e predominantemente masculina. Ao longo de uma semana em 2020, durante o auge dos protestos Black Lives Matter, nem um único repórter negro foi destaque na primeira página de qualquer publicação importante, descobriu o relatório.

E das 111 pessoas citadas nas primeiras páginas, apenas uma era uma mulher negra: Jen Reid, que participou de um protesto em Bristol, na Inglaterra, no qual as pessoas derrubaram a estátua de um traficante de escravos, Edward Colston.

Jen foi citada pelo The Guardian depois que uma estátua dela foi erguida em seu lugar. Em 2016, a City University of London entrevistou 700 jornalistas britânicos e descobriu que apenas 0,4% da profissão era muçulmana e apenas 0,2% eram negros, em comparação com 5% e 3% da população britânica, respectivamente.

De acordo com Brian Cathcart, professor de jornalismo da Kingston University London, as acusações sobre as coberturas vêm em um momento de vulnerabilidade. Como a mídia impressa tradicional em todo o mundo, a imprensa popular britânica sofre um declínio na circulação e na publicidade. Também houve queda proporcional na influência, embora mantenha um poder significativo para definir a agenda para a mídia de radiodifusão.

Analistas minimizam a perspectiva de novas leis de mídia, dizendo que o primeiro-ministro Boris Johnson abandonou a ideia de uma nova regulamentação. No entanto, a arrogância com que os tabloides operavam parece ter sido reduzida. "Eles estão muito chateados por perder o caso legal para Meghan e Harry porque foram humilhados", disse Brian Cathcart. 

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