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Entrevista: 'Não resta nada de Maio de 1968'

Para líder estudantil e ícone da revolta que completa 50 anos, compará-la com movimentos de hoje é ‘inútil’ e ‘anacrônico’

Andrei Netto, enviado especial / Frankfurt, O Estado de S.Paulo

13 Maio 2018 | 05h00

FRANKFURT - O mundo conhece “Dany, o Vermelho” desde março de 1968. Na época, Daniel Cohn-Bendit, judeu alemão nascido em Montauban, na França, durante a perseguição nazista na 2.ª Guerra, ajudou a articular e tornou-se símbolo da ocupação da torre de administração da Universidade de Nanterre. A invasão marcou o início do período de turbulências que entrou para a história como a revolta de Maio de 1968, que completa 50 anos. 

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Conhecido desde 1966 nos círculos estudantis e políticos, Cohn-Bendit era na verdade um agitador libertário e antiautoritário, mas sobretudo um estudante reformista, e não um revolucionário, segundo ele próprio explica. Hoje militante ecologista, de perfil moderado e próximo ao presidente da França, Emmanuel Macron, Cohn-Bendit é um dos maiores defensores do federalismo na Europa. Cogitado várias vezes para cargos eletivos, incluindo a presidência da França, ele sempre se recusou a exercer funções executivas, embora tenha tido intensa vida partidária e parlamentar.

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Cohn Bendit é um dos mais disputados analistas da Europa, mas com uma particularidade: dificilmente aceita falar sobre Maio de 1968. Para Dany, tentar reviver o movimento hoje é anacrônico e inútil. “Vivemos um outro mundo, uma outra sociedade”, afirma. A seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva concedida ao Estado em Frankfurt.

Você sente um peso por ser um dos personagens centrais de Maio de 68?

Não é um peso. Eu mentiria se dissesse que é. Sou um ícone de 68. A foto que me imortalizou diante de um policial é um bem comum e eu aproveitei isso tudo. O difícil para mim é ter sempre de explicar ou comparar épocas diferentes. Um jornalista do New York Times me ligou há pouco querendo saber qual é a diferença entre o que se passou em 1968 e o que se passa nas universidades ou nas greves de hoje. Comparar movimentos atuais com o que ocorreu há 50 anos não faz sentido. Vivemos em outro mundo, outra sociedade. Meio século se passou. A única pergunta que devemos fazer é por que 1968 interessa tanto?

Por que interessa tanto? 

Primeiro, porque tínhamos consciência de que um novo mundo estava nascendo, assim como um novo mundo estava nascendo na queda do Muro de Berlim. Segundo, porque Maio de 68 foi talvez a última grande revolta, inesperada, que demonstrou que a história pode ser diferente. Isso é fascinante. Hoje, quem ocupa a universidade ou faz greve imagina que vai chegar a uma situação similar. Mas como o mundo é totalmente diferente, não acontece da mesma forma. 

Você concorda com Alain Touraine, que diz que Maio de 68 marcou a transição de um mundo industrial operário para um mundo urbano universitário?

Isso é a teoria sociológica de Touraine, que já existia na época. Houve de fato uma grande greve operária. Mas o mais interessante foi a revolta que ocorreu nas universidades contra um mundo autoritário, contra uma visão da vida ultrapassada. Os jovens operários que se lançaram à revolta na França também o faziam em um movimento antiautoritário. A revolta também ocorreu nas indústrias e foi promovida pela geração nascida no pós-guerra. Eles disseram à geração anterior, que participou da guerra: “Nós não queremos o mundo que vocês organizaram”. Isso também vale para o mundo comunista, como ocorreu na Polônia. Eles diziam que não queriam aquele mundo gerenciado e vivido pela experiência da guerra. Nossa geração disse: “Essa não é a nossa história”. Esse é o motor da revolta de 1968, tanto no Leste quanto no Oeste.

Mas há um paradoxo: vocês eram antiautoritários e libertários, mas seus ícones eram Mao, Fidel e Che Guevara. 

Mas isso aconteceu em todo o mundo. Os maoistas eram os ícones da liberdade, o que era completamente descabido. O grande problema das revoltas dos anos 60 é que havia uma emoção libertária. Queríamos um outro mundo, mas a consciência e o discurso político eram do século 19. Essa é uma das grandes contradições de 68. Não conseguíamos expressar o que vivíamos com um discurso, uma narrativa moderna. Isso está muito bem explicado no livro La Brèche, de Edgar Morin, Cornelius Castoriadis e Claude Lefort, que saiu em junho de 1968, a melhor interpretação já escrita a respeito. O esquerdismo levou anos para compreender isso. Os trotskistas analisavam 68 e o comparavam a 1905, com o ensaio geral da Revolução Russa de 1917. Para eles, 68 foi o ensaio e a revolução está vindo. Estão esperando até agora.

Você disse que 68 foi uma revolução cultural bem-sucedida e uma revolução política fracassada – felizmente. Por que ‘felizmente’?

