Federico Parra / AFP
Federico Parra / AFP

Enviado dos EUA se reuniu com Diosdado Cabello, número dois do chavismo

Reunião ocorreu em julho em Caracas e um segundo encontro está sendo negociado, disse fonte do governo americano à 'AP'

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2019 | 14h31

CARACAS -  Os Estados Unidos abriram uma canal de comunicações com Diosdado Cabello, o segundo nome mais importante da hierarquia chavista na Venezuela, disse uma fonte do governo americano à Associated Press no domingo, 18. A reunião ocorreu em julho em Caracas e um segundo encontro está sendo negociado. A agência não divulgou  o nome da fonte nem do emissário do governo americano.

À frente da Assembleia Constituinte e do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), Cabello é visto pelos americanos como um possível negociador no impasse entre o chavismo e a oposição. Desde que a crise política e econômica no país se agravou, o chavista ampliou seu controle sobre as forças de segurança e em alguns setores do governo. Ele é acusado na Justiça americana de narcotráfico e corrupção

Segundo a fonte do governo americano, as negociações não incluem nenhum tipo de respaldo a Cabello, mas buscam ampliar as pressões entre os conflitos existentes hoje dentro das distintas facções do governo venezuelano. Outros contatos similares estão em cursos com diferentes figuras do alto escalão chavista.

EUA buscam apoio à transição na cúpula chavista

O principal objetivo dos Estados Unidos é identificar quem no chavismo estaria mais aberto a apoiar uma transição. Washington já congelou ativos da maior parte da cúpula venezuelana e a Justiça americana já investiga alguns dos principais nomes do regime, como o próprio Cabello e o ex-vice-presidente Tareck El Aissami

A avaliação de setores de inteligência americanos é que a combinação das sanções pessoais e econômicas tem ameaçado parte da cúpula e isso tornaria alguns nomes-chave dispostos a negociar. 

A própria fonte, no entanto, reconhece que dificilmente Cabello trairia o presidente Nicolás Maduro. Segundo ela, o chavista aceitou conversar com os americanos com a anuência do presidente e com o objetivo de retirar as sanções ao petróleo venezuelano, impostas em 2017 e que ampliaram os efeitos da crise no país. 

Uma segunda fonte que testemunhou a reunião disse que Cabello parecia objetivo e bem preparado na reunião, com um amplo entendimento dos problemas políticos que afetam o país. 

Não é a primeira vez que Cabello negocia com os americanos. Ainda no governo Barack Obama, o chavista se reuniu com o subsecretário para Hemisfério Ocidental, Thomas Shannon, em meio às eleições legislativas de  2015. As reuniões, no entanto, fracassaram. 

Pressão por renúncia de Maduro não surtiu efeito

Desde janeiro, quando o presidente da Assembleia Nacional Juan Guaidó declarou-se “presidente interino” do país, as expectativas por uma transição negociada aumentaram, mas até agora sem resultados práticos relevantes. 

No começo do mês, os EUA ampliaram as sanções à Venezuela, congelando bens do Estado venezuelano no exterior e ameaçando empresas estrangeiras que fizerem negócios com os chavistas. Essa decisão fez com que Maduro abandonasse negociações com a oposição patrocinadas pela União Europeia, o Uruguai e o Equador, e conduzidas pela diplomacia da Noruega

 

O regime ainda mantém a coesão do Exército e do aparato de segurança e burocracia estatal. Fontes do governo americano acreditam que alguns chavistas insatisfeitos com o impacto das sanções podem pedir garantias de que não serão investigados para romper com Maduro. 

Oficialmente, a posição do governo americano é a de que as sanções individuais serão retiradas apenas com passos significativos e concretos para pôr fim ao governo de Maduro. Foi o caso, por exemplo, do ex-diretor do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin), Manuel Christopher Figuera, que  rompeu com o governo venezuelano em maio. 

 

  Em tese, como chefe da Constituinte, Cabello tem o poder de tirar Maduro do poder, o que poderia facilitar a transição.  Segundo a oposição venezuelana, outros nomes da cúpula em contato indireto com os americanos são o Ministro da Defesa Vladimir Padrino - outro alvo de sanções do Departamento do Tesouro - e Néstor Reverol, Ministro do Interior, que é investigado por narcotráfico. / AP

 

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