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Entrevista: ‘Sempre separei populismo de Demagogia’, diz senador chileno

Senador defende uma nova Constituição que proteja minorias e garanta desenvolvimento econômico do Chile

Entrevista com

Manuel Ossandón, senador do partido de direita Renovação Nacional

Rodrigo Cavalheiro, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2020 | 01h30

Boa parte dos protestos é contra a classe política e uma das exigência era a redução do salário dos políticos. O que os políticos fizeram de errado?

É uma revolta contra o sistema, contra o Estado. As pessoas estão frustradas e todos são alvo, não apenas a classe política. Existe uma elite que continua abusando e tirando proveito dos privilégios, enquanto as pessoas seguem com aposentadorias e salários miseráveis. Antes que o Parlamento chegasse a uma decisão sobre os salários, decidi baixar o meu sozinho.

É surpreendente que não haja bandeiras de partidos nos protestos. Algum grupo político tentou se apropriar das demandas?

Quem tentar fazer isso está errado. Políticos e seus partidos são parte do problema. É uma crise cultural, não é apenas uma manifestação política. É por isso que essa manifestação não tem um líder, nem uma solicitação clara. O que estamos exigindo é mudar a maneira de fazer as coisas: melhorar a transparência, a alocação de recursos e a rastreabilidade.

Este cenário anti-Estado e antissistema pode favorecer a chegada ao poder de um populista?

Seria necessário definir o que é populismo. Sempre separei o populismo da demagogia. Se alguém trabalha na rua, com sucesso comprovado, e o chamam de populista, não vejo problema. Além disso, aqueles que dirigiram o Chile e falam apenas à elite representaram precisamente o contrário. No meu país, o populismo está associado a não entender algo, a questões que são temidas ou não compreendidas.

Seus rivais o consideram um populista, pelo menos se compararmos com a maior parte da classe política chilena. Como se definiria?

Ser populista e desleal, como me chamam, sempre significou para mim estar com aqueles que têm menos. Prefiro estar nesse caminho e não na política da estratosfera. Gostaria de destacar que fui prefeito durante 20 anos. Ser prefeito permite que você esteja em uma batalha na primeira linha da pobreza e da realidade cotidiana. Essa experiência não tem preço, porque hoje eu posso falar com propriedade das carências das pessoas.

Alguns analistas interpretam essa revolta como um movimento contra o neoliberalismo. Mas, nas ruas, as pessoas dizem que ela poderia ter explodido com os socialistas Michelle Bachelet ou Ricardo Lagos. É correto?

Isso é o fim de uma etapa e vai muito além de uma crítica ao modelo neoliberal. Acredito no crescimento econômico, mas com uma distribuição muito melhor. Crescimento sem paz social não funciona. As pessoas devem ter sua parte nos ganhos de um país. É claro que o modelo deve ser corrigido.

Por que a direita chilena não consegue se desconectar da sombra de Augusto Pinochet? O sr. vê coisas boas no governo dele?

Ninguém está mais pensando em Pinochet. As pessoas se cansaram da maneira de se relacionar com o Estado, com instituições, com empresas. Estamos diante de uma mudança muito profunda e transversal e vejo essa mudança com otimismo. Aqueles que ainda estão presos lá atrás continuarão arrastando as barras do passado. Hoje, devemos trabalhar contra a desigualdade, os abusos, buscar o desenvolvimento inclusivo e a igualdade. Hoje, o país exige que falemos com todos, para fazer pontes.

Se o sr. se tornar presidente e algo semelhante acontecer em seu governo, como negociaria?

Primeiro, acredito que o presidente Sebastián Piñera não seja o único responsável pelo que aconteceu. Vi autoridades do governo desconectadas da realidade e da rua. Devemos entender que a raiz do problema existe e não estamos vivendo apenas um problema de ordem pública. Apostar no desgaste do movimento social e desacreditá-lo foi uma estratégia terrível. A chave para sair de um problema como esse é a transversalidade e o senso comum. As pessoas não querem destruir o Chile, as pessoas querem viver em paz.

O sr. teria colocado o Exército na rua para controlar os protestos?

Para controlar os protestos, inicialmente, não. Mas sugeri várias vezes concentrar os militares na infraestrutura essencial do Chile. A destruição ocorrida em nosso país é inegável, mas devemos trabalhar juntos para avançar e melhorar o que tínhamos.

O que acontecerá com uma Constituinte? Uma nova Carta garantiria maior controle sobre as concessões à iniciativa privada? 

Uma nova Constituição, nascida na democracia, será importante. Passaremos para um modelo que coloque as pessoas no centro, que devolva a dignidade, que seja verdadeiramente participativo, que quebre abusos e desigualdades, onde o Estado as proteja e as defenda. Mas também devemos crescer economicamente. Acredito no livre mercado, mas ele não pode ser autorregulamentado. Chegou a hora de distribuir a riqueza para todos os chilenos e isso não significa tirar de um para dar aos outros.

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