AFP PHOTO / JAVIER SORIANO
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Entrevista: ‘Se Madri aceitasse um plebiscito legal, separatistas perderiam’

Cientista político da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais diz acreditar que Rajoy deveria negociar com governo catalão e pactuar uma votação legal 

Entrevista com

Manuel Cervera-Marzal

Andrei Netto, Correspondente / Paris , O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2017 | 05h00

Especialista em militância e movimentos alternativos, o cientista político Manuel Cervera-Marzal, da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, de Paris, diz acreditar que a crise da Catalunha não necessariamente resultará na independência. Mas, para isso, o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, terá de ceder em negociações – o que nunca fez até aqui. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado.

Rajoy foi criticado pela gestão da crise. O que o sr. acha?

As críticas são justas. No Twitter, alguém disse que se Catalunha se tornar independente, Barcelona deveria rebatizar uma das ramblas com o nome de Mariano Rajoy. Suas ações mobilizaram os independentistas. A história começa em 2006, quando havia um novo estatuto para a Catalunha aprovado e não havia tensão alguma pró-independência. No último minuto, o partido de Rajoy, PP, apelou ao Tribunal Constitucional, que era formado por 10 de 12 juízes nomeados pelo próprio PP. O estatuto foi anulado. A estratégia de sufocar a autonomia continuou em 2014, quando uma consulta popular foi proibida por Rajoy. Depois, ele se fechou ao diálogo. Agora, ordenou a repressão. 

O sr. acha que a Catalunha será um país independente?

Estamos em meio ao desconhecido. Puigdemont adiou algumas vezes a proclamação de independência e vem fazendo declarações em favor do diálogo. Mesmo uma parte dos independentistas não têm interesse em uma proclamação de independência que não seria reconhecida por quase ninguém. 

Proclamar a independência pode ser um erro?

Pode. Puigdemont bateu à porta de muitas embaixadas europeias, que se recusaram a recebê-lo. Muitos países que têm regiões autônomas se negarão a reconhecer a independência com medo de alimentar qualquer separatismo interno. Muitos países têm boas relações diplomáticas com a Espanha e evitarão o atrito com Madri. 

Quais alternativas tem Madri para impedir a independência da Catalunha?

Uma alternativa simples é abrir negociações com o governo da Catalunha e aceitar a realização de um plebiscito legal. Se esse plebiscito legal acontecesse hoje, pesquisas apontam entre 40% e 45% de pessoas contra a independência. A vitória do “não” seria quase certa e o problema estaria resolvido. 

Qual sua avaliação sobre o discurso do rei Felipe VI? 

O discurso do rei foi um discurso de apoio absoluto à política de Mariano Rajoy. Foi quase um apelo implícito ao governo para que recorra ao Artigo 155 da Constituição e, com isso, retome o controle da região da Catalunha. No final, ele acabou por justificar a piada que estão fazendo na Espanha, a de que seu nome é, na realidade, FeliPP.



 

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