Paul Ratje / AFP
Paul Ratje / AFP

Enviado especial dos EUA ao Haiti se demite após deportações: 'desumano e contraproducente'

Em carta endereçada ao Secretário de Estado Antony Blinken, Daniel Foote afirmou que teve as recomendações ignoradas e rejeitadas pelo governo Biden e que a abordagem do país no Haiti continua 'profundamente falha'

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2021 | 11h52
Atualizado 23 de setembro de 2021 | 16h55

O enviado especial dos Estados Unidos ao Haiti, Daniel Foote, entregou o cargo nesta quarta-feira, 22, em uma carta contundente endereçada ao Secretário de Estado Antony Blinken. Foote afirma que não pode ser associado à decisão do governo de Joe Biden de deportar milhares de haitianos que buscam refúgio nos EUA, em um movimento por ele classificado como "desumano" e "contraproducente" devido à violência e deterioração da situação de segurança no país caribenho.

"Eu não vou me associar à decisão desumana e contraproducente dos Estados Unidos de deportar milhares de refugiados e imigrantes ilegais para o Haiti, um país onde as autoridades americanas estão confinadas a complexos seguros por causa do perigo representado por gangues armadas no controle da vida diária. Nossa abordagem política para o Haiti permanece profundamente falha, e minhas recomendações foram ignoradas e rejeitadas, quando não editadas para projetar uma narrativa diferente da minha", escreveu Foote.

O governo americano intensificou a deportação de haitianos que chegam ao país em busca de asilo após o fluxo migratório na fronteira com o México bater recorde. No fim da semana passada, autoridades americanas estimavam que mais de 10 mil migrantes cruzaram a fronteira apenas no trecho do Rio Grande que separa as cidades de Del Rio, no Texas, e Ciudad Acuña, no Estado mexicano de Coahuila. Mais de 29 mil haitianos chegaram aos EUA nos últimos 11 meses, segundo dados da Alfândega e Proteção de Fronteiras americana (CPB).

No começo da semana, cerca de 15 mil pessoas se abrigavam em acampamentos improvisados na cidade de Del Rio, enquanto agentes trabalhavam para processar os pedidos de asilo. Autoridades afirmaram que o acesso a água potável e a alimentos  era escasso e que as condições de higiene eram precárias.

Ante a crise na fronteira, o governo americano intensificou o número e a capacidade dos voos de deportação de haitianos. Desde domingo, 19, estima-se que cerca de 500 pessoas foram enviadas de volta ao Haiti - e o plano é despachar sete voos diários, em uma campanha de deportação em massa migrantes.

"O povo do Haiti, atolado na pobreza, refém do terror, sequestros, roubos e massacres de gangues armadas e sofrendo sob um governo corrupto aliado a gangues, simplesmente não pode suportar a introdução forçada de milhares de migrantes que retornaram sem comida, abrigo e dinheiro, sem uma tragédia humana adicional e evitável. O Estado em colapso é incapaz de fornecer segurança ou serviços básicos, e mais refugiados irão alimentar ainda mais o desespero e o crime. A migração em nossas fronteiras só aumentará à medida que aumentarmos a miséria inaceitável do Haiti", escreveu Foote na carta a Blinken.

Em meio a pressão causada pela chegada de milhares de pessoas ao município de 35 mil habitantes, a reação das autoridades americanas gerou controvérsia. No domingo, 19, cinegrafistas e fotógrafos gravaram cenas onde agentes da Patrulha de Fronteira montados a cavalo tentam agarrar migrantes e usar seus animais para empurrá-los de volta para o México. Alguns agentes pareciam usar chicotes contra os migrantes e uma investigação foi aberta pelo Departamento de Segurança Interna para apurar os fatos.

Após a polêmica envolvendo os agentes, o governador do Texas, o republicano Greg Abbott, enviou uma frota de carros do Estado para serem estacionados e alinhados por quilômetros formando uma barricada ao longo da fronteira. A "parede de aço", como foi chamada, foi a solução encontrada pelo governador - que defende a construção de um muro na fronteira do Texas - para impedir a travessia dos migrantes.

Ao Estadão, o ex-representante da Organização dos Estados Americanos (OEA) no Haiti entre 2009 e 2011, Ricardo Seitenfus, classificou a carta escrita pelo diplomata americano como "um documento histórico" que descreve uma política americana para o país caribenho de cerca de dois séculos, que não contribui para o desenvolvimento haitiano.

"Reiteradamente, os Estados Unidos cometem os mesmos erros no Haiti há anos. Os resultados são catastróficos, mas boa parte do país não vê ou sente os efeitos dessa política. Desta vez, o resultado está se apresentando em frente a todos, com as imagens daqueles policiais a cavalo tentando laçar os haitianos que cruzaram a fronteira sendo exibidas no noticiario americano. Isso contradiz tudo que sempre foi reafirmado sobre o Haiti estar bem, sobre as missões de paz terem sido um sucesso", disse.

