Enviada de Obama chega amanhã a Cuba para diálogo

Subsecretária do Departamento de Estado deve se tornar a mais alta autoridade americana em atividade a pisar na ilha em 38 anos

CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2015 | 02h05

Mais alta autoridade americana a pisar em solo cubano em 38 anos, a subsecretária do Departamento de Estado, Roberta Jacobson, inicia amanhã em Havana as primeiras negociações sobre o restabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países. Nas conversas, pedirá o livre acesso dos cubanos à futura Embaixada dos EUA e o fim das restrições a viagens de diplomatas pela ilha - hoje, eles estão confinados à capital.

Em uma demonstração de que os Estados Unidos manterão a pressão sobre o governo cubano em relação à situação dos direitos humanos, Jacobson se reunirá na sexta-feira com dissidentes cubanos.

O principal objetivo das negociações será definir os passos para abertura das embaixadas dos dois países em Havana e Washington, mas as discussões incluirão outros temas da relação bilateral. O mais difícil deles, que não será resolvido no curto prazo, envolve os pedidos de indenização apresentados por americanos que tiveram bens expropriados depois da Revolução Cubana.

O Departamento de Justiça reconheceu 5.913 solicitações de um total de 8.816 apresentados por empresas e empresários que tinham negócios como plantações de cana, imóveis, fábricas, refinarias e armazéns.

O valor das perdas foi estimado em US$ 1,9 bilhão em 1972 e pode chegar a US$ 7 bilhões em valores atuais. "Isso não será resolvido de maneira imediata, mas tem de ser parte da normalização das relações", disse uma autoridade do Departamento de Estado. Cuba também reivindica a compensação de perdas causadas pelo embargo imposto pelos EUA em 1960.

A interlocutora de Jacobson nas negociações será Josefina Vidal, responsáveis por questões relativas aos EUA no Ministério das Relações Exteriores de Cuba. Ambas se conhecem há anos e participaram de outras discussões juntas.

A expectativa do governo americano é que as conversas sobre a instalação de embaixadas avancem rapidamente e seja possível abrir a representação em Havana em poucos meses. "Estamos otimistas", declarou o funcionário americano. Ele ressaltou que o ritmo dependerá do que os cubanos levarão à mesa de negociações.

Hoje, os dois países possuem "seções de interesse" em Havana e Washington, que funcionam dentro das embaixadas da Suíça em ambos os países.

Além do acesso de cubanos à missão americana e livre movimentação de seus diplomatas em Cuba, os EUA também defenderão o envio irrestrito de equipamentos e materiais para sua representação em Havana e a inexistência de limites para o número de pessoas que poderão instalar na embaixada.

Apesar do otimismo, os americanos não esperam que essas questões sejam resolvidas nos encontros que ocorrerão em Cuba nesta semana. "Talvez façamos mais uma ou duas reuniões", previu o funcionário.

A abertura de embaixadas é o primeiro passo concreto, mas há uma série de outras questões que continuarão a ser discutidas nos próximos meses e anos, como a relativa às indenizações. Dentro de no máximo seis meses, os EUA devem concluir o processo de revisão da inclusão de Cuba na lista de países que apoiam o terrorismo. Apesar de o governo americano dizer que não sabe qual será a conclusão, a expectativa é de que a ilha seja excluída da relação, o que terá impacto positivo sobre sua relação econômica e financeira com os EUA.

Segundo o porta-voz americano, o reatamento com Cuba é o "melhor caminho para trazer liberdade e oportunidades para o povo cubano".

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