Enviado americano defende aliança com senhores de guerra

O enviado especial dos Estados Unidos para o Afeganistão, Zalmay Khalilzad, defendeu hoje a aliança de Washington com senhores da guerra locais, alegando que eles são necessários no combate contra a Al-Qaeda e o Taleban. Entretanto, críticos dizem que esses laços minam a atual administração e pode prejudicar a capacidade do líder afegão Hamid Karzai de estender sua autoridade depois que a nova administração emergir do grande conselho."A realidade é que muito do poder no atual momento está nas mãos de líderes locais, porque o centro é fraco", afirmou Khalilzad. "Enquanto lutamos contra a ameaça apresentada pelo Taleban e a Al-Qaeda nessas regiões, onde existem forças locais dispostas a ajudar na luta, trabalhamos com essas forças".As conflitantes missões dos EUA no Afeganistão - esmagar terroristas enquanto reconstrói o país - têm atraído críticas de aliados, observadores internacionais e delegados à joya jirga, que sentem que o apoio de Washington aos senhores da guerra sabotam as instituições democráticas que a administração Bush diz querer construir. "Ao trabalhar com eles, os americanos estão afirmando na verdade que esses senhores da guerra são a única real estrutura de poder no Afeganistão - e de certa forma isto está contribuindo para ampliar as divisões no país", avaliou Sam Zarifi, do Human Right Watch.Mas Khalilzad disse que as "tensões" criadas pela cooperação dos militares dos EUA com líderes regionais deverão diminuir à medida que o líder afegão consiga um controle maior sobre o país. A eleição por avassaladora maioria que manteve Karzai como presidente no governo de transição na quinta-feira já reforçou sua legitimidade, disse Khalilzad. "Agora ele tem um mandato incontestável dado por seu próprio povo, e a oportunidade de moldar sua própria administração", acrescentou.O presidente dos EUA, George W. Bush, expressou hoje confiança em Karzai, telefonando para ele a bordo do Air Force One para dizer que estava gratificado com o resultado da eleição. Os EUA apoiaram sua candidatura. Alguns delegados à loya jirga têm reclamado que o processo está sendo indevidamente influenciado pelos senhores da guerra, que teriam criado uma atmosfera de intimidação. Depois de terem eleito Karzai na quinta-feira para encabeçar o novo governo transitório, os delegados passaram a sessão de hoje discutindo uma série de questões e verbalizando suas preocupações com as condições no país.Três delegados afegãos, todos antigos combatentes contra os soviéticos, exortaram a loya jirga a manter o nome do Islã no novo governo - tornando-o governo transitório islâmico afegão. Os delegados na imensa tenda ficaram de pé e aplaudiram unanimente o pedido. Apesar da mostra de unanimidade, alguns dissidentes argumentaram que no passado o Islã foi usado de maneira incorreta, numa referência a extremista Taleban.O governador de Kandahar, Gul Agha, foi vaiado ao propor à assembléia: "O nome islâmico deve ser omitido do governo porque no passado foi usado impropriamente". Ainda assim, sua opinião foi compartilhada por outros delegados que não conseguiram chegar ao microfone - e que reclamaram que os delegados comuns estavam sendo marginalizados por líderes religiosos e políticos."Já tivemos esse tipo de governo. Mas quem destruiu nosso país? Agora eles voltam e querem nos aconselhar e estar no poder", afirmou a delegada Soraia Paikan, a diretora da Associação Legal e Profissional em Cabul. "Eu também quero um governo islâmico. Mas eu não quero destruir nosso país. Nós queremos usar a autoridade islâmica para o avanço das pessoas".Outros disseram que a presença dos senhores da guerra fez com que delegados ficassem relutantes em dar suas verdadeiras opiniões, não sabendo se eles irão novamente ter influência no país. Em outro incidente, a vice-ministra para Assuntos Femininos, Tajwar Kokar, relatou que uma outra delegada, alegando ter o apoio do senhor da guerra Rashid Dostum, tentou intimidá-la a retirar sua candidatura para ministra da Educação. "Ela me disse: ´Retire sua candidatura. O senhor Dostum deu a candidatura para nós´", afirmou Kokar, garantindo que se manterá na disputa.Apesar das reclamações, observadores internacionais e delegados têm saudado a assembléia como um necessário desabafo para a opinião afegã depois de 23 anos de ocupação e guerra civil. "O processo é razoavelmente justo", disse o representante da ONU, Lakhdar Brahimi. "As pessoas que se reuniram são uma amostra justa da sociedade afegã em 2002. Existem camponeses, mulheres, moradores de cidades, intelectuais, senhores da guerra, comandantes. Esta é a sociedade no Afeganistão hoje".

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