Edgard Garrido/Reuters
Edgard Garrido/Reuters

Envio de dinheiro de imigrantes mexicanos cresce na pandemia

Autoridades apostavam que remessas despencariam, mas houve uma alta que desafia a lógica dos especialistas

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2020 | 04h00

Era uma previsão intuitiva, respaldada por quase todos os especialistas no assunto: como a pandemia do coronavírus provocou um gigantesco tombo da economia global, as remessas de dinheiro de imigrantes para o México e a América Central desapareceriam. A previsão, porém, estava errada.

Em vez de entrar em colapso, os envios de recursos para o México aumentaram em 5 dos 6 primeiros meses de 2020, comparados ao mesmo período do ano passado. Em junho, remessas a El Salvador, Guatemala, Nicarágua e Honduras também aumentaram em comparação ao mesmo período de 2019, depois de uma queda no início do ano.

Em março, o mês em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia, as remessas ao México superaram os US$ 4 bilhões (R$ 21,3 milhões) – um recorde. “É exatamente o oposto do que nós prevíamos”, disse Jonathan Heath, vice-presidente do Banco Central do México. Economistas, autoridades do governo e especialistas em imigração agora tentam compreender o fenômeno.

Há anos, a lógica das remessas era clara. Como o movimento imigratório aumenta e as economias do mundo em desenvolvimento crescem, as remessas também aumentam. Durante os períodos de retração econômica, quando os imigrantes estão vulneráveis, as remessas caem. Por isso, quando o BC previu em abril que a pandemia causaria seu “maior declínio da história recente”, tratava-se de uma conclusão razoável.

A lógica agora é questionada em países como o México, onde a surpreendente tendência continua: apesar do declínio econômico global, os mexicanos receberam US$ 3,5 bilhões (R$ 18,6 bilhões) em remessas em junho – um salto de 11% em comparação ao mesmo mês de 2019.

Em outros lugares, os dados não são uniformes. Em julho, os imigrantes enviaram US$ 2,6 bilhões (R$ 13,8 bilhões) para Bangladesh, um recorde para qualquer mês no país. “As remessas continuam desafiando todas as expectativas”, noticiou o jornal Daily Star de Bangladesh. 

No BC do México, Heath e seus colegas tentaram diversas teorias. Inicialmente, pensaram que os imigrantes pudessem ter transferido suas economias para casa antes de retornar ao México. Mas as remessas permaneceram elevadas, e com poucas evidências de migração reversa, que pareceu improvável.

Eles discutiram outra possibilidade: os cartéis da droga mexicanos estariam usando as remessas para lavar dinheiro. Mas dado o amplo número de transações e as somas relativamente pequenas, isso também pareceu improvável. Outra: muitos imigrantes trabalham em setores – agricultura, construção, varejo – considerados essenciais, e puderam permanecer no emprego. Os dados federais, no entanto, mostram que o desemprego entre os hispânicos nascidos no exterior residentes nos Estados Unidos ultrapassou o da população em geral.

Por enquanto, a melhor explicação a que Heath chegou é que muitos imigrantes mexicanos que perderam seus empregos nos Estados Unidos se beneficiaram de um pacote federal destinado aos desempregados, o que lhes permitiu continuar enviando dinheiro, mesmo depois de perderem seus empregos. “Para alguns Estados do México, a dependência das remessas é muito grande”, disse Heath.

A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe prevê que a economia do México sofrerá uma contração de 9% neste ano. / W.POST, TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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