Ludovic Marin/AFP
Ludovic Marin/AFP

Entrevista: 'Medidas de segurança em Paris têm mais efeito psicológico do que real'

Para sociólogo especialista em radicalização, basta que haja uma longa fila para que um terrorista possa matar dezenas de pessoas 

Entrevista com

Farhad Khosrokhavar, sociólogo especialista em radicalização

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2018 | 05h00

O muro na Torre Eiffel traz segurança efetiva ou só um efeito psicológico?

Não creio que haja efeitos perceptíveis sobre a segurança, mas há um efeito psicológico de dar segurança à opinião pública, a impressão de que o público está protegido. Na verdade, basta que haja uma longa fila para o lado de fora para que um terrorista possa matar dezenas de pessoas. A questão toda é aportar um sentimento de segurança às pessoas. É o mesmo mecanismo que levou supermercados e shoppings centers a colocar vigias para verificar as bolsas e mochilas dos visitantes. Ora, um terrorista não hesitaria em matar um vigilante desarmado. Por isso, ressalto: são medidas que têm mais efeito psicológico do que real.

O efeito psicológico se estende aos islamistas radicais?

Não, o efeito psicológico serve apenas para quem pode ser vítima. O fato é que não estamos mais protegidos, porque quem quer explodir um artefato ou cometer um atentado de outra natureza pode fazê-lo, já que os seguranças não estão armados. Por isso, não creio em um efeito dissuasivo para os terroristas, ainda que isso possa influenciá-los de alguma forma.

Não se trata de alguma forma de uma vitória simbólica do terrorismo?

Não creio em vitória do terrorismo. Essa reação de parte do Estado entra no cálculo das organizações terroristas. Proteger o perímetro da Torre Eiffel é uma maneira de aportar mais sensação de segurança à população com um mínimo de estrutura. Os vidros à prova de balas instalados na torre ofereceriam uma proteção parcial em caso de um atentado armado. É algo que complica a vida de um agressor. Mas não é possível proteger a fila de visitantes, por exemplo. Isso para não dizer que os terroristas poderiam estar entre quem faz a fila, já que a verificação não é sistemática. 

Os opositores a essas barreiras dizem que se trata de uma “normalização” do terrorismo.

Eu diria que o Estado está se protegendo. Os terroristas tiveram um “ganho de causa”, é verdade. Mas a criação dessas barreiras e estruturas não é percebida pela opinião pública como uma derrota, mas sim como uma reação natural. Essas estruturas podem ser reforçadas quando a ameaça é elevada e relaxadas depois. Não são estruturas definitivas e têm muito a ver com a ameaça ainda presente de atentados. 

Esse tema aparece em suas pesquisas com islamistas radicais?

Não, porque a decisão de um atentado é tomada de acordo com as circunstâncias. Se não for possível fazer tal atentado, farão outro. De início, os ataques ocorreram com fuzis. Depois, com caminhões. Os terroristas se adaptam e sabem reconhecer quando uma estratégia está bloqueada. É uma questão de tática, que não muda o caráter ideológico da radicalização.

 

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