Mohamed Abd El Ghany/Reuters
Mohamed Abd El Ghany/Reuters

Enviado da ONU inicia diálogo sobre crise na Síria

No momento em que o diplomata argelino Lakhdar Brahimi chegou ao Cairo, um violento atentado matou 17 pessoas em Alepo

DAMASCO, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2012 | 03h04

DAMASCO - Enquanto Rússia e EUA voltaram a discordar publicamente sobre a crise na Síria, o diplomata argelino Lakhdar Brahimi, novo mediador da ONU, chegou no domingo, 9, ao Cairo para sua primeira missão de paz desde que assumiu o cargo. Enquanto isso, um atentado em Alepo matou 17 pessoas e os confrontos em todo o país deixaram 28 mortos, segundo fontes opositoras.

A explosão em Alepo ocorreu perto de dois hospitais no centro da cidade - ninguém assumiu a autoria do ataque. Em outros bairros, forças do governo, apoiadas por tanques e caças, bombardearam ontem várias frentes rebeldes, que continuam resistir, apesar dos reveses. De acordo com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos direitos (OSDH), grupo opositor com sede em Londres, a principal fonte de água potável de Alepo foi destruída no sábado e os moradores já sofrem com a falta de água.

 

Em Damasco, soldados do governo invadiram um campo de refugiados palestinos, onde rebeldes estariam escondidos. Centenas fugiram do local. Em Homs, um ataque a bomba contra um ônibus deixou mais quatro mortos.

Diplomacia

 

No campo diplomático, o mediador da ONU, que assumiu oficialmente o cargo no dia 1º, chegou ao Cairo, mas iniciará apenas nesta segunda as negociações com o chefe da Liga Árabe, Nabil al-Arabi. Brahimi, que substituiu Kofi Annan, planeja visitar Damasco. No domingo, o vice-chanceler iraniano, Abbas Araqchi, disse à agência de notícias Mehr, que o argelino também visitará Teerã "em breve", embora não tenha revelado a data.

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, considerou "insuficiente" a resolução proposta no fim de semana pela Rússia ao Conselho de Segurança da ONU. Moscou sugeriu a aprovação do acordo concluído em junho, em Genebra, que prevê uma transição sem exigir a renúncia de Assad. "Não faz sentido aprovar uma resolução sem consequências, pois já vimos várias vezes que Assad continua a atacar seu próprio povo", Hillary, que participou do último dia da cúpula anual do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico em Vladivostok, no oeste russo. Hillary, no entanto, afirmou que pretende continuar trabalhando com o chanceler russo, Serguei Lavrov, em uma resolução que, segundo ela, só será eficaz se incluir punições a Assad em caso de descumprimento do acordo.

Ao reconhecer que ainda existem diferenças com a Rússia no caminho para solucionar a crise síria, Hillary insistiu que é preciso ser "realista" e continuar apoiando os grupos armados até a queda de Assad. "Se pudermos obter progressos em Nova York, antes da Assembleia Geral da ONU, certamente tentaremos", afirmou. "Mas temos de ser realistas. Não tivemos conversas olho no olho sobre a Síria. Isto pode continuar. E, se continuar, então trabalharemos com Estados que pensam como nós para apoiar a oposição síria e apressar o dia da queda de Assad."

Ironicamente, a posição de Hillary coincide com a de Mohamed al-Shalabi, conhecido como Abu Sayyaf, chefe de um grupo jihadista salafista ligado à Al-Qaeda. Ontem, na Jordânia, ele discursou diante de uma multidão de manifestantes em frente ao escritório do primeiro-ministro jordaniano, em Amã, e ameaçou Assad com "ataques mortais". "Nossos combatentes vão te pegar", disse Shalabi.

Jacques Beres, um dos fundadores da ONG Médicos Sem Fronteiras, retornou ontem a Paris após duas semanas trabalhando como médico na clandestinidade em Alepo. Segundo ele, jihadistas estão chegando em número cada vez maior à Síria para "transformar o país em uma teocracia". / AFP, REUTERS e AP

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