Ganhamos socialmente e perdemos politicamente. Felizmente. Se todos os grupos marxistas-leninistas tivessem tomado o poder, teríamos recomeçado o que se passou na Rússia ou o que se passou após a Revolução Francesa. 

Como foi encarnar uma geração?

Eu vivia isso dia a dia. Tinha consciência, via o que se passava e sabia que era um fenômeno incrível. Por isso, no final de maio, parti para o exterior para falar em comícios. Então, fui proibido de voltar. Eu costumo dizer que isso me salvou. Tive de refazer minha vida na Alemanha, recomeçar, plantar raízes, repensar muitas coisas. Mas não fui exaurido pelo peso. Foi algo lúdico para mim. 

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O que resta de Maio de 68?

Nada.

Mas o movimento não forjou nossa cultura, como diz o senso comum?

Mas não foi Maio de 68. O que o movimento fez foi quebrar, ainda que não totalmente, as ideologias reacionárias e o comunismo. Ele permitiu a emergência de um novo momento. Maio de 68 foi uma brecha aberta no solo, que engoliu a velharia e permitiu a emergência de um novo pensamento. Maio de 68 acelerou o movimento, mas a sociedade continua a mudar ao longo de 50 anos.

Então o sr. vê Maio de 68 como um evento, não como um movimento que continua no tempo.

Foi um evento que criou um movimento. Mas os movimentos hoje não têm mais nada a ver com 1968.

Maio de 68 passou e muitas de suas lutas seguem inacabadas. Por quê? 

Porque a vida continuou. Maio de 68 não parou o mundo. Há muitas lutas em jogo, contradições em curso. A construção europeia, por exemplo, é contestada. Maio de 68 não foi o fim história. 

O surgimento de ‘democracias iliberais’ no Leste da Europa é um desses desdobramentos?

Sim, a democracia existe em muitos países, mas está em dificuldades em razão dos problemas que não consegue resolver. Um exemplo: refugiados e imigrantes. Por que ela tem dificuldades? Porque a questão do estrangeiro, do outro, é um dos problemas com que as sociedades mais têm dificuldade em lidar. 

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Você foi empurrado a assumir o poder? Não teve esse impulso?

Não, ninguém tentou, porque todos sabiam que eu não queria. 

Em 2012, muitos imaginaram sua candidatura à presidência da França.

Eu estava no Parlamento Europeu. Mas é verdade que muita gente imaginou que eu poderia ser presidente.

Talvez pudesse ter sido no lugar de François Hollande, não?

Depois do resultado fabuloso que tivemos nas eleições europeias de 2009, muita gente quis que eu fosse prefeito de Paris. Mas nada disso me atraiu. Eu estava muito bem no Parlamento Europeu. A Europa é fundamental para mim. E eu não quero o poder.

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Revolta foi grito de liberdade dos jovens

'Foi a rebelião de uma fração da juventude e marca a chegada dos jovens como atores sociais que se mobilizam e agem para transformar a sociedade', diz autora de 'A Violência Revolucionária' e 'A França Rebelde'

Andrei Netto, enviado especial / Frankfurt, O Estado de S.Paulo

13 Maio 2018 | 05h00

FRANKFURT - A independência e a autonomia da juventude são um marco de 1968. Até os protestos contra a Guerra do Vietnã, a Primavera de Praga, e Maio de 68 os jovens viviam sujeitos aos valores da família patriarcal. Para eles, lutar por liberdades individuais era mais importante do que a revolução política. O papel da juventude nas revoltas dos anos 60 é tema central para pesquisadores que estudam o movimento.

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Para Isabelle Sommier, autora de A Violência Revolucionária e A França Rebelde, os protestos foram a liberação da voz da juventude. “Maio de 68 foi a rebelião de uma fração da juventude e marca a chegada dos jovens como atores sociais que se mobilizam e agem para transformar a sociedade”, diz. “Isso se explica pela massificação do ensino superior e pela emergência de uma nova consciência da juventude, que se dá conta, através da música, do cinema, de seus ídolos, que forma um conjunto.”

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Marcado por contradições, como defender a liberdade e ter como ícones regimes autoritários de Cuba e China, Maio de 68 também teve no comportamento da juventude um paradoxo. Os jovens que se rebelavam denunciavam a “sociedade do consumo”, mas eram frutos da nova sociedade do pós-guerra, cada vez mais urbana e burguesa, marcada pela cultura pop e pelos meios de comunicação de massa. “O que tornou possível o movimento foi a cultura de massa, que favorecia a circulação das ideias”, diz Isabelle.

Membro dos grupos da Universidade de Nanterre, que iniciaram a revolta, Serge July tinha 25 anos quando o movimento eclodiu. Cinco anos depois, fundou ao lado de intelectuais como Jean-Paul Sartre o Libération, jornal que dirigiu por 30 anos. Ainda hoje, o diário exprime o espírito de 68. “Era um movimento de forte conotação cultural da juventude, muito mais do que qualquer conotação política”, diz July.

 

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