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Stephanie Keith/AFP
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Epidemia amplia mortes causadas por outras doenças nos EUA, indica estudo

Análise da Universidade de Yale aponta que houve, entre abril e maio, 15,4 mil óbitos a mais em todo o país, período em que foram registrados 8.128 mortes pela covid-19

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 04h00

WASHINGTON - Nas primeiras semanas da pandemia, os EUA registraram 15,4 mil mortes a mais do que o normal, quase o dobro do que foi atribuído à covid-19, segundo uma análise feita pela Escola de Saúde Pública da Universidade Yale publicada ontem pelo Washington Post. O excesso de mortes – muito além do esperado para esta época do ano – ocorreu entre março e 4 de abril, quando foram relatadas 8.128 mortes por coronavírus no país.

O excesso não tem ligação direta com a covid-19. Elas podem incluir pessoas que morreram em razão da epidemia, mas não da doença, pacientes que tinham medo de procurar tratamento ou não conseguiram vagas em hospitais, além de óbitos que fazem parte da variação comum da taxa de mortalidade, como aumento ou diminuição de homicídios, suicídios e acidentes de carro.

No entanto, em qualquer pandemia, a mortalidade acima do normal é um ponto de partida para os cientistas que tentam entender o impacto total do surto. A análise de Yale, pela primeira vez, estima o excesso de mortes em cinco semanas, com base em dados do Centro Nacional de Estatísticas da Saúde (NCHS, na sigla em inglês).

O estudo sugere que as mortes, com base em dados dos departamentos estaduais de saúde, não capturam todo o impacto da pandemia. “O número de mortos é bem maior do que o relatado”, disse Daniel Weinberger, professor de epidemiologia de Yale e líder da equipe de pesquisa. “É importante obter os números exatos para as autoridades entenderem como a epidemia evolui e a gravidade dela em lugares diferentes.”

A análise de Yale indica que 11.492 pessoas morreram na cidade de Nova York entre março e 4 de abril, 6,3 mil pessoas a mais do que a média. Desse total, apenas 2.543 (ou 40%) por covid-19. Na semana passada, o governador do Estado, Andrew Cuomo, reconheceu que a contagem oficial tem defeitos. “O número é maior”, disse. “São contados apenas os óbitos em hospitais ou em casas de repouso.”

A família de Adrian Sokoloff, de Long Island, ilustra a situação. Aposentado de 99 anos, ele apresentou sintomas em 19 de março. Segundo a família, seu pneumologista o diagnosticou com covid-19 em razão de febre, tosse e porque dois de seus cuidadores perderam o paladar. Mas os filhos decidiram não levá-lo a um hospital, com medo de que ele morresse sozinho. Por isso, ele nunca foi testado para a covid-19 e morreu em casa, dia 29 de março. Seu atestado de óbito diz apenas “insuficiência cardíaca”. 

Karen Sokoloff, a filha, diz que o caso do pai deveria ser incluído no número oficial de mortos e teme que uma contagem artificialmente baixa esteja dando sinal verde a alguns Estados para suspender o isolamento prematuramente. “Se você não estiver contando o número de pessoas que morreram, não pode tomar uma decisão inteligente”, disse.

O índice de problemas de saúde aumentou em vários lugares. Marco Navarro, paramédico que trabalha no Estado de New Jersey, relata que antes da pandemia ele passava três semanas sem atender uma parada cardíaca ou realizar uma ressuscitação cardiopulmonar. Agora, isso acontece duas ou três vezes ao dia. E ninguém sabe o porquê. O vírus está atacando o coração? Coágulos sanguíneos estão causando problemas cardíacos? “Eu realmente não tenho uma resposta”, disse Navarro.

Dados de ligações de emergência de várias cidades também sugerem um aumento no número de pessoas que morrem em casa, circunstância que torna as pessoas menos propensas a serem diagnosticadas ou incluídas na contagem oficial de mortos. Em abril, os paramédicos de Chicago e Detroit identificaram um salto no número de ligações nas quais o paciente é declarado morto no local.

Divergências

No entanto, em dezenas de Estados, a análise de Yale mostra que o número relatado de mortes ficou inalterado ou até diminuiu um pouco em comparação com a média histórica. A explicação mais plausível é que, em algumas regiões, a pandemia começou mais tarde, matando poucas pessoas até no início de abril. O número pequeno de óbitos também pode ter sido compensado pela diminuição de acidentes de carro ou assassinatos, pois as pessoas ficaram isoladas em casa. 

Embora a contagem até 4 de abril seja mais completa do que a que havia nas semanas anteriores, ela permanece incompleta e o número de mortes continuará aumentando nos próximos meses, à medida que os Estados reportarem mais óbitos. “O número real de mortes só será conhecido daqui a um ano”, disse Weinberger.

De qualquer maneira, autoridades admitem que a contagem final será mais alta do que a relatada agora, segundo e-mails obtidos pelo Instituto Brown de Inovação em Mídia, da Universidade Columbia, compartilhados com o Washington Post.

Em uma mensagem de 4 de abril, a secretária de Saúde de New Orleans, Jennifer Avegno, fala sobre o aumento da atividade dos paramédicos, que identificam 24% mais ressuscitações e óbitos no local de atendimento do que o registrado em março de 2019. 

“Acrescentaria 15% ao número conhecido de mortes (por covid-19)”, escreveu Avegno a duas autoridades da cidade. “No entanto, nenhuma cidade ou Estado vai levar isso em conta, e também não acho que deveríamos. Devemos presumir que as mortes sejam cerca de 15% a mais do que contamos, mas não as incluiremos na modelagem oficial porque nunca saberemos o que aconteceu de fato.”

Em entrevista por telefone, Avegno se disse preocupada com a retomada das atividades econômicas com base em números subestimados de mortos por covid-19. “Eu me preocupo que os números deem uma falsa sensação de segurança”, afirmou. “Eles podem passar a impressão de que há menos casos, mas não estamos testando o suficiente para sabermos a verdade.” / W. Post

 

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