Na carta de demissão, o ex-enviado especial americano também criticou o governo Biden por apoiar o primeiro-ministro de fato do Haiti, Ariel Henry, uma atitude que ele disse indicar que o país não aprendeu com os erros de  "intervenções políticas internacionais no Haiti" anteriores. Recentemente, um promotor de Porto Príncipe apontou uma possível relação de Henry com o assassinato do ex-presidente haitiano, Jovenel Moïse, chegando a pedir a abertura de um inquérito contra ele. O premiê destituiu o promotor no mesmo dia do pedido à Justiça.

 "A arrogância que nos faz acreditar que devemos escolher o vencedor - mais uma vez - é impressionante. Este ciclo de intervenções políticas internacionais no Haiti produziu consistentemente resultados catastróficos. Mais impactos negativos para o Haiti terão consequências calamitosas não apenas no Haiti, mas nos Estados Unidos e em nossos vizinhos no hemisfério.", escreveu Foote. A renúncia foi relatada pela primeira vez pela emissora PBS.

Em uma declaração inicial, o Departamento de Estado agradeceu a Foote "por seus serviços" e disse que trabalhava com a Organização Internacional para as Migrações (OIM) "para garantir que os migrantes haitianos que retornaram sejam recebidos no aeroporto e recebam assistência imediata".

Posteriormente, o porta-voz do departamento, Ned Price, fez um segundo pronunciamento a respeito das alegações do diplomata, afirmando que ocorreram várias conversas sobre as políticas adotadas no Haiti e que todas as considerações sobre o caso, incluindo as de Foote, foram consideradas em um processo "rigoroso e transparente". 

"Algumas dessas propostas foram consideradas prejudiciais ao nosso compromisso com a promoção da democracia no Haiti e foram rejeitadas durante o processo político. Ele [Foote] dizer que suas propostas foram ignoradas é simplesmente falso", disse Price. E completou: "Este é um momento desafiador que exige liderança. É uma pena que, em vez de participar de um processo político orientado para soluções, o enviado especial Foote ao mesmo tempo renunciou e caracterizou erroneamente as circunstâncias de sua renúncia".

Crise na fronteira afeta governo Biden

Além de uma agenda de política externa, a crise com os migrantes haitianos se tornou uma crise interna para o governo Biden, que assumiu a Presidência americana com a promessa de inclusão e de melhora das condições aos solicitantes de visto e refúgio que chegassem à fronteira com o México, em um antagonismo claro ao discurso de Donald Trump e a ideia do muro.

Os eventos com os agentes da Patrulha da Fronteira e a decisão de deportar os haitianos o mais rapidamente possível, porém, enfureceu a comunidade haitiana no país, bem como defensores de direitos humanos e políticos, incluindo democratas. Houve protestos em cidades americanas, como Miami, cobrando igualdade no sistema de imigração, considerado por muitos, principalmente no caso dos haitianos, racista. Líderes democratas como a deputada Alexandra Ocasio-Cortez, de Nova York, também demonstraram descontentamento público com os fatos registrados na fronteira sul.

Ao mesmo tempo em que sofre pressões de grupos ligados ao direito dos migrantes e de parlamentares aliados, o governo Trump tenta dar uma resposta satisfatória a população de Estados do sul do país, especialmente o Texas, que sofrem com os efeitos mais imediatos da imigração desordenada. O governador do Texas, Greg Abbott, criticou recentemente o governo Biden, afirmando que seu Estadogastou cerca de US$ 2 bilhões para o financiamento da segurança na fronteira. "Foi o Estado do Texas que teve de se esforçar", disse Abbott na terça-feira em uma entrevista coletiva de Del Rio.

Na tentativa de responder às duas fontes de pressão, o governo Biden busca alternativas para lidar com a crise. Nesta quinta, a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, anunciou que o governo Biden ordenou a suspensão das patrulhas de agentes montados a cavalo em Del Rio - fato que gerou o maior número de críticas pelos grupos ligados aos direitos dos migrantes. Ao mesmo tempo, como resposta aos grupos que questionam a capacidade do governo de proteger o território, o governo mantém os voos de deportação, apesar das críticas internas e externas.

Na semana, o secretário de Segurança Interna, Alejandro Mayorkas, justificou algumas das medidas adotadas pelo governo, como as deportações, afirmando que muitos haitianos estavam chegando ao país após receberem informações falsas de que a fronteira estaria aberta para eles, ou que o governo teria concedido algum status de proteção temporária. "Este governo está empenhado em desenvolver caminhos seguros, ordenados e humanos para a migração", disse. E completou: "Mas esta não é a maneira de fazer isso."

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