Envio de ajuda humanitária alimenta ciclo de dependência

Aprendi a andar de bicicleta e motocicleta seguindo em círculos sem fim em torno da popular Place Boyer de Petion Ville, no Haiti. Quase todos os domingos, naqueles longos verões escaldantes, eu e meu primo Sebastien tomávamos apressadamente o café da manhã e corríamos para nos juntar às multidões de haitianos na praça. Quando voltei à Place Boyer, meses atrás, os ciclistas haviam sido substituídas por uma enorme quantidade de barracas.

Cenário: Andress Appolon, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2010 | 00h00

Desde que o terremoto devastou o Haiti, em 12 de janeiro, o país passou a receber ajuda estrangeira, e organizações para a administração de desastres de todos os tipos começaram a fornecer aos haitianos provisões que deveriam ser temporárias, até mesmo barracas. Imitando o plano anárquico das favelas dos morros que desabaram na ocasião, eles montaram as barracas formando cidades ironicamente permanentes que acabaram engolindo pontos de referência históricos como a Place Boyer.

Segundo as últimas notícias, os protestos no Haiti aumentam por causa da origem da cólera A ajuda externa reforça minguadas esperanças Seria de se esperar que uma filha do Haiti e dos EUA se alegrasse pelo fato de sua mão esquerda alimentar a direita, por assim dizer, mas, na realidade, estou horrorizada.

De fato, a ajuda externa reforça minguadas esperanças no povo haitiano. Ocorre que há uma linha muito sutil entre capacidade de adaptação e autocomplacência. A ajuda externa causa a autocomplacência nos haitianos ao mesmo tempo orgulhosos, mas perpetuamente decepcionados. As últimas notícias de um surto de cólera só aumentam meus temores. Nestes meses de luto, sofrimento e chuvas torrenciais, os haitianos - muitos dos quais perderam suas casas de zinco ou alvenaria - mais uma vez tiveram de chamar de "habitação" estruturas provisórias.

Essencialmente, as cidades feitas de barracas como as da Place Boyer, e a enorme ajuda que elas representam (cerca de US$ 5,3 bilhões prometidos nos próximos dois anos), estão proporcionando aos haitianos o suficiente desde que não peçam mais. Após dois séculos de pobreza, corrupção e instabilidade, os haitianos creem que as perspectivas esperançosas em meio a um desastre natural - barracas, assistência médica e alimentação temporárias - constituem um presente do qual devem aproveitar. Por isso não me surpreendi quando conheci mulheres dotadas de espírito empreendedor que resolveram alugar sua casa ainda intacta em outras partes para morar numa barraca; ou pelo fato de na cidade das barracas na Place Boyer haver agora barbearia, cinema e até mesmo um cibercafé. As pessoas não pretendem sair tão cedo dali.

E por que razão sairiam? Em um país que não tem um governo estável há mais de 25 anos, seria ingênuo supor que uma infraestrutura sustentável de repente pudesse surgir dos escombros que ainda atormentam as pessoas.

A economista de Zâmbia, Dambisa Moya, em seu livro Dead Aid (Ajuda mortal, em tradução livre) critica o que chama de "mentalidade geral (e no entanto equivocada) que permeia o Ocidente - a convicção de que a ajuda, qualquer seja sua forma, é algo positivo". Ao contrário, ela afirma, a ajuda está na raiz do problema, redirecionando a assistência para longe das economias e das gestões políticas subdesenvolvidas que deveriam determinar o rumo do progresso.

Evidentemente, era nossa obrigação moral ajudar o Haiti imediatamente depois do terremoto. Mas, à medida que os meses vão passando, precisamos analisar de maneira mais crítica como o dinheiro da ajuda afeta o desenvolvimento do país. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É JORNALISTA DO "CHRISTIAN SCIENCE MONITOR"

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