German Marshall Fund
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‘Economia pressiona governo bielo-russo’, diz especialista em Leste Europeu

Para Joerg Forbrig, até a população mais pobre, que antes era aliada, está contra Lukashenko

Entrevista com

Joerg Forbrig, diretor de Europa Central e do Leste no German Marshall Fund

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2020 | 06h00

As manifestações contra o governo de Alexander Lukashenko são as maiores na Bielo-Rússia desde o início dos anos 90, quando ele chegou ao poder. Na avaliação de Joerg Forbrig, diretor de Europa Central e do Leste no German Marshall Fund, quanto mais os atos nas ruas durarem, menor as chances do “último ditador da Europa”continuar à frente do país. 

Há uma possibilidade real de Lukashenko deixar o poder?

A possibilidade de queda é muito real. Pode ser uma questão de dias se a mobilização que estamos vendo continuar e crescer. Em algum momento, essa mobilização vai chegar a um nível e a um tamanho em que o aparato de segurança não poderá fazer mais nada. Quanto mais tempo durarem as manifestações, menores as chances de Lukashenko ficar no poder. 

O que mudou para que houvesse uma oposição nas eleições e esses protestos em massa?

A Bielo-Rússia está em estagnação econômica há pelo menos dez anos. Isso primeiro afetou os moradores de pequenas cidades. São pessoas que tiveram menos educação e são mais dependentes dos empregos estatais. Elas viram seus salários estagnados, os preços subirem e algumas foram até forçadas a trabalhar fora do país. Elas apoiavam Lukashenko ou eram, digamos, passivas. Esse grupo foi mobilizado simplesmente porque sua situação econômica e social foi piorando severamente. O outro grupo impactado é parte da elite que trabalha na administração pública e nas companhias estatais. São pessoas que perceberam que o desenvolvimento econômico do país não pode ser mais assim, que precisa de reformas, e estão se mobilizando. 

Que tipo de reformas econômicas são pedidas? 

A Bielo-Rússia tem uma economia muito controlada pelo Estado. É uma economia quase soviética. Há indústrias que não são lucrativas. O déficit do setor estatal só pode ser compensado com subsídios da Rússia em áreas como óleo, gás, empréstimos. É um modelo que não se sustenta mais. 

A pandemia ajudou a unir as pessoas contra o governo? 

Lukashenko negou efetivamente a crise. Chamou de psicose. Mas as pessoas esperam muito dos serviços estatais. Então, o povo da Bielo-Rússia se sentiu abandonado. Eles ficaram desapontados porque não tiveram suporte, orientações e nem informações sobre como responder à pandemia. 

Qual foi o papel da oposição nas eleições da Bielo-Rússia?

No passado, a oposição era apenas um pequeno grupo de pessoas que geralmente não convenciam muito. Neste ano, três pessoas apareceram como fortes candidatos e conseguiram mobilizar a população. E o governo percebeu isso. Dois foram presos e um exilado. A esposa de um deles, Svetlana Tikhanovskaya, quando viu isso, decidiu então fazer a campanha totalmente amadora. E combinou seus esforços com as equipes das outras campanhas. Foi uma situação que a Bielo-Rússia nunca viu no passado. Ela se tornou o rosto da mudança mesmo sem ter exatamente um programa. Ela dizia que queria eleições justas e livres, defendia que os presos políticos fossem liberados. Ela foi escolhida por sua oposição contra Lukashenko. Há uma sensação de 'qualquer pessoa menos ele'.  

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