Enviado dos EUA ao Oriente Médio está otimista com cessar-fogo

Depois de uma primeira rodada de reuniões com líderes israelenses e palestinos, o mediador norte-americano Anthony Zinni expressou otimismo nesta sexta-feira, dizendo acreditar que os dois lados possam começar um cessar-fogo nos próximos dias. Mas a violência persistiu. Nove palestinos foram mortos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, inclusive uma mulher e quatro crianças mortas numa explosão que palestinos atribuíram a minas deixadas por soldados israelenses. Israel nega a acusação.E israelenses e palestinos também não se entendiam sobre os termos da trégua, com Israel rejeitando a exigência palestina de uma retirada israelense de todos territórios administrados pelos palestinos antes que seja retomada a negociação para um cessar-fogo.Hoje, Israel retirou-se de três cidades da Cisjordânia, mas permaneceu em outras duas. Zinni encontrou-se na tarde de hoje por 90 minutos com o líder palestino Yasser Arafat, depois de ter promovido reuniões em separado na quinta-feira e na manhã desta sexta-feira com o primeiro-ministro, e os ministros de Exterior e de Defesa de Israel.Zinni, cujas duas missões anteriores terminaram em fracasso em meio à escalada da violência, disse que os encontros foram "extremamente positivos". "Acredito que nos próximos dias poderemos dar início à implementação do plano que trouxemos", afirmou. Entretanto, o enviado chegou à região durante o mais sangrento período em 18 meses de confrontos.Apenas em março, 188 pessoas foram mortas no lado palestino e 62 no lado israelense. Também em março houve a maior operação militar israelense em uma geração, com Israel deslocando 20.000 soldados para a Cisjordânia e Faixa de Gaza em resposta a uma série de ataques palestinos.No fim da noite de ontem, um bebê palestino morreu num posto de bloqueio do Exército de Israel, no centro de Faixa de Gaza, informou hoje uma fonte hospitalar. A mãe, Hana Abou Zeid, deu à luz durante a noite no hospital Deir al-Balah, a um menino com problemas respiratórios. O bebê precisava ser levado imediatamente ao hospital Al-Shifa em Gaza, que conta com os equipamentos adequados para o tratamento, contou Mouawiya Hassanein, diretor do serviço de primeiros socorros do hospital. Mas a ambulância que levava o menino ficou parada durante quase duas horas no posto de bloqueio israelense de Netzarim. Quando a partida foi autorizada pelos soldados de Israel, o bebê já estava morto devido à falta de oxigênio.Hoje, sob forte pressão dos EUA, tanques israelenses deixaram as cidades de Ramallah, Tulkarem e Qalqilya, na Cisjordânia, mas permaneceram em Belém e Beit Sahour e cercaram os campos de refugiados próximos de Dheisheh e Aida. Durante os três dias de ocupação israelense de Ramallah, tropas impuseram um rígido toque de recolher e trocaram tiros com milicianos locais.Hoje, milhares de palestinos, que estiveram confinados em suas casas, saíram às ruas para enterrar quatro dos 13 palestinos mortos desde terça-feira e para inspecionar os estragos causados pelas tropas israelenses. Tanques esmagaram carros estacionados, destruíram parte de um prédio na Praça Manara e danificaram paredes internas de uma escola. Autoridades palestinas afirmaram hoje que não participarão de discussões sobre um cessar-fogo até que Israel retire suas tropas de todo território controlado pelos palestinos, conhecido como Área A por um acordo de paz interino.Os Estados Unidos apoiaram o pedido pela retirada israelense das áreas palestinas. O secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, levantou a questão esta semana num telefonema para o primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon. Já o presidente dos EUA, George W. Bush, disse hoje que a retirada parcial israelense já foi um "desdobramento positivo". "Apreciei a decisão do primeiro-ministro Sharon", afirmou durante uma visita à Carolina do Norte.Autoridades israelenses garantiram que não têm intenção de permanecer indefinidamente em áreas palestinas e que estão ansiosas em alcançar uma trégua. Mas alegaram que não podem se retirar das áreas por enquanto porque a Autoridade Palestina não está fazendo o suficiente para conter os atentados. "O Exército foi a essas áreas para evitar o próximo ataque terrorista contra israelenses, sem intenção de permanecer em qualquer um desses locais", afirmou o ministro do governo Tsipi Lvini.Rastro de morteAs forças israelenses se retiraram de Ramallah e dos campos de refugiados próximos de Al-Amari e Qaddura, deixando um rastro de morte e destruição, e acima de tudo uma grande revolta palestina que prenuncia nova violência. Se o governo do primeiro-ministro israelense, considerava que incursões militares a cidades e campos de refugiados colocariam um fim aos atentados e ataques armados palestinos, em Ramallah parece que ele errou o alvo.Entre os palestinos, não se falava de outra coisa que não fosse "vingança" e "represália". "Vimos o verdadeiro rosto dos israelenses", disse Kifaa, de 38 anos, morador do campo de Al-Amari, depois de ter vivido dez anos em Nova York e Califórnia. "Nunca participei da intifada, mas não terei dúvidas em empunhar um fuzil contra eles".Às suas costas passava um grande cortejo fúnebre de pelo menos 1.000 pessoas que, gritando sem cessar contra Israel, seguiam o corpo de um dos policiais palestinos mortos nos enfrentamentos com soldados israelenses. Al-Amari, com seus 12.000 habitantes, sofreu grandes danos durante a reocupação, que durou três dias. A passagem dos veículos blindados pelas vielas poeirentas do campo danificou casas e a infra-estrutura civil.Os soldados também devastaram a policlínica da UNRWA (a agência da ONU que assiste os refugiados palestinos) e os equipamentos de radiografia e de ultra-sonografia agora estão fora de uso. O consultório odontológico não existe mais. Foi ocupada também a escola primária da UNRWA, na periferia do campo, usada durante três dias como centro de detenção para aproximadamente 200 palestinos, que foram interrogados pelo Exército por suspeita de atividades terroristas. "Foram todos liberados, exceto sete que são apenas parentes dos combatentes palestinos", afirmou Darwish Abu Rish. "Apenas no primeiro dia os ´shebab´ (jovens) armados apresentaram resistência, e logo fugiram e os israelenses prenderam civis totalmente alheios à violência", acrescentou.No centro de Ramallah os danos são menores. Mas a passagem de tanques e veículos blindados deixou um rastro de destruição nas ruas, que até há dois anos eram conhecidas por seus bares noturnos repletos de jovens. Maiores foram os danos na rua do hospital local, onde jazem as carcaças de uns 20 automóveis completamente esmagados. Uma dezena de lojas e três edifícios civis foram fortemente danificados. No estacionamento do hospital três ambulâncias estão paradas, perfuradas por disparos. Não distante, numa esquina, vê-se uma mancha escura de pouco mais de um metro. É o que resta do sangue derramado de Raffaele Ciriello, o fotógrafo italiano assassinado há dois dias por uma rajada de metralhadora disparada por um tanque israelense.

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