Envolvimento de Bush dá à eleição caráter de referendo

Com um giro por quatro Estados em 15 horas, o presidente George W. Bush concluiu hoje uma participação tão intensa na campanha para as eleições gerais de amanhã nos Estados Unidos que já está sendo equiparado a seu antecessor, Bill Clinton, no papel de grande cabo eleitoral da política americana, que o ex-presidente desempenhou nos oito anos em que ocupou a Casa Branca.Estão em jogo as 435 cadeiras da Câmara de Representantes, 34 das 110 vagas de senadores, 36 dos 50 governos estaduais e milhares de cargos eletivos nos executivos, legislativos e judiciários nos Estados e municípios. Há também vários referendos municipais e estaduais. Num deles, os eleitores de Nevada decidirão sobre a legalização do uso da maconha.Tradicionalmente, o partido que ocupa a Casa Branca recua nas eleições que ocorrem no meio do mandato do presidente. Para Bush, a confirmação dessa tendência histórica seria politicamente desastrosa, pois poderia colocar a oposição democrata no comando do Congresso. Isso limitaria drasticamente sua margem de manobra no Capitólio e poderia complicar sua campanha à reeleição em 2004. O Partido Republicano controla hoje a maioria na Câmara, por uma diferença de apenas seis votos e é minoria no Senado.A preocupação obsessiva de Bush com seus planos de guerra contra Saddam Hussein e o Iraque, nos últimos meses, e sua desatenção em relação ao estado incerto da economia, que é o tema mais importante para os eleitores, abriram espaço para uma revés político para o líder americano. Mas os estrategistas da Casa Branca reagiram a tempo e puseram a imensa popularidade de Bush a serviço de evitar uma derrota e - mais do que isso - tentar a retomada do controle do Senado.O envolvimento pessoal de Bush na campanha é tão forte que deu ao pleito, sobretudo nas disputas para o Senado, uma caráter de referendo.Isso foi acentuado pelas repetidas viagens que o presidente fez nas últimas semanas à Flórida para ajudar seu irmão, Jeb Bush, a garantir a reeleição ao governo do estado. Trata-se, de certo modo, de uma retribuição do favor que George W. recebeu de Jeb nas eleições do ano 2000, quando a Flórida garantiu sua eleição à Casa Branca, depois de uma controvertida batalha de recontagem de votos que acabou sendo resolvida 34 dias depois das eleições pela Suprema Corte, por 5 votos a 4.Bush esteve hoje em Iowa, Missouri, Arkansas e Texas. No domingo, fez campanha em Illinois, Minnesota e Dakota do Sul. Os presidentes americanos raramente vão à gelada e provinciana Dakota do Sul. Mas Bush esteve lá nada menos que quatro vezez nas últimas três semanas, e estabeleceu um recorde que dificilmente será quebrado. A razão do interesse especial do presidente é que a Dakota do Sul é o estado do líder da maioria democrata no Senado, Tom Daschle. Uma vitória do candidato republicano, John Thune, que ele recrutou pessoalmente para desafiar o senador Tim Johnson, enfraqueceria Daschle, mesmo na hipótese de os democratas manterem o controle do Senado.Na véspera das eleições, cerca de 40 disputas pela Câmara (os deputados americanos representam distritos geográficos, com populações equivalentes) e uma dúzia de brigas pelo Senado continuavam muito apertadas para permitir uma previsão segura. As últimas pesquisas sugeriam, no entanto, que Bush poderá conseguir pelo menos parte do que quer: de acordo com sondagem Gallup, são maiores as chances de os republicanos manterem a Câmara do que de os democratas preservarem a vantagem no Senado.Os democratas contra-atacaram, mobilizando Clinton e o ex-vice-presidente Albert Gore para a campanha. Gore, que perdeu a Casa Branca por uma diferença de apenas 537 sufrágios na contestada votação popular na Flórida, voltou hoje ao estado para o comício de encerramento da campanha do advogado Bill McBride, que tenta impedir a reeleição de Jeb Bush.Uma das disputas que despertam maior interesse é a do Senado em Minnesota. A morte do senador Paul Wellstone, num acidente de avião, dez dias antes do pleito, trouxe de volta à política o ex-vice-presidente Walter Mondale. A pedido da família de Wellstone, Mondale assumiu sua candidatura, o que é permitido pelas leis eleitorais da Minnesota, e têm, aos 74 anos, boas chances de vencer. O resultado das eleições, em Minnesota e nos demais Estados, dependerá, porém, da taxa de comparecimento de eleitores, que é historicamente mais baixa nas eleições de meio de mandato e poderá, desta vez, estabelecer um novo recorde de abstenção. Pesquisas sugerem que apenas 37% dos eleitores comparecerão às urnas.Contestações judiciais previstas em várias eleições para a Câmara e o Senado poderão impedir que se saiba, durante dias ou até semanas, quem controlará as duas casas do Congresso nos dois anos finais do atual mandato de Bush.

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