Enviado da ONU rejeita intervenção na Síria; vice-ministro se junta aos rebeldes

Koffi Anan fez alerta um dia após senador McCain defender ataque; renúncia de Hussameddin é primeira grande deserção do regime.

BBC Brasil, BBC

08 de março de 2012 | 13h06

O enviado especial da ONU e da Liga Árabe para a Síria, Kofi Annan, descartou nesta quinta-feira uma intervenção militar contra o país, o que, segundo ele, só tornaria a situação ainda pior. As declarações chegam no mesmo dia em que o vice-ministro do Petróleo, Abdo Hussameddin, renunciou ao cargo e juntou-se aos rebeldes.

Falando no Egito dias antes de uma visita à Síria marcada para o próximo sábado, o ex-secretário geral das Nações Unidas disse que sua missão será estimular o diálogo entre o presidente Bashar al-Assad e a oposição. As declarações foram feitas um dia após o senador republicano John McCain defender que os Estados Unidos intervenham no país.

"Faremos tudo que estiver ao nosso alcance para apelar e pressionar pela interrupção das hostilidades e o fim das mortes e da violência", disse Annan. "Mas é claro que precisamos de um acordo político para chegar a uma solução", disse.

"Vamos apelar para que o governo e a oposição síria se unam para trabalhar conosco em busca de uma solução que respeite as aspirações do povo sírio".

No país árabe, as declarações repercutiram mal entre os rebeldes, para quem a estratégia ocidental só dá mais tempo à repressão das tropas de Assad.

"Nós rejeitamos qualquer diálogo enquanto tanques estiverem bombardeando nossas cidades, atiradores de elite atirarem em nossas mulheres e crianças e o regime isolar muitas regiões do resto do mundo, sem água, eletricidade e telecomunicações", alertou Hadi Abdullah, ativista da cidade de Homs.

A posição de Annan ecoa o que o presidente americano, Barack Obama, disse na terça-feira, ao classificar uma potencial intervenção militar dos Estados Unidos contra Damasco como "um erro".

Washington disse ainda que trabalhará ao lado de seus aliados para atingir esse objetivo por meio da diplomacia, isolando o regime de forma política e econômica.

Já o senador republicano John McCain defendeu na quarta-feira que os EUA não podem continuar assistindo aos confrontos na Síria e que o melhor caminho seria um ataque para interromper a repressão no país.

Deserção

O vice-ministro do Petróleo da Síria, Abdo Hussameddin, de 58 anos, é a primeira figura de alto escalão a abandonar o governo de Assad desde o início das revoltas, há um ano.

Embora soldados e oficiais de maior patente já tenham deixado o Exército sírio para se juntar aos rebeldes, este é o primeiro sinal de racha no gabinete do presidente cuja renúncia é exigida pela rebelião.

"Eu, Abdo Hussameddin, vice-ministro do Petróleo da Síria, anunciou minha deserção do regime, renúncia ao meu cargo e saída do Partido Baath. Estou me juntando à revolução do povo que rejeita a injustiça e a campanha brutal do regime", disse em um vídeo postado no YouTube.

Ainda na quarta-feira a chefe para questões humanitárias da ONU, Valerie Amos, conseguiu entrar no distrito de Baba Amr, na cidade de Homs, após semanas de bombardeios do regime.

Ela relatou que o local estava praticamente deserto, já que grande parte dos moradores havia fugido para outras regiões, e que o cenário era "estarrecedor".

No fim de fevereiro, a ONU estimou em 7.500 o número de mortes na repressão do regime aos protestos que pedem a renúncia de Assad, iniciados há quase um ano. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.