Dan Balilty/AP
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Enviado americano anuncia avanço na questão dos assentamentos judaicos

Otimismo moderado. Mas Abbas teria ameaçado abandonar de vez o processo de paz, após ouvir de Netanyahu que construções na Cisjordânia devem ser retomadas; Hillary encontra-se com autoridades dos dois lados para ampliar pressão por acordo final

Nathalia Watkins ESPECIAL PARA O ESTADO TEL-AVIV, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2010 | 00h00

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Há progressos no diálogo de paz entre israelenses e palestinos, garantiu ontem o governo americano. George Mitchell, enviado da Casa Branca para o Oriente Médio, disse a jornalistas em Jerusalém que o premiê de Israel, Binyamin "Bibi" Netanyahu, e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, discutiram "todos os temas centrais do conflito". Mas ele manteve a lei do silêncio sobre o conteúdo exato das negociações.

Palestinos e israelenses voltaram a se encontrar ontem, desta vez em Jerusalém, na residência oficial de Netanyahu. Um dia antes, os dois lados haviam se reunido no balneário de Sharm el-Sheikh, no Egito.

Sobre a extensão da moratória em assentamentos israelenses na Cisjordânia, principal entrave para o diálogo de paz, Mitchell deu sinais de otimismo. "Esse tema foi discutido esta noite (...) e acredito que estamos fazendo progresso", afirmou após o encontro de duas horas entre os líderes de Israel e dos palestinos.

No entanto, há relatos de tensão entre os dois lados em relação às construções na Cisjordânia. Segundo disse em condição de anonimato uma fonte palestina à agência France Presse, Netanyahu teria afirmado a Abbas que as obras em assentamentos "continuarão" após o dia 26, quando expira os dez meses de moratória. O líder palestino teria, então, sido taxativo: "Se as construções recomeçarem, deixarei as negociações."

Diante dos jornalistas, Bibi e Abbas apareceram em clima descontraído, com as bandeiras israelense e palestina lado a lado ao fundo. A última vez que o líder palestino esteve na residência do premiê israelense foi há dois anos, quando Ehud Olmert governava Israel.

"Volto a esta residência depois de um longo hiato para continuar as negociações, com esperança de alcançar a paz eterna entre o povo israelense e o povo palestino", escreveu Abbas no livro de visitas da residência israelense.

Em seu discurso, Abbas tomou o cuidado de falar apenas em "povo israelense" e não "povo judeu". O reconhecimento de Israel como Estado judeu é uma exigência de Netanyahu e representa outra grande divergência entre os líderes.

No gabinete israelense, apesar das discórdias com o premiê, ministros radicais, como o chanceler Avigdor Lieberman e o ministro do Interior, Eli Yishai, mantiveram o silêncio.

"Netanyahu tem mostrado que vai agir como quiser. Em Washington, o premiê usou o termo "Cisjordânia" e evitou "Judeia e Samaria" (nome judaico da região). Hastear a bandeira palestina foi outro gesto que mostrou que Netanyahu não tem medo de seus ministros", argumenta o analista político israelense Yehuda Ben Meir.

Mediação americana. A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, manteve uma série de reuniões em Jerusalém. A número 1 da diplomacia americana esteve com o primeiro-ministro palestino, Salam Fayyad, e o presidente de Israel, Shimon Peres, e com autoridades dos dois lados.

Apesar da agenda especialmente cheia de Hillary, os EUA não conseguiram arrancar de Israel um compromisso público em relação aos assentamentos. Desde o início, a renovação do congelamento na Cisjordânia tem sido colocada como precondição pelo campo palestino.

"Isso é uma desculpa que a Autoridade Palestina encontrou para deixar as negociações, pois sabe que mesmo que um acordo seja firmado, não tem condições de aplicá-lo na Faixa de Gaza - o que automaticamente anula o valor de qualquer esquema. O jogo é fugir da culpa pelo fracasso", avalia o analista israelense Shalom Harari.

PERGUNTAS & RESPOSTAS

O novo "diálogo direto" de paz

1.

Qual é o objetivo dessas negociações?

Americanos pressionam para que os dois lados entrem em acordo sobre todas as questões principais - status de Jerusalém, traçado de fronteiras, divisão da água e situação de refugiados palestinos - em até um ano.

2.

Já houve algum progresso real?

Além do próprio fato de palestinos e israelenses terem concordado em voltar a dialogar, não. As discussões, porém, estão sendo conduzidas sob forte sigilo.

3.

Quais são os principais entraves ao diálogo?

Do lado israelense é a pressão de colonos sobre o governo, que dificulta concessões. Do palestino, a cisão do poder - quem controla a Faixa de Gaza é o Hamas.

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