Enviado da CIA acusa governo Bush de manipular suas conclusões

Um ex-diplomata enviado pela CIA à África para investigar alegações sobre o programa nuclear do Iraque acusou a administração Bush de ter manipulado suas conclusões, possivelmente para fortalecer sua justificativa para a guerra. A denúncia foi feita hoje, por Joseph Wilson, ex-embaixador americano no Gabão, Oeste da África, que foi enviado em fevereiro de 2002 para investigar se o Iraque havia tentado comprar urânio do Níger - o terceiro maior produtor de urânio natural do mundo. Num artigo de opinião escrito para o New York Times, Wilson disse que não levou muito tempo para "concluir que era altamente improvável que tal transação tivesse ocorrido". Numa entrevista à rede NBC, Wilson insistiu que suas dúvidas sobre a transação chegou à mais alta hierarquia do governo, inclusive ao escritório do vice-presidente Dick Cheney. Na verdade, acrescentou, o escritório de Cheney fez perguntas sobre o suposto vínculo Níger-Iraque. "A questão foi feita à CIA pelo escritório do vice-presidente. O escritório do vice-presidente, estou totalmente convencido, recebeu uma resposta bem específica à questão, e a resposta foi baseada em minha viagem", acrescentou. Ainda assim, um ano depois de Wilson ter retornado e informado sobre suas conclusões à CIA, garantias de que o presidente Saddam Hussein estava tentando obter urânio na África foi incluido no discurso sobre o Estado da União do presidente Bush, no momento em que os EUA marchavam para a guerra. Os governos britânico e italiano haviam informado inicialmente aos EUA sobre possíveis laços entre o Níger e o Iraque. A Grã-Bretanha divulgou um relatório sobre o assunto em setembro de 2002, poucos meses antes do discurso de Bush. Se os britânicos e italianos estavam se referindo ao Níger, "a informação era incorreta, e... eles sabiam disso bem antes da publicação do British White Paper e do discurso sobre o Estado da União do presidente", afirmou Wilson na NBC. Para ele, "ou a administração (Bush) tinha alguma informação que não compartilhou com o público, ou, sim, eles estavam fazendo uso seletivo de fatos e da inteligência para fortalecer uma decisão que já havia sido tomada, de ir à guerra". Cerca de um mês depois do discurso de Bush, as Nações Unidas concluíram que a denúncia sobre o urânio havia sido baseada em documentos no geral forjados. A Casa Branca, entretanto, tem sustentado que a garantia de Bush sobre a busca de urânio pelo Iraque foi baseada em outras evidências além dos papéis forjados. Wilson serviu como embaixador no Gabão na administração do Bush pai e colaborou posteriormente na formulação de uma política para a África na presidência Bill Clinton.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.