Enviar homens a Marte é uma péssima ideia

Além desse tipo de projeto ser muito caro, nada garante que alguma coisa de útil [br]seria feita no planeta que já não tenha sido feita por robôs a um custo muito menor

SIMON RAMO, LOS ANGELES TIMES, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2010 | 00h00

Há quase meio século, os americanos enviaram homens à Lua porque era preciso fazer o mundo deixar de pensar que a União Soviética, por ter colocado um homem em órbita, tinha ultrapassado os EUA na área de ciência e tecnologia. Quando os americanos pisaram na Lua, retornaram ao primeiro lugar e os russos continuaram líderes no balé, no caviar e na vodca.

Assim, as aterrissagens contínuas na Lua foram interrompidas. Em 20 de julho de 1989, o presidente George H. Bush lançou a Iniciativa de Exploração do Espaço, que reivindicava um retorno dos astronautas à Lua - dessa vez para ficar - e, depois, para Marte.

A iniciativa morreu quando o Congresso considerou os custos excessivamente altos, mas o objetivo de colocar um americano em Marte persistiu e, em 2004, foi reiterado pelo presidente George W. Bush. Mas, vale a pena? Parece cada vez mais duvidoso que um astronauta consiga fazer alguma coisa de útil em Marte que já não tenha sido feita por robôs a um custo muito menor e sem colocar em risco a vida de um ser humano.

O governo e o setor privado dos EUA criaram uma parceria robusta e bem sucedida em projetos de satélites não tripulados. Hoje, eles são usados diariamente para fins de inteligência e reconhecimento, comunicações, monitoramento do clima e muitas outras coisas. Nenhuma dessas aplicações depende de um programa que envolva homens no espaço.

É preciso analisar o trabalho monstruoso que implica enviar astronautas para Marte. Quando esse planeta está mais próximo da Terra, sua distância é de cerca de 200 vezes aquela entre a Terra e a Lua, o que significa que levará vários meses para se chegar até lá.

A quantidade de alimento, água, oxigênio e outros suprimentos básicos necessários para uma viagem como essa exigirá uma nave espacial muito maior do que qualquer outra construída até hoje. E não é absolutamente certo que humanos conseguirão sobreviver à viagem. Os astronautas ficarão expostos à radiação cósmica e outros perigos quando estiverem no espaço sideral ou no ambiente de Marte durante dois anos.

Se conseguirem sobreviver, podemos imaginar as graves consequências psicológicas de passar dois anos em um espaço confinado sem conseguir se comunicar normalmente com os entes queridos em casa.

Embora viajando à velocidade da luz, uma resposta transmitida por rádio a um "Bom dia, como vão vocês?" só seria recebida muitos minutos depois. E os problemas de caráter físico são enormes. Mesmo com exercícios diários, o astronauta conseguirá caminhar na Terra depois de dois anos sob nenhuma gravidade? O seu sistema digestivo funcionará adequadamente durante esse longo período? E o que dizer do coração e outros órgãos? E se houver uma emergência médica?

Finalmente, chegando a Marte, os astronautas encontrarão temperaturas de congelar o sangue (menos de 70 graus Celsius abaixo de zero à noite, mesmo na região mais quente) e uma atmosfera sufocante de dióxido de carbono e nenhum ar. A logística é avassaladora, desde os raios solares para prover energia elétrica constante até os desafios do reabastecimento. A modesta Estação Espacial Internacional terá custado US$ 100 bilhões quando for tirada de órbita, como planejado, em 2016.

O projeto e a administração do imensamente mais complicado conjunto de aparelhos necessários para a missão em Marte poderão facilmente atingir um custo 10 vezes maior. Quando numerosas máquinas novas precisam operar em conjunto, chegar ao estágio perfeito, sem erros, é um enorme desafio.

Por exemplo, se o desempenho aceitável é de um único acidente para cada 100 viagens no caso de um conjunto de 10 máquinas separadas, então cada uma dessas 10 máquinas terá de ter uma taxa de erro ainda mais alta, de apenas um acidente para cada 1.000 viagens.

Isso exigirá inúmeros testes - e durante todo esse tempo um trabalho de depuração e redesenho - de um grande número de aparelhos. Não seria apenas como encontrar uma falha em um avião e devolvê-lo para os engenheiros. Os americanos, com certeza, não tolerarão testes fracassados repetidos, com a perda de vidas, enquanto os projetos são aprimorados.

Entusiasmo. Naturalmente, um americano aterrissando em Marte criaria entusiasmo e admiração do mundo pelos EUA, do mesmo modo que as descidas na Lua. Mas, se a meta for aumentar o apreço do mundo pelo país, provavelmente existem outros meios de gastar o dinheiro, como prover uma boa educação para todos, acelerar a pesquisa médica para a cura de doenças fatais, construir usinas para dessalinização da água do oceano e fomentar o desenvolvimento de energias limpas.

Se não levarmos adiante a exploração espacial tripulada, naturalmente sempre questionaremos se os humanos poderiam ter descoberto alguma coisa fenomenal no espaço que os robôs não perceberam. Gentry Lee, engenheiro chefe de sistemas do Jet Propulsion Laboratory, da Caltech, expôs muito bem a questão.

"Quando existem perguntas científicas profundas que só podem ser respondidas por meio de interações múltiplas e adaptáveis ao ambiente desconhecido, a inteligência e a versatilidade de um ser humano pode ser útil para decifrar um quebra-cabeça científico muito importante", disse. "Até agora, nenhum desses casos surgiu na nossa exploração do sistema solar. E, mesmo nessa situação especial, o custo e a probabilidade de sucesso científico pelo envio de seres humanos podem ser similares ao possível resultado obtido com o despacho de uma frota de naves espaciais robotizadas para o mesmo destino e com o mesmo objetivo."

Alguns americanos temem que, se os EUA permitirem que as novas conquistas do espaço sideral sejam feitas pela China ou Rússia, esses países se tornarão os mais respeitados do mundo no tocante à iniciativa e ao heroísmo da exploração. Mas, caso a Rússia coloque um cosmonauta na Lua, ela apenas se equiparará à posição dos EUA há 40 anos.

Se a China tentar enviar humanos para Marte, é sensato acreditar que eles ficarão inundados de trabalho por muitos anos, enquanto que nossas missões não tripuladas continuarão produzindo resultados valiosos de pesquisa. É possível que os enormes avanços científicos e de engenharia - como a invenção de uma tecnologia de foguetes tipo "bomba atômica segura" para transportar um astronauta para Marte rapidamente - alterem algum dia as possibilidades de viagens espaciais.

No entanto, sem essa revolução científica, os custos humanos e econômicos são grandes demais. Especialmente porque não está tão claro que os humanos podem fazer no espaço mais do que já está sendo feito por robôs. O governo dos EUA deveria decidir que o envio de humanos para Marte já não é mais um objetivo. Deveríamos até chegar à conclusão de que a própria ideia de humanos no espaço está ultrapassada. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CIENTISTA CHEFE NA CRIAÇÃO DO

SISTEMA DE MÍSSEIS BALÍSTICOS

INTERCONTINENTAIS DOS EUA

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