Leonardo Veras
Leonardo Veras

Entrevista: ‘Ficou mais fácil saber o que é notícia falsa’

Ex-correspondente internacional do ‘Estado’ diz que Trump ataca a grande mídia porque ela exibe suas contradições

Entrevista com

Moisés Rabinovici

Renata Tranches , O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2017 | 05h00

Com 40 anos de profissão – dos quais 16 como correspondente internacional – o jornalista Moisés Rabinovici avalia que o papel do jornalista hoje é separar o ‘joio do trigo’ em meio à tanta informação disponível na era digital e à recente onda de notícias falsas. Rabinovici, que estreia o programa de análise Um Olhar sobre o Mundo no dia 16 (às 22h, em rede nacional, pela TV Brasil), critica o presidente dos EUA, Donald Trump, por atacar meios de comunicações que expõem as contradições de seu governo. 

Qual é o principal desafio do correspondente internacional hoje? 

É conseguir ser singular na mesmice. Não adianta ele se basear nas agências de notícia e mandar para o jornal o que todos já estão noticiando. Ele precisa ter um olhar exclusivo, específico, que valha. Cumpra o papel que as agências não estão cumprindo. Isso é um dos aspectos do correspondente, que vai dar a perspectiva de seu país diante dos acontecimentos. O mundo de hoje não é mais lugar para o jornalismo romântico. Hoje, o jornalismo é imediatista. Agora, um atirador começa a disparar em Las Vegas, antes que ele acabe o último cartucho, já estamos acompanhando o que está acontecendo. Esse é o fenômeno ‘glocal’, que significa global e local ao mesmo tempo. 

O que quer dizer? 

As notícias hoje são todas locais e globalizadas. O que é global passou a ser local. Temos essas notícias imediatamente nas mãos e o trabalho do jornalismo agora é fazer uma curadoria. Separar o que é fake news e o que não é, organizar a leitura para um leitor que está sendo invadido por quilômetros de notícia, informação em excesso. O grande repórter pode até chegar atrasado, mas ele volta com uma belíssima de uma matéria. E essa reportagem é de leitura, que os jornais de fim de semana precisam. Contar histórias e ter um olhar sobre o mundo, que é minha proposta, dar ao leitor uma visão de quem esteve no mundo e aprendeu com ele como reportar o que significam determinados acontecimentos. 

Nesse contexto, existe o jornalismo cidadão, feito por quem está no centro dos conflitos onde os jornalistas não podem chegar. Como confiar nessas fontes? 

Da mesma forma que um tuíte que a pessoa manda pode conter uma mentira, há o desmentido. Essas coisas são imediatas. Ficou mais fácil espalhar uma notícia falsa, mas ficou também fácil descobrir a mentira. Há um embate. O problema é que as falsas, as ‘fake news’, têm maior insistência, ficam mais tempo nas redes. Jornalistas como eu são animais em extinção. Fazíamos as coberturas românticas, íamos para cobrir uma guerra, dos dois lados do front. A gente avançava com as tropas de um país invadindo o outro. Hoje, tem os drones que por controle remoto, por exemplo, vão a lugares que não se chega.

O que mais mudou? 

No telex (que se utilizava para transmitir a notícia), o seu dia vivido na cobertura da guerra sai diretamente do cérebro para os dedos, no teclado. Não faz nenhuma parada para ‘maquiagem’. Hoje em dia esses textos já não cabem mais, porque os leitores têm pressa, as plataformas de distribuição de notícia são imediatas, não comportam textos longos, investigativos. Eles têm lugar nos jornais (impressos) porque são indispensáveis para atrair o leitor. 

O que o sr. acha das tentativas de deslegitimar a grande mídia, como no caso do presidente Donald Trump que disse que as pessoas podem acompanhar as coisas pelo Twitter? 

Ele comete um erro. Ele despreza tanto a imprensa tradicional que sequer foi ao almoço anual para o qual foi convidado. Ele passou a achar que não precisa da imprensa porque ela vai atrás e cobra o que ele diz. Durante a campanha eleitoral, ele acusou Hillary (Clinton) de usar um servidor pessoal e não o da Secretaria de Estado para e-mails que eram do governo. Agora, o pessoal dele fez a mesma coisa. Ele não gosta da imprensa porque ela descobre histórias como essa. 

Por que há tantas mortes ligadas ao exercício da profissão, mesmo em países que não estão “em guerra”, como o México? 

É corajoso o jornal mexicano que está na região do narcotráfico sair com uma lista dos narcotraficantes mais procurados. Isso provoca assassinatos. É lamentável, mas é nossa profissão. 

Com tantos blogs e outras fontes sobre os mais diversos temas, qual o risco da retroalimentação por aqueles que só se interessam por ler o que condiz com sua opinião? 

O importante é poder ter informação independente e desinteressada porque as que vêm com partidarismo, ou com algum interesse, são parte de um lobby, essas não formam, fazem marketing. Por isso, o jornalismo hoje é muito curadoria, o valor do jornalista hoje é muito o de separar o joio do trigo, de poder escrever um artigo com base nas informações consideradas honestas. Vão restar aqueles jornais que prezam a informação com objetividade, que publiquem reportagens aprofundadas, investigativas e completas, não o que a internet está atirando contra nós. 

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