Envolvida em conflitos, América do Sul se une em novo pacto

Presidentes de 12 paísesconsagram na sexta-feira, em Brasília, a criação da maiorinstância política e de integração da América do Sul, emreunião de cúpula que poderá servir para limar asperezas quecircundam as relações entre vários vizinhos da região. O anfitrião Luiz Inácio Lula da Silva presidirá aassinatura do Tratado Constitutivo da União de NaçõesSul-Americanas (Unasul), mas a atenção estará voltada para oencontro frente a frente entre os presidentes da Colômbia,Alvaro Uribe, e da Venezuela, Hugo Chávez, protagonistas derecentes conflitos que abalaram as relações entre seus países. A tensão diplomática se agravou desde o fim de 2007, quandoUribe encerrou a intermediação de Chávez para que os rebeldesdas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc)libertassem alguns de seus reféns. A crise alcançou seu auge depois que a Colômbia atacouguerrilheiros das Farc em território equatoriano, matando um deseus dirigentes. Brasília poderá registrar o início de uma aproximação entreUribe e Chávez, que trocaram duras acusações, e também entre opresidente colombiano e o equatoriano, Rafael Correa, amigo deChávez. "Os presidentes terão um diálogo privado e podem falar doque considerem conveniente. Esse tema pode ser levantado pelospresidentes, mas não está na agenda", disse um porta-voz dachancelaria brasileira. Mas essa é apenas uma possibilidade, segundo analistas, jáque a crise deve seguir seus próprios caminhos em busca de umasaída. "É uma oportunidade de um encontro, de um espaçodiplomático... mas não creio que este momento seja umaoportunidade decisiva", disse à Reuters Alcides Costa Vaz,professor de relações internacionais da Universidade deBrasília. "O fundamental do processo de aproximação depende mais dasdinâmicas da própria crise, da dinâmica do conflito (interno)colombiano e das reações que desperte na Venezuela e noEquador", acrescentou. As Farc têm sido atingidas pela dura resposta militar dogoverno de Uribe, e agora tudo depende se vão se retrair em suacapacidade de ação ou recrudescer suas operações, assinalouCosta Vaz. "O panorama de estabilidade na área andina e na América doSul como um todo depende muito da evolução do conflito naColômbia, esse é um dado fundamental", afirmou. A Unasul, como um organismo recém-fundado, dificilmentepoderá ter um papel imediato no conflito, e deverão continuaras boas gestões do governo do Brasil e de outros países amigos,disse Costa Vaz. MAIS BUROCRACIA OU EFETIVIDADE? A formalização da Unasul, porém, abre uma ambiciosainstância de diálogo político e de integração, que precisaráevitar cair em mais um mecanismo burocrático numa região ondejá existem organismos como a união aduaneira Mercosul e aComunidade Andina de Nações. "O risco é de que se converta apenas em um ente formal compouca incidência nas agendas nacionais. Tudo depende dos paísessul-americanos, de sua vontade política e dos recursos queaportem", avaliou Costa Vaz. A Unasul será formada por Argentina, Bolívia, Brasil,Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname,Uruguai e Venezuela. O novo organismo terá como órgãos deliberativos um Conselhode Chefes de Estado e de Governo, um Conselho de Ministros deRelações Exteriores e um Conselho de Delegados. Também contarácom uma Secretaria Geral, com sede em Quito, e está previsto oestabelecimento de um parlamento Sul-Americano, com sede nacidade boliviana de Cochabamba. Mas a efetividade da Unasul dependerá da "definição decompetências, objetivos, de sua carta constitutiva", disseCosta Vaz. "Um consenso (para sua constituição) já é um passoimportante para perspectivas de cooperação e de diálogopolítico", destacou o professor da UNB. A cúpula deverá aprovar também decisões sobre o plano deação da Unasul, com base nas conclusões dos grupos de trabalhocriados para as áreas de energia, infra-estrutura,financiamento, políticas sociais e educação, disse achancelaria brasileira.